25/08/2009

Top 10 “bocas” em “O Anticristo”


[1]
“Olho à minha volta: já não resta uma palavra só do que antigamente se chamava «verdade», já não aguentamos que um sacerdote ponha sequer na boca a palavra «verdade». Mesmo na mais modesta pretensão de equidade, deve hoje saber-se que um teólogo, um sacerdote, um Papa, e cada frase que pronuncia, não só se engana, mas mente”. (§38)
[2]
“«Não julgueis»! dizem eles, mas mandam para o inferno tudo o que se encontra no seu caminho. Ao deixarem Deus julgar, são eles próprios que julgam; ao glorificarem Deus, é a si mesmos que glorificam”. (§44)
[3]
“À «Boa Nova» seguiu-se de imediato a pior de todas: a de Paulo. Em Paulo, personifica-se o tipo antagónico ao do «alegre mensageiro», o génio no ódio, na visão do ódio, na implacável lógica do ódio”. (§42)
[4]
“Paulo foi o maior de todos os Apóstolos da vingança… Que daí se segue? Que é bom calçar luvas, ao ler-se o Novo Testamento. A proximidade de tanta imundície quase força a tal. Evitaríamos tanto os «primeiros cristãos» como os Judeus polacos: não é que seja preciso fazer-lhes sequer uma censura… Não cheiram bem. Em vão perscrutei no Novo Testamento um só traço simpático; nada aí se encontra que seja livre, bom, franco, leal. A humanidade não fez ainda aqui o seu primeiro começo – faltam instintos da limpeza… No Novo Testamento, há unicamente maus instintos, não há sequer a coragem dos maus instintos. Tudo nele é cobardia, fechar os olhos e auto-engano. Qualquer livro se torna limpo, depois de se ter lido o Novo Testamento”. (§45 e 46)
[5]
“Falta também aqui a publicidade: o esconderijo, o lugar obscuro é cristão. Aqui se despreza o corpo e se rejeita a higiene como sensualidade; a Igreja defende-se até da limpeza (a primeira medida dos cristãos, após a expulsão dos Mouros, foi o encerramento dos banhos públicos, dos quais existiam, só em Córdova, duzentos e setenta). Cristão é um certo sentido de crueldade para consigo e para com os outros; o ódio aos que pensam de outro modo; a vontade de perseguir”. (§21)
[6]
“O pecado, diga-se mais uma vez, essa forma de autopoluição do homem par excellence, inventou-se para impossibilitar a ciência, a civilização, toda a elevação e nobreza do homem; o sacerdote reina graças à invenção do pecado”. (§49)
[7]
“Ponho de lado alguns cépticos, o exemplo decente na história da filosofia: quanto aos restantes, ignoram as primordiais exigências da probidade intelectual. Todos esses grandes exaltados e prodígios fazem como as mulherzinhas – tomam logo por argumentos os «belos sentimentos», por sopro da divindade o «peito erguido», e a convicção por um critério de verdade”. (§12)
[8]
“E, ainda por cima, um dogma da «Imaculada Conceição»?... Mas ela maculou assim a concepção…” (§34)
[9]
“Para que o amor seja possível, Deus deve ser uma pessoa; para que os instintos ínfimos se possam expressar, Deus deve ser jovem. Para o fervor das mulheres, há que pôr em primeiro plano um belo santo; para o dos homens, uma Virgem Maria”. (§23)
[10]
“Hei-de escrever em todas as paredes esta eterna acusação contra o Cristianismo, onde quer que haja paredes – tenho letras que até hão-de fazer ver os cegos… Chamo ao Cristianismo a última grande calamidade, a única grande depravação interior, o único grande instinto de vingança, para o qual nenhum meio é suficientemente venenoso, sub-reptício, subterrâneo, baixo – chamo-lhe a única nódoa imortal da humanidade…” (§62)
Comentário
Vê-se claramente neste “Top Ten” que Nietzsche apresenta uma crítica duríssima ao cristianismo. Parecem grandemente exageradas, mas será que na sua essência não têm algum fundo de verdade? Considero que apesar de todas estas críticas Nietzsche não elimina a Boa Nova do “alegre mensageiro”, no entanto, este filósofo é muito perspicaz ao ver muitas formas de corrupção de cristianismo que se afastam da fonte que é Cristo e se tornam em caricaturas daquilo que é cristianismo. Penso que não é difícil ver algumas caricaturas do cristianismo neste “Top Ten”, por exemplo: a contradição entre dizer para não julgar e ele próprio julgar, uma visão de vingança e ódio (em vez de amor), a relação de oposição entre fé e ciência (em vez de ser de diálogo), a projecção de um deus antropomórfico, entre outros…
Considero que o cristianismo não pode estar alheio às críticas da razão (como as de Nietzsche), pois, se não se abrir à razão corre o risco de não se tornar uma verdadeira experiência humana de fé, mas apenas poderá ficar pela caricatura. Deste modo, como afirma Alfredo Dinis “a religião só poderá sobreviver como experiência humanamente relevante se se submeter a uma crítica tão rigorosa quanto possível”[1].

[1] http://dererummundi.blogspot.com/2007/12/porqu-deus-se-tenho-cincia-ii.html


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