25/08/2009

A Rejeição do Cartesianismo por Charles Peirce


O interessante livro "O Pragmatismo" de John Murphy começa por nos expor precisamente o seu fundador: Charles Sanders Peirce; o qual nasceu em Cambridge, Massachusetts, em 1839. É importante salientar que foi educado como "um experimentalista". Estudou filosofia na década de 50 em Harvard. É óbvia a influência de Kant. Até tinha estudado, sob a tutela do seu pai, a Crítica da Razão Pura. Com Kant teve a noção que aquele pensamento era de certa forma semelhante às formas de pensar próprias do laboratório. Deste modo, o seu estudo de Kant foi análogo ao ambiente vivido em laboratório, ou seja, sempre na ânsia de apenas aprender o que não se sabe.
Quanto a Descartes, via o pensador que colocara a filosofia moderna no mau caminho, isto é, o caminho do cepticismo. Peirce erigiu-se como anti-cartesiano.
Descartes a pensar em "ideias adventícias", ou "a ideia ideia" (segundo Quine), ou nas palavras de Rorty "uma tal arena interior com o seu observador interno".
Peirce concebe que ter a ideia (como Descartes) é crer que temos poder de introspecção. Por conseguinte, é assumir que temos um faculdade intuitiva para distinguir as "ideias determinadas por" outras ideias... (Exemplo: a ideia A é determinada pelas ideias B1, etc...). Mas, Peirce defende que não temos nenhuma destas faculdades, ou seja, não temos poder de introspecção, uma vez que todo o nosso conhecimento do mundo interno é derivado da observação de factos externos.
Para Peirce, o filósofo Descartes, comummente chamado de "pai" da filosofia moderna, apresenta na sua filosofia nomeadamente as seguintes características: filosofia começa com a dúvida universal; teste último da certeza deve ser encontrado na consciência individual; argumentação numa cadeia única de inferências; factos que cartesianismo não só não explica, com deixa absolutamente inexplicáveis. No entanto, Peirce considera que a ciência e a lógica moderna requerem uma base diferente do cartesianismo (ou mesmo da escolástica anterior).
Deste modo, Peirce opõe ao espírito do cartesianismo o espírito do experimentalismo. A sua adopção ao espírito do experimentalismo centra-se no seguinte:
(1) Nega que a filosofia deva começar com a dúvida universal. Nas palavras de Peirce: "Não podemos começar pela dúvida completa. Devemos começar com todos os preconceitos que efectivamente temos (...) Não finjamos duvidar, em filosofia, daquilo que não duvidamos em nossos corações". Pois, quando se tem uma dúvida genuína, tem que se ter uma razão para duvidar.
(2) O espírito do experimentalismo nega que o último teste de certeza deva ser encontrado na consciência individual. Como Peirce salienta: "fazer dos indivíduos singulares juízos absolutos da verdade é muito pernicioso. (...) Nós, individualmente, não podemos, com razoabilidade, esperar atingir a filosofia última que perseguimos. Apenas a podemos procurar, portanto, para a comunidade dos filósofos". Peirce concebe, então, a filosofia numa comunidade de homens que chegam a acordo (idealismo comunitário de raiz científica), podendo-se deste modo falar de saber, verdade e realidade.
(3) O espírito do experimentalismo nega que uma teoria filosófica deva ser uma cadeia de inferências, à maneira de Descartes. Segundo Peirce: "a filosofia deve imitar as ciências de sucesso nos seus métodos e, assim, proceder apenas a partir de premissas tangíveis". A experiência, tal como é concebida pelo experimentalista, é algo tangível. Devendo, então, a filosofia imitar mais do que criticar as ciências de sucesso.


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