19/08/2009

Reflexão sobre a Grandparenthood



Meditação antropológica sobre a
transição e desafios da “Grandparenthood”
Chamemos a isto «a zona quente»”1
A visionação do filme “Everybody Loves Raymond” suscitou-nos uma série de questões das quais será bastante profícuo reflectir. Concomitante à transição para a parentalidade emerge no ciclo familiar (das famílias de origem) a mutação para a “grandparenthood”2. Todavia, em que consiste esta transição? Que desafios levanta? O que é uma transição funcional ou disfuncional para a “grandparenthood”? Pode ter consequências positivas ou negativas estar na “zona quente”?
De facto, percepcionamos (em termos genéricos) que a “grandparenthood” é uma transição ontologicamente enriquecedora; pois, é o culminar de uma sucessão de transições, o que de certo modo implicará uma visão mais madura da realidade, contemplando todo o dom e dádiva que facultaram (e que agora se manifesta na terceira geração - netos); e, do mesmo modo, defrontam-se perante a questão epilogar da existência a qual intensamente se desvela3. Porém, a transformação radical e próxima do fenecimento não deve ser encarada de forma dilacerante ou angustiante, uma vez que o seu ser permanece analogicamente no ser das gerações subsequentes. Assim, a hereditariedade é uma oblação de sentido e esperança à “grandparenthood”; pois, a família permanece, perpetua-se.
A “grandparenthood”, que acontece e se enceta com o fenómeno da natividade do neto4, é algo muito gratificante para avós e netos; por exemplo, na vivência da afectividade. Neste feito, os avós têm a sua própria missão5 que alude ao auxílio à aquisição da parentalidade dos seus filhos. Normal e funcionalmente esta fase não está marcada pelo egotismo, mas sim é pautada por uma incondicional dádiva ao outro (filho ou neto) numa realização do outro. Assim, num horizonte de funcionalidade, como advoga Cigoli “the family of origin acknowledges that new parents have prime responsibility for bringing up their child, while the new parents are expected to legitimize their own parents as grandparents and the grandchild’s role as both a continuer of and a leading actor in their family history”6.
Sem embargo, este cuidado pelo outro na “grandparenthood” não é sinónimo de atrofiamento ou impedimento do outro ser veemente aquilo que é. Então, nesta perspectiva, deve fomentar-se uma remodelação das distâncias de avós com os filhos, para que estes últimos não sejam impedidos de assumir em toda a sua eloquência a parentalidade. Desta forma, uma salutar “intimidade à distância”7 deve ser o modelo da relação avós-filhos. Pois, os avós devem constituir uma assistência para os filhos em momentos de maior indigência8; no entanto, os avós devem respeitar o casal enquanto casal9 (com todas as suas dinâmicas próprias e inerentes funcionalidades) e com a sua missão de parentalidade. Se funcionalmente se assumir uma “intimidade à distância” (em que cada um está disposto a colaborar com o outro quando solicitado, sem saquear a dinâmica vivencial do outro [na conjugalidade ou na função parental]), então, certamente existirá uma sadia relação intergeneracional.
Todavia, se não acontecer a devida desvinculação, poderá advir uma “intimidade sem distância”. Ora, isto poderá representar o intitulado síndrome do “ninho vazio”10 por parte da família de origem, a qual possivelmente possuirá tendências impeditivas para colaborar na distanciação e diferenciação do casal que emerge tanto em conjugalidade como em parentalidade. Esta questão da parentalidade é relevante, pois, uma presença demasiadamente pressionante (por parte da família de origem) até poderá suscitar incertezas e hesitações na efectiva aptidão de assumir o papel de pai ou mãe. Deste modo, manifesta-se como essencial a redefinição das distâncias de avós para pais, onde possa emergir o justo meio-termo aristotélico de equilíbrio entre desinteresse e invasão.
Toda esta acepção acerca de uma edificante desvinculação conduz-nos, do mesmo modo, necessariamente a uma breve resenha sobre o verídico intuito da parentalidade. Ora, é preciso ter em atenção que o pacto parental não se refere meramente aos cuidados e protecções com os filhos, mas também comporta em si a missão de dar o “empurrão afectuoso” (no sentido de deixar o filho ser ele mesmo em sua autenticidade, para por conseguinte fazer uma sã desvinculação, formando um casal originário [que não seja uma mera extensão da família de origem]11, e possa assumir em pleno as incumbências da parentalidade). É preciso advertir que a parentalidade não é sinónimo de hiper-protecção, mas refere-se a uma educação responsável para a autonomia, para que depois os filhos possam formar um casal fidedigno (ou seja, novo e único) e com devidas “fronteiras” ou desvinculações. Portanto, a parentalidade comporta em si o propósito de “lançar” os filhos na assumpção das responsabilidades adultas em pleno; e, por conseguinte, quando estes namoram e casam devem construir a sua identidade diferenciando-se ou distinguindo-se das famílias de origem, ou seja, tendo um novo modelo de laço com as suas famílias12. Assim, de uma generatividade parental passa-se para uma generatividade social.
Constatamos que as famílias de origem influenciam muito num positivo ou negativo processo de desvinculação, possibilitando ou impedindo (aos seus filhos) a anuência de efectivas relações de conjugalidade ou parentalidade. O bioéticista Daniel Serrão aborda esta questão de forma persuasiva. Este advoga que se os pais querem ver os seus filhos com um casamento feliz, e consequentemente sejam pessoas felizes, então, estes pais devem considerar o casamento dos seus filhos como uma prioridade, educando-os para uma responsável autonomia. Refere que “não se trata de educar filhas e filhos numa redoma de ignorância, numa super-protecção absoluta e inútil, com proibições absurdas e contraproducentes”; mas, é a “felicidade matrimonial dos seus filhos e filhas o seu objectivo principal e prioritário, têm de estar conscientes dos três componentes que garantem o sucesso na prossecução deste objectivo. São eles: conhecimentos, verdade e tempo”13. Deste modo, a família de origem coadjuva para que os seus filhos sejam realmente aquilo que são e assumam tanto a conjugalidade como a parentalidade; no entanto é necessária uma certa reestruturação14. Neste horizonte, a disfuncionalidade consistiria na família de origem que persistiria em ficar no seu egotismo, sendo os seus filhos sempre uma mera extensão, num impedimento constante de desvinculação15. Quando não acontece uma real estruturação da relação conjugal da família de origem tanto pode surgir um divórcio16 inesperado (pois, pode perder-se o sentido de projecto de vida, de meta como casal17) ou “ou uma tentativa de recuperar os filhos, provocando eventuais problemas de lealdade e dificuldades relacionais nas novas famílias nucleares”18.
Posteriormente a toda esta reflexão sobre diversos tópicos pertinentes relacionados com a “grandparenthood”, será interessante o confronto com o filme Raymond. O filme trata essencialmente de uma família de origem (Frank e Maria) que tem dificuldades na desvinculação com a família nuclear do seu filho (Raymond e Debra). Logo no início do filme a personagem Raymond19 refere que “o problema não são os miúdos; os meus pais vivem do outro lado da rua”20. De facto, é impressionante a forma como os pais de Raymond literalmente “invadem” a sua casa (bem como a sua harmonia familiar). Do mesmo modo, a família de origem parece destituir e descredibilizar a função parental da família Raymond e Debra, acabando por não saber qual é o seu verdadeiro papel de avós. A seguinte passagem de Maria é bastante elucidativa deste pensamento: “Comprei-vos leite completo. Acho que precisam de cálcio nesta casa. Quando cá estive de manhã, as pernas dos gémeos pareciam arqueadas”21. Frank e Maria impedem constantemente o casal Raymond e Debra de serem aquilo que realmente são22, bem como impedem, de certo modo, a parentalidade. Há uma certa asfixia23 na autonomia do casal, o que faz emergir uma anamnese24 do tempo em que Raymond e Debra viviam fora da “zona quente”, longe da casa dos pais (mas não o suficiente para eles pernoitar ou para os incomodar todos os dias).
Constata-se claramente que Frank e Maria não se reestruturaram com a nova família e apenas querem que esta seja uma mera extensão da família de origem. Não há respeito por limites ou fronteiras; estes avós invadem e pressionam totalmente o espaço íntimo da família nuclear. Os avós que, provavelmente sofrem da síndrome do “ninho vazio”, não pretendem qualquer desvinculação entre avós-pais (apesar de ser uma grande ânsia dos pais, pois, os avós ao se intrometerem constantemente na vida diária da família acabam por incomodar). Pretendem assumir também (enquanto avós) todo o papel da paternidade destituindo os próprios pais dessa função. Ora, se tirarmos a parte cómica do filme e se retratasse um caso verídico, então, certamente seria o maior drama e angústia inter-familiar. De facto, o filme consegue retratar caricaturalmente a pura disfuncionalidade da “grandparenthood”, simbolizado nas personagens de Frank e Maria.
Deste modo, concluímos que o filme representa uma transição que não foi bem feita. Quando Raymond e Debra mudaram para a habitação em frente da casa dos pais os problemas complicaram-se, pois, os pais tinham possibilidade de “invadir” todos os dias25 o espaço íntimo da família do seu filho. Ora, no antigo apartamento em Queens (como era a zona ideal de distância) os pais de Raymond não os podiam visitar frequentemente, e consequentemente não os incomodavam. Pois, se se proporcionar a alguém a sensação de um estalo no nariz longe a longe não incomoda, mas se for algo muito sucessivo e todos os dias começa, então, a incomodar. Se tivermos atentos ao filme verificamos que a transição nunca foi bem feita; Maria tinha quase as mesmas atitudes26, mas não era algo que irritasse, uma vez que só vinham visitar a família de Raymond longe a longe.
Neste trabalho evidenciamos, por um lado, a funcionalidade da transição para a “grandparenthood”; por outro, a disfuncionalidade desta transição, como o exemplo do filme “Everybody Loves Raymond”. Perante isto, constatamos que é necessário alertar para uma verdadeira vivência da família, a qual respeite o outro enquanto outro na sua autenticidade, permitindo que o outro seja realmente aquilo que é (sem invasão ou egotismo), e auxiliando quando for necessário; assim, também será possível viver com sentido a “grandparenthood” numa salutar “intimidade à distância”.
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1 Filme "Everybody Loves Raymond". Episódio "Why Are We Here?" Temporada: 01, Episódio Nº: 22, 00:12:38.
A zona quente” no filme refere-se à área próxima da casa dos avôs.

2 A palavra “grandparenthood” tem difícil tradução para português. Seria algo parecido com “avozidade”. Porém, devido a ter uma tradução equívoca preferimos manter o vocábulo no original inglês.

3 Muito plausivelmente a grande questão do “quanto resta para viver”, fruto de uma hermenêutica espontânea e natural, é proporcionada pelo nascimento dos netos. Nesta fase da “grandparenthood” é algo que surge muito instintivamente, uma vez que se deparam com o seu envelhecimento inato e irrevogável, bem como outros factores internos e externos.

4 “A família nuclear ao transitar para a parentalidade cria, portanto, uma nova função na geração precedente, o papel de avós”. RELVAS, Ana Paula – O Ciclo Vital da Família. Porto: Ed. Afrontamento, 1996, p. 109.

5 Missão deve ser entendida como uma vocação, um chamamento inato.

6 CIGOLI, Vittorio; SCABINI, Eugenia – Family Identity: Ties, Symbols, and Transitions. London:
Lawrence Erlbaum Associates, 2006, p. 123.

7 Isto é importante porque “Couples who can count on a good relationship with their families of origin, while also maintaining an appropriate distance from them, also cope better with challenges of parenthood”. Ibidem.

8 Como apreendemos nas aulas de psicologia da família: “os casais que tenham com uma presença adequada das famílias de origem, mais facilmente conseguem lidar com os desafios que a parentalidade e a conjugalidade apresentam”.

9 Este respeito pelo casal permitirá não “invadir” ou “assaltar” toda a intimidade e espaço privado do casal enquanto casal, e do espaço próprio do casal com os filhos.

10 Ninho vazio “já não significando a situação da mulher que sem os filhos em casa fica «vazia de função», passa a simbolizar a dificuldade do casal ao reencontrar-se sozinho no seu «ninho» agora «vazio de filhos»”. RELVAS, Ana Paula, Op. Cit., p. 193.

11 Como refere Ana Paula Relvas “o casal tem que reorganizar as suas fronteiras. (…) A criação de regras, de normas que definam as relações do novo casal com as suas famílias, exigem, tanto da parte de uns como de outros, um esforço de negociação por vezes muito revelante”. RELVAS, Ana Paula, Op. Cit., p. 66.

12 “A delimitação casal-família de origem deve ser um dos principais aspectos a trabalhar no inicio da relação de casal, sendo aceite que, se for adequadamente conseguida, as fases seguintes serão marcadas por uma maior facilidade relacional”. RELVAS, Ana Paula, Op. Cit., p. 68.

13 SERRÃO, Daniel – “Família: Futuro da Humanidade”. In: I Congresso Internacional em Defesa da Vida. Santuário Nacional de Nossa Senhora da Conceição Aparecida. São Paulo: Brasil, 6-10 de Fevereiro de 2008. (O autor enviou-me o texto por e-mail).

14 As “tarefas de reestruturação: 1) facilitar a saída dos filhos de casa, com vista à construção autónoma das suas próprias vidas; 2) renegociar a relação de casal, agora centrado na meia-idade; 3) aprender a lidar com o envelhecimento, primeiramente face às gerações mais idosas e posteriormente face ao próprio”. “A saída dos filhos de casa e posterior criação da própria família nuclear faz com que a «velha» família, agora transformada em família de origem, tenha que proceder a um realinhamento de limites” RELVAS, Ana Paula, Op. Cit., pp. 195, 211.

15 “Ao casar os indivíduos uniram-se e ligaram, também, duas famílias e nos primeiros tempos é difícil regular a gestão das relações com cada uma delas. (…) o conflito surja, particularmente nos casos em que a própria família não se inibe de, mais ou menos claramente, exercer alguma pressão”. RELVAS, Ana Paula, Op. Cit., p. 67.

16 Algumas estatísticas revelam que o divórcio também acontece numa fase tardia: http://alea.ine.pt/html/actual/html/act33.html - http://www.ine.pt/bddXplorer/htdocs/bddXplorer04.jsp?indOcorrCod=0000001&userLoadSave=&lang=PT# - http://www.ine.pt/ngt_server/attachfileu.jsp?look_parentBoui=30850783&att_display=n&att_download=y

17 Isto pode relevar que o casal vivia apenas a parentalidade mas não a conjugalidade. Assim, quando os filhos saem de casa (se não existe um sólido projecto de vida) o que poderão fazer?

18 RELVAS, Ana Paula, Op. Cit., p. 205.

19 Marido de Debra, pai de Ally, Geoffrey e Michael.

20 Filme "Everybody Loves Raymond", 00:00:48.

21 Filme "Everybody Loves Raymond", 00:02:57.

22 Frank e Maria até se intrometem em questões de culinária, actuando sem pedir autorização, numa total vivência sem respeito pelo que o outro realmente é. O seguinte diálogo entre Debra e Maria é interessante: “- Onde está o meu assado? - Está lá em casa. E o que faz lá em casa? Quando o cheirei há pouco, precisava mesmo de ser melhorado”. Filme "Everybody Loves Raymond", 00:03:17.
Onde continua: “Olha, querida, quanto ao assado, fiz o melhor que pude. Não adiantou. Mas trouxe-te macarrão riscado para as visitas. Diz-lhes que foste tu que fizeste”. Filme "Everybody Loves Raymond", 00:21:26.

23 “Meu Deus, já não aguento mais. Vamos mudar de casa”. Filme "Everybody Loves Raymond", 00:04:11.

24 “Nunca pensei que estranhasse tanto o nosso apartamento de Queens. (…) E os teus pais iam visitar-nos de dois em dois meses”. Filme "Everybody Loves Raymond", 00:04:22.

25 Raymond chama a isto “zona quente”.

26 Vemos estas atitudes “invasivas” e destituídoras da parentalidade, por exemplo, na seguinte passagem: “Trouxe-te leite completo. A Ally precisa de mais cálcio, agora que já anda”. Filme "Everybody Loves Raymond", 00:13:30.



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