19/08/2009

Uma Nação Sonâmbula



Para que o mal floresça é apenas necessário
que os homens de bem nada façam”
Edmund Burke
O simples nascimento e estabelecimento de crenças e opiniões das massas é um fenómeno “arrepiante”. De uma forma global, a pessoa quando é “absorvida” pelas massas deixa de lado todo o seu ser pensante, e todo o seu sentido crítico, para dar lugar à alma, voz, espírito das massas. Torna-se, de facto, como afirma Gustave Le Bom, uma “folha seca arrastada pelo vento”, sendo uma espécie de sonâmbulo no meio da sociedade.
Este nascimento e estabelecimento das crenças e opiniões das massas dão-se de dois modos: factores longínquos e factores imediatos. Cada qual sendo necessário não é suficiente em si mesmo. Ou seja, são dois modos que estão intimamente relacionados, que somente têm sentido enquanto correlação entre si, apesar de tratarem de âmbitos um pouco divergentes. Por um lado, temos os factores longínquos, que “tornam as massas capazes de adaptar determinadas convicções e inaptas para se deixarem influenciar por outras”1, preparam de certo modo o “terreno” para as ideias, as quais aparecem muito repentinamente. Por outro lado, temos os factores imediatos que surgem após o imenso trabalho dos factores longínquos, fazendo uma persuasão activa junto das massas, permitem com que a ideia ganhe forma2.
O que nos interessa aqui tratar são os factores longínquos: a raça, as tradições, o tempo, as instituições, a educação, os quais podemos encontrar na base de todas as crenças e opiniões das massas.
O mais importante dos factores longínquos é a raça, uma vez que possui um imenso poder e influência. Alguns estudiosos entendem que a sua etimologia provém da palavra latina “radix”, que significa raiz ou tronco; enquanto outros acham que ela tem origem na palavra italiana “razza”, que significa linhagem ou criação. Ela tem sido usada para designar qualquer agregado de pessoas que podem ser identificados como pertencentes a um grupo. De acordo com este entendimento, as pessoas que possuem os mesmos ancestrais, ou compartilham com as mesmas crenças ou valores, mesma linguagem ou qualquer outro traço social ou cultural são considerados como uma raça3. Portanto, a raça é algo de muito intrínseco a uma determinada sociedade. Como afirma Gustave Le Bon: “o poder da raça é tal que nenhum elemento passaria de um povo para outro sem sofrer as mais profundas transformações”4.
Um outro factor é a tradição. Ela representa “as ideias, as necessidades, os sentimentos do passado”5. A tradição é importante para pensar a história, o homem não pode sair dela; está deste modo condicionado por ela. O conhecimento e a compreensão que o homem tem de si, da natureza e da história, mergulham na tradição. A tradição é a condição de possibilidade da compreensão humana em geral6. Assim, a tradição uma síntese da raça, e é aquilo que verdadeiramente conduz um povo. Portanto, sem a tradição não era possível a civilização. Mas, um povo tem que encontrar um certo “meio-termo” no que se refere às tradições. Ou seja, tem que conseguir um equilíbrio entre o “criar uma rede de tradições e depois destruí-la quando os seus benéficos se esgotam”7. Caso um povo entre em desequilíbrio algo de errado provavelmente acontecerá, como foi o exemplo da Alemanha nazi, entre outros... Desta forma, a tarefa fundamental de um povo é “preservar as instituições do passado, modificando-as pouco a pouco”8.
O tempo, segundo Le Bom, representa o verdadeiro criador e o grande destruidor. Tudo precisa de tempo para se formar. Tempo é um fluxo9, corrimento de acontecimentos, indicado por intervalos ou períodos de duração. É o tempo que faz evoluir e morrer todas as crenças. Sobretudo, “prepara as opiniões e as crenças das massas, ou melhor o terreno onde elas brotarão”10.
As instituições são organizações ou mecanismos sociais que controlam o funcionamento da sociedade e dos indivíduos. A instituição é um conceito para designar ideias e organizações que levam em conta os interesses ou juízos de valor de um extenso grupo cultural, através de formas especiais, de intervenção cultural; compreendem meios e formas especiais que um grupo maior considera necessário para alcançar fins específicos11. De uma forma generalizada existe a utopia que as instituições podem remediar todos os defeitos da sociedade. Contudo, não convém esquecer que as instituições são “filhas das ideias, dos sentimentos e dos costumes” da própria sociedade. É uma realidade que as instituições representam o produto da raça. Assim, “não é nas instituições que é preciso procurar a forma de agir em profundidade sobre as massas”12. Mas, as instituições engendram agitações na alma das massas, porém não possuem por si só nenhuma virtude. Pois, as instituições agitam as massas apenas enquanto “disfarce” e ilusão de criar felicidade.
A educação é o lugar das ideias dominantes. A educação engloba ensinar e aprender. É um fenómeno presente em qualquer sociedade, responsável pela sua manutenção e perpetuação a partir da passagem, às gerações que se seguem, dos meios culturais necessários à convivência de um membro na sua sociedade13. Contudo, esta mesma educação poderá ter perigos. O filósofo Herber Spencer defendeu que “a instrução não torna o homem nem mais moral nem mais feliz (…) pode, mal direccionada, tornar-se muito mais perniciosa do que útil”14. Um erro frequente é o facto de pensar-se que recitar manuais desenvolve a inteligência. Assim, “o jovem não faz mais nada senão engolir o conteúdo de livros, sem nunca exercer a sua capacidade de julgamento e a sua iniciativa”15. Mas, a educação é um factor longínquo importante, pois, é preciso saber como é que o terreno foi preparado numa sociedade. “O ensino que é ministrado num país permite prever um pouco os destinos desse mesmo país (…) é em parte com a educação que se melhora ou se altera a alma das massas”16.
Como exemplo prático a fim de descrever melhor este nascimento e estabelecimento das crenças e opiniões de massas vamo-nos debruçar sobre o fenómeno da ascensão de Hitler, do partido nazi e toda a movimentação de massas que isso instaurou.
Ao visualizarmos o filme “Hitler - A Ascensão do Mal” deparamo-nos com uma serie de factores que provocaram o nascimento e o estabelecimento de crenças e opiniões de massas de um modo estruturado e quase inabalável.
Quando tinha 10 anos Adolf Hitler já exibia um comportamento anti-social, que foi detectado pela família e amigos. Sendo apenas adorado por sua mãe, Klara, que pensa que ele é um menino normal. Quando era adolescente Hitler desejava ser um grande artista, apesar das objecções da sua mãe, que tinha cancro. Em 1907 tenta ser aceite na Academia de Artes Visuais em Viena, mas é rejeitado. Imensamente desapontado e zangado, é nesta época, que Hitler ouve um discurso anti-semita proferido por Karl Lueger (Richard Haas), o prefeito de Viena17.
Deste modo, Hitler começa a aderir às teorias de Lueger, que dizem que os judeus são culpados por tudo aquilo que está errado na Alemanha. Hitler faz uma atribuição causal a tudo o que está mal, atribuindo nomeadamente culpa aos judeus devido ao desemprego. Mas também considera indesejáveis os Testemunhas de Jeová, eslavos, poloneses, ciganos, negros, homossexuais, deficientes físicos e mentais. Vê-mos nesta atitude uma forma de chegar à raça pura, na qual as pessoas possuem os mesmos ancestrais18. Hitler ambicionava, desta forma, fundamentar uma raça verdadeiramente alemã. Este é um facto importante no nascimento das massas, pois Hitler apelava ao verdadeiro alemão para fazer uma catarse de tudo aquilo que o está a impedir de viver bem. Assim, foi fácil ver os alemães revoltarem-se, principalmente os mais desfavorecidos, pobres, desempregados, contra os que eram empecilho ao desenvolvimento da raça ariana.
Concomitantemente, Hitler conhece os membros do Partido Alemão dos Trabalhadores (instituição), onde começou a ser orador, atacando os judeus, os socialistas e os liberais, os capitalistas e os comunistas, e começou a atrair simpatizantes. Rapidamente Hitler torna-se líder deste partido, nomeado de Nazi, criando consequentemente um símbolo19 (a cruz suástica).
Uma vez que estavam as nascer crenças e opiniões de massas cativantes a favor de uma raça pura, só foi necessário dar tempo para se consolidar essas crenças e opiniões.
Tiveram do mesmo modo um papel fulcral para o nascimento e estabelecimento das crenças e opiniões de massas: a propaganda. Pois, constatou-se que nasceu durante o período nazi um processo de comunicação que fez mudar as atitudes das massas, “como resultado da consciência de que a máquina de guerra alemã usava os meios de comunicação social como forma de propaganda das ideias nazis”20. De facto, a influência da comunicação persuasiva é um factor importante na formação e mudança de atitudes.
Em suma, com o nazismo conhecemos um episódio da nossa história recente em que uma nação inteira se mostrou capaz de actos dignos dos mais arrepiantes zombies. E o comportamento emitido pelo partido nazi foi algo que os indivíduos adquiriram e utilizaram docilmente para substituir a própria razão como autênticos sonâmbulos, tornando-se assim a Alemanha numa nação praticamente sonâmbula.



Bibliografia

AA. VV. – Adoro Cinema. http://www.adorocinema.com/filmes/hitler/hitler.asp.

AA. VV. – Dicionário de Psicologia. São Paulo: Edições Loyola, 1982.

AA. VV. – Logos – Enc. Luso-Brasileira de Filos. Vol. 1-5. Lisboa: Verbo, 1989-1992.

AA. VV. – Psicologia Social. Lisboa: Fundação Caloutre Gulbenkian, 2004.

AA. VV. - Wikipédia, a enciclopédia livre. http://pt.wikipedia.org.

BLACKBURN, Siman – Dicionário de Filosofia. Lisboa: Gradiva, 1997.

LE BON, Gustave – Psicologia das Massas. Lisboa: Edições Esquilo, 2005

MITCHELL, Glenford, e JORDAN, Daniel – “O QUE É RAÇA?”. In: Unidade Racial. http://www.bahai.org.br/racial/Raca.htm.
--
1 LE BON, Gustave – Psicologia das Massas. Lisboa: Edições Esquilo, 2005, p. 87.
2 Cf. LE BON, Gustave, op. cit., p. 87.
3 Cf. MITCHELL, Glenford, e JORDAN, Daniel – “O QUE É RAÇA?”. In: Unidade Racial. http://www.bahai.org.br/racial/Raca.htm#significa . Acedido em 21 de Outubro de 2007.
4 LE BON, Gustave, op. cit., p. 88
5 LE BON, Gustave, op. cit., p. 89
6 Cf. AA. VV. – Logos – Enc. Luso-Brasileira de Filos. Vol. 1-5. Lisboa: Verbo, 1989-1992.
7 LE BON, Gustave, op. cit., p. 90
8 LE BON, Gustave, op. cit., p. 90
9 Cf. BLACKBURN, Siman – Dicionário de Filosofia. Lisboa: Gradiva, 1997.
10 LE BON, Gustave, op. cit., p. 92
11 Cf. AA. VV. – Dicionário de Psicologia. São Paulo: Edições Loyola, 1982, vol. 2, p. 249.
12 LE BON, Gustave, op. cit., p. 95
13 Cf. AA. VV. – “Educação”. In: Wikipédia, a enciclopédia livre. http://pt.wikipedia.org/wiki/educação. Acedido em 21 de Outubro de 2007.
14 LE BON, Gustave, op. cit., pp. 96-97.
15 LE BON, Gustave, op. cit., p. 98.
16 LE BON, Gustave, op. cit., p. 104.
17 Cf. AA. VV. – Adoro Cinema. http://www.adorocinema.com/filmes/hitler/hitler.asp. Acedido em 21 de Outubro de 2007.
18 Contudo, “a maioria dos cientistas concordam que toda a espécie humana provem do mesmo tronco ancestral, o qual provavelmente apareceu entre 600.000 a 1.000.000 de anos atrás. Eles, além disto, concordam que raça “pura” no homem nunca existiu e nem pode agora existir, não obstante às migrações extensivas e os casamentos inter-raciais que houveram continuamente desde o começo das espécies” . MITCHELL, Glenford, e JORDAN, Daniel – “O QUE É RAÇA?”. In: Unidade Racial. http://www.bahai.org.br/racial/Raca.htm#significa . Acedido em 21 de Outubro de 2007.
19 Os símbolos são um factor importante para o nascimento e instituições das crenças e opiniões das massas.
20 AA. VV. – Psicologia Social. Lisboa: Fundação Caloutre Gulbenkian, 2004, p. 217.


Gostou deste artigo? Receba outros por e-mail, assine a nossa newsletter. Digite aqui o seu e-mail:

Este artigo, com comentários, encontra-se no seguinte tema: ,

Escreva aqui os seus comentários ao artigo "Uma Nação Sonâmbula":

5 Domingos Faria: Uma Nação Sonâmbula “ Para que o mal floresça é apenas necessário que os homens de bem nada façam” Edmund Burke O simples nasciment...
< >