20/08/2009

Quarta Enéada - Tratados Relativos à Alma



El alma es una y múltiple”1

Após a leitura da “Quarta Enéada” de Plotino, pretendemos expor os traços gerais da sua filosofia relativamente à alma.

1. Da essência da alma

Plotino do mesmo modo que Platão concebe a realidade em dois mundos, ou seja, o mundo inteligível e o mundo sensível. O mundo inteligível não tem necessidade de lugar, não se encontra em nenhum ser particular, resulta de uma essência sempre idêntica a si mesma. Através da metáfora do círculo, Plotino explica que o centro da circunferência é assemelhado ao mundo inteligível que permanece imóvel, enquanto que os raios móveis afiguram-se ao mundo sensível, o qual é uma essência dividida2.
“Es en el mundo inteligible donde se encuentra el ser verdadero”3, e do mesmo modo onde se encontram as almas sem corpo. No entanto, as almas podem ser colocadas e repartidas pelos corpos no mundo sensível. A alma é sempre indivisa e não susceptível à fracção, contudo a alma no mundo sensível reparte-se entre os corpos. Assim, a alma dá-se por inteiro e permanece indivisa, mas é repartida por estar em vários corpos4.
Deste modo, Plotino considera a alma una e múltipla, indivisível e divisível. A alma é indivisível, porque, está toda inteira em todas as partes e em qualquer parte do corpo; e a alma é divisível, pois, está repartida por todos corpos do mundo sensível.5 Lendo a metáfora do círculo percepcionarmos melhor esta concepção: “algo así como el centro en un círculo, pues todos los rayos que van del centro a la circunferencia dejan al centro inmóvil, aunque realmente provengan de él y tengan de él su propio ser. Porque es indudable que participan del centro, punto indivisible que es su principio; pero avanzan desde él, bien que no puedan eludir su dependencia”6. Do mesmo modo, a alma poderá ser comparada a um som que está presente no ar por toda a parte, não se divide, mas os ouvidos captam-no. Assim, a alma expande-se no espaço sem se dividir, ficando indivisivelmente presente. Quando a alma vai para dentro dos corpos, é comparada a uma palavra lançada para o ar, a qual é una em si mesma, mas reflecte-se em múltiplos corpos7.

2. Dificuldade relativas à alma
Perante as dificuldades relativas à alma, queremos salientar o problema do uno e do múltiplo, uma questão que já mencionamos, mas pretendemos atender a outros aspectos.
As almas derivam todas de uma mesma alma, da qual provem também a alma do universo8. A alma universal é a unidade presente em todas as partes9. Deste modo, recebemos uma parte da alma universal, pois, somos uma parte do todo10. Assim, as almas individuais são homogéneas com a do universo.
A alma é única, mas todas as almas individuais são partes dessa alma única que está no inteligível11. Pois, “cuando sale del mundo inteligible, el alma ya no puede mantener su unidad”12.

3. Da imortalidade da alma

Plotino concebe o homem como um composto de corpo e alma.
O corpo é algo composto, que perece, não podendo subsistir13. O corpo é simples e a sua matéria não possui vida em si mesma, pois, a matéria é algo sem qualidade. A matéria é incapaz de se dar a uma forma e de introduzir uma alma em si mesma. Convém que exista algo que produza a vida14.
Por outro lado, a vida pertence necessariamente à alma. “Sin el alma nada podría existir”15. Não podemos confundir alma com o corpo. Se a alma fosse um corpo não haveria sensação, pensamento, ciência, virtude, não existiria algo realmente espantoso. A alma é de natureza diferente do corpo, trata-se de algo distinto. Ela tem que ser incorpórea, pois, só esta pode penetrar tudo. Possui as seguintes características: governa e domina o corpo, é uma substância, é o princípio da ordem natural, é uma inteligência que se pode separar do corpo16.
Deste modo, a alma pertence a outra natureza que possui o ser e constitui o ser verdadeiro, que não nasce nem perece; é uma natureza que é o princípio de vida, logo, é eterna17. Portanto, a alma é uma realidade que não tem forma, cor, e é impalpável; é uma natureza una, simples, que existe em acto e possui por si mesma a vida.

4. Da descida da alma ao corpo

Segundo Plotino as almas têm uma dupla vida. Por um lado, vivem em parte a vida inteligível, convivendo com a inteligência. Por outro, vivem também em parte no mundo sensível18. É melhor para a alma permanecer no inteligível, contudo é necessário que ela participe no sensível19.
Portanto, “el alma, que es realmente un ser divino, penetre en el interior de un cuerpo”20, e vem ao mundo sensível por uma inclinação voluntária, para valer o seu poder e ordenar o mundo21.
A alma está virada para a inteligência e para a contemplação, mas possui do mesmo modo um lado inferior virado para o corpo22, que é uma prisão para a alma23. A alma, uma vez ligada ao corpo, actua apenas pelos sentidos, e é impedida de actuar pela inteligência. Deste modo, existe a necessidade da alma se libertar e purificar24.



Bibliografia

BRUN, Jean – O Neoplatonismo. Trad. José Freire Colaço. Lisboa: edições 70, 1991.

PLOTINO – Quarta Enéada. http://www.4shared.com/file/1943851/49c6f91e/plotino_-_eneada_4_doc.html

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1 PLOTINO – Quarta Enéada. http://www.4shared.com/file/1943851/49c6f91e/plotino_-_eneada_4_doc.html – Acedido em 13 de Março de 2007, às 18:80.
“A alma é una e múltipla” (2, 2)
2 Cf. PLOTINO, op. cit., 2, 1
3 “É no mundo inteligível que se encontra o ser verdadeiro” (Ibidem, 1, 1)
4 Cf. PLOTINO, op. cit., 1, 1
5 Cf. PLOTINO, op. cit., 2, 1
6 “Ela (a alma) é como o centro dentro de um círculo: todos os raios puxados do centro para a circunferência deixam no entanto o centro imóvel, conquanto dele nasçam e nele tenham o seu ser; participam do centro, e este ponto indivisível é a sua origem: mas avançam para fora, embora fiquem a ele ligados” (Ibidem, 2, 1)
7 Cf. Brun, Jean – O Neoplatonismo. Trad. José Freire Colaço. Lisboa: edições 70, 1991, p. 57.
8 Cf. PLOTINO, op. cit., 3, 8
9 Cf. PLOTINO, op. cit., 3, 3
10 Cf. PLOTINO, op. cit., 3, 1
11 Cf. PLOTINO, op. cit., 3, 2
12 “Quando sai do mundo inteligível, a alma não pode manter a sua unidade” (Ibidem, 4, 3)
13 Cf. PLOTINO, op. cit., 7, 1
14 Cf. PLOTINO, op. cit., 7, 3
15 “Sem alma nada poderia existir” (Ibidem, 7, 3)
16 Cf. PLOTINO, op. cit., 7, 8
17 Cf. PLOTINO, op. cit., 7, 9
18 Cf. PLOTINO, op. cit., 8, 4
19 Cf. PLOTINO, op. cit., 8, 7
20 “A alma, que é realmente um ser divino, entra num corpo” (Ibidem, 8, 5)
21 Cf. PLOTINO, op. cit., 8, 5
22 Cf. PLOTINO, op. cit., 8, 8
23 Cf. PLOTINO, op. cit., 8, 1
24 Cf. PLOTINO, op. cit., 8, 4


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