17/08/2009

Transcendente e Transcendental



Transcendente é aquilo que está para além de toda a experiência possível. É o objecto em relação ao sujeito cognoscente em toda a filosofia realista (em oposição ao idealismo que afirma a imanência do objecto). Os escolásticos denominavam as propriedades do ser como transcendentes.
O conceito de transcendência deve ser reservado para significar a transcendência gnosiológica, ou seja, a transcendência do objecto em relação à consciência e à transcendência ontológico-metafísica, que é a transcendência dos seres não acessíveis a forma alguma de experiência sensível (por exemplo: Deus).

Transcendental pode referir-se ao transfenomenal, o que está atrás das aparências. O que está para além do escopo quer da razão quer da experiência, mas presumivelmente dentro do campo da religião ou do idealismo subjectivo
De uma forma geral, transcendental é o que ultrapassa algo, o que está para além de algo. Está muito relacionado com transcendente, e conforme o significado atribuído a transcendente, assim temos o sentido de transcendental.
Na corrente aristotélico-escolástica transcendental caracteriza os atributos que, ultrapassando as categorias de Aristóteles, se aplicam a todos os seres: o uno, o verdadeiro e o bom são transcendentais. Contudo, esta acepção de transcendental só é usada a partir de meados do séc XIII nas sistematizações lógicas da escolástica tardia.
Tomás de Aquino define transcendental como aquelas propriedades “que se acrescentam ao ente, enquanto exprimem um modo deste que não é manifestado com o nome do ente”.
Em Kant desaparece o sentido ontológico do transcendental, originando um novo sentido de acordo com a chamada “revolução coperniana”. Para Kant, transcendental é a condição “a priori” da possibilidade da coisa. Simplesmente a coisa, da qual o transcendental é a condição, não é “coisa em si”, mas “fenómeno”. Kant faz a acepção de transcendental como sendo toda a condição “a priori” que possibilita o conhecimento. Mas, num todo o “a priori” é transcendental. Transcendental é a doutrina das condições “a priori” do nosso conhecimento. “Chamo transcendental a todo o conhecimento que em geral se ocupa menos do objecto do que do nosso modo de conhecer, na medida em que este deve ser possível a priori”.
No séc. XIX modifica-se a noção de transcendental com filósofos como Fichete, Hegel e Schopenhauer. Nesta fase o transcendental é considerado a origem primeira de tudo. Husserl classifica a sua fenomenologia como filosofia transcendental. Deste modo, a filosofia regressa à subjectividade como fundamento último de todas as formações objectivas de sentido e validade do ser. Em Husserl a experiência transcendental consiste em examinar o cogito transcendentalmente reduzido e descrevê-lo sem modificar a posição de existência natural implícita na percepção espontânea.


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