20/08/2009

Questão da Filosofia Portuguesa



Todos sabemos que a filosofia é uma actividade
de iniciados e a sua realidade social nasce da paideia
e do contexto cultural que a cria e a torna possível”1

Após a leitura de alguns textos introdutórios pretendemos comentar os traços gerais da questão da filosofia portuguesa. Começamos por expor o problema principal, e por conseguinte apresentamos várias respostas (de M. Antunes, José Marinho, João Ferreira, Pedro Calafate) à questão inicial, para finalmente podermos comentar numa perspectiva pessoal este dilema.

1. O problema...
A grande questão da filosofia portuguesa é a seguinte: “haverá filosofias nacionais?”; “existirá realmente uma filosofia que se poderá chamar portuguesa?”; “haverá em Portugal uma capacidade filosófica?”; “existirá um corpo de doutrina filosófica portuguesa com toda a sua originalidade e inovação?”.
Vários autores tentaram responder a esta questão. Contudo, há uma variedade de respostas: desde os que são contra, a outros que defendem uma existência de uma autêntica filosofia portuguesa, ou os que são apologistas de uma posição intermédia, e outros que concebem a filosofia portuguesa como essencialmente lírica.
As respostas a este problema, do mesmo modo, variam consoante a própria definição de filosofia, a qual é um conceito em certo sentido polissémico.

2. Resposta de M. Antunes
Segundo este autor, o problema da filosofia portuguesa prende-se envolta da questão do primado da multiplicidade sobre a unidade ou da unidade sobre a multiplicidade2.
Mas, antes de tentar responder ao problema da filosofia portuguesa M. Antunes considerava necessário definir o conceito de filosofia. Para ele, a “filosofia não é religião, não é ciência (…), não é arte, não é o «espírito» de tal ou qualquer raça, de tal ou qual povo, não é sensibilidade (…), não é folclore (…), não é sequer, finalmente e em rigor, nem visão do mundo nem história da filosofia”3. Pelo contrário, filosofia é saber, que é geral e universal, e que se formula num sistema coerente4. Desenvolve-se no sentido de superar o particular e chegar a uma visão mais harmónica, universal.
Segundo a presente definição de filosofia, M. Antunes concebe que “não parece legítimo poder afirmar-se a existência de filosofias nacionais no sentido rigoroso destes vocábulos”5. Pois, aquilo a que se chama filosofia nacional não tem consistência com a definição de filosofia (do universal enquanto universal). Deste modo, “se é nacional não é filosofia e se é filosofia não é nacional”. Por fim, M. Antunes considera que as filosofia têm uma pátria, mas é um espaço espiritual, algo muito além do espaço geográfico6.

3. Resposta de José Marinho
José Marinho dá prioridade ao elemento nacional. Ele oferece-nos uma metáfora muito elucidativa: “o haver laranjas em Setúbal, assim como nos permite e nos autoriza chamar-lhe laranjas portuguesas do mesmo passo aos deliciosos frutos o seu conceito não retira à forma única e universal sabor ou sentido”7.
Assim, o querer desenvolver a filosofia são sempre questões que adquirem a sua universalidade a partir da sua situação concreta. Pois, “todo o problema da filosofia portuguesa e das filosofias nacionais outro não é, conforme nos parece, senão o garantir a universalidade da filosofia, mas concretamente situada nos diferentes homens, povos, situações”8.
Segundo este autor, a filosofia poderá concebe-se como o “pensamento cumprindo-se no homem plenamente, e assumindo a responsabilidade de atribuir ou retirar sentido à vida”9. Portanto, se não existe uma filosofia nacional talvez equivale isso a retirar à maior parte dos povos da Terra a possibilidade de encontrarem sentido para a própria existência10. Desta forma, para se desenvolver a filosofia é necessário regressar à natureza da condição humana, que é sempre situada, concreta.
4. Resposta de João Ferreira
Para João Ferreira “a filosofia é uma actividade de iniciados e a sua realidade social nasce da paideia e do contexto cultural que a cria e a torna possível”11. Existe de facto uma filosofia portuguesa, pois, podemos constatar no contexto diacrónico e sincrónico da história da cultura portuguesa um exercício da filosofia portuguesa, onde é perceptível um corpus filosófico12. É necessário “ver” o conceito polissémico de filosofia portuguesa (por um lado a tendência reflexiva, intelectualista, apolínia científica; por outro, a tendência metafísico-poético, irracional e dionisíaca) para podermos valorizar os vários ramos registados pela história da filosofia portuguesa (como a poesia metafísica e o mito).

5. Resposta de Pedro Calafate
No que se refere ao problema da filosofia portuguesa, Calafate apresenta o termo «pensamento», “por ser menos restrito e por abarcar a confluência de uma pluralidade de áreas e metodologias que teríamos de excluir caso vingasse a opção por uma concepção da filosofia tecnicamente considerada e preferencialmente identificada com a sua expressão sistemática”13. Assim, este termo pode abarcar a cultura. Pode-se então dizer que “a filosofia radica na cultura, sendo esta a sua anterioridade constitutiva”14.
Deste modo, é nos permitido afirmar um “pensamento filosófico português numa perspectiva que legitima a persistência de determinadas atitudes, modos de filosofar e filosofemas”15 que não pode excluir o dinamismo próprio do contexto português.

6. Reflexão Pessoal
Penso que a questão referente ao facto de existir ou não concretamente uma filosofia portuguesa varia substancialmente de acordo com o modo de se entender o termo “filosofia”.
Pessoalmente concebo que não se começa a elaborar filosofia partindo da universalidade, de algo mais abstracto (embora se aspire a uma universalidade). Mas, faz-se filosofia a partir da vida, para após a reflexão regressar novamente à vida.
Portanto, toda a reflexão parte necessariamente do contexto onde se está inserido. As “lentes” que tenho para ver o mundo certamente serão diferentes das “lentes” de um muçulmano, ou das “lentes” de um habitante de uma tribo indígena. As maneiras de percepcionar o mundo são diferentes de situação para situação, de contexto para contexto.
Talvez seja algo muito difícil iniciar uma reflexão filosófica partindo imediatamente do universal e abstracto, e esquecer a realidade concreta em que se vive. Deste modo, penso que tem toda a lógica situar a reflexão filosófica no âmbito da cultura que caracteriza determinada sociedade. Parece-me mais prudente ir ao encontro de estilos de filosofar sem foros de exclusividade, sendo este modo talvez a melhor expressão de filosofia dentro de uma cultura, e a que parece reflectir mais empenhadamente os problemas de uma determinada cultura, situação, ou contexto.
Será possível o filosofo desligar-se do seu contexto ou tirar as suas “lentes” situacionais de ver a realidade, e reflectir? Acredito que a filosofia parte sempre da vida, da situação concreta (uma vez que estamos sempre localizados num determinado espaço-tempo), e em suma da cultura, sendo esta a melhor expressão do ser humano na sua totalidade.
Assim, filosofia não tem somente uma vertente mais “fechada”, sistemática, técnica; mas, tem um lado mais "aberto”, livre, em que a filosofia é caracterizada pela auto-consciência do ser humano, e como uma atitude inerente ao ser humano (ex: interrogação, espanto, admiração, …). Esta última vertente de filosofar é capaz de abarcar os mais variados modos de expressão de uma certa reflexão (lírica, poética, entre outros).
Não podemos deixar de pensar que a maneira concreta de ser povo português é uma maneira concreta de reflectir. Segundo as minhas crenças de controle, considero que existe necessariamente uma filosofia portuguesa. A reflexão do povo português parte essencialmente do concreto, da vida, do contexto; embora tenha um estilo muito próprio de expressar essa reflexão. Por isso, talvez seja mais adequado afirmar a existência de um pensamento filosófico português.
Bibliografia

ANTUNES, Manuel – “Haverá filosofias nacionais”. In: Do Espírito e do Tempo. Lisboa: Ática, 1960, pp. 125-146.

CALAFATE, Pedro – “Apresentação”. In: História do Pensamento Filosófico Português. Vol. 1 – Idade Média. Lisboa: Caminho, 1999, pp. 11-27.

FERREIRA, João – “Fundamentação da filosofia portuguesa”. In: Álvaro Ribeiro e a Filosofia Portuguesa. Lisboa: Fundação Lusíada, 1995, pp. 39-53.

MARINHO, José – “Filosofia portuguesa e universalidade da filosofia”. In: Estudos sobre o Pensamento Português Contemporâneo. Lisboa: Biblioteca Nacional, 1981, pp. 9-16.

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1 FERREIRA, João – “Fundamentação da filosofia portuguesa”. In: Álvaro Ribeiro e a Filosofia Portuguesa. Lisboa: Fundação Lusíada, 1995, p. 40.
2 Cf. ANTUNES, Manuel – “Haverá filosofias nacionais”. In: Do Espírito e do Tempo. Lisboa: Ática, 1960, p. 126.
3 Ibidem, p. 127.
4 Cf. Ibidem, p. 133.
5 Ibidem, p. 134.
6 Cf. Ibidem, p. 146.
7 MARINHO, José – “Filosofia portuguesa e universalidade da filosofia”. In: Estudos sobre o Pensamento Português Contemporâneo. Lisboa: Biblioteca Nacional, 1981, p. 10.
8 Ibidem, p. 13.
9 Ibidem, p. 14.
10 Cf. Idem.
11 FERREIRA, João, Op. Cit., p. 40.
12 Cf. Ibidem, p. 41.
13 CALAFATE, Pedro – “Apresentação”. In: História do Pensamento Filosófico Português. Vol. 1 – Idade Média. Lisboa: Caminho, 1999, p. 14.
14 Ibidem, p. 20.
15 Ibidem, p. 16.


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