25/08/2009

Pragmatismo Peirceano


A questão da “crença” em Peirce é algo de fundamental. Peirce, com as ideias de Alexander Bain (do Clube Metafísico), começa a ver a “crença” como aquilo a partir do qual um homem está preparado para agir. Esta definição de crença influenciou bastante a concepção de pragmatismo.
Para Peirce o pragmatismo tem o “poder extraordinário para descortinar verdades vivas por detrás das roupagens de fórmulas gastas”. É de salientar que a sua disposição é a de pensar em tudo como tudo é pensado num laboratório, isto é, uma questão de experimentação. Hábito mental experimentalista.
Peirce, do mesmo modo, centra-se na questão da “dúvida”: a dúvida como fenómeno natural, sendo esta distinta da “crença”[1]. Pois, dúvida é um estado de preocupação, irritante, de insatisfação; não dá orientação para a acção; e, assim, lutamos para nos libertarmos dele, para adquirir um hábito de acção, ou seja, para atingirmos um estado de crença. “Inquérito” é a luta da conversão da dúvida em crença. Peirce sustenta mesmo que “a irritação da dúvida é o único motivo imediato para a luta por se atingir a crença. É certamente melhor, para nós, que as nossas crenças sejam tais que possam verdadeiramente guiar as nossas acções, por forma a satisfazer os nossos desejos. Uma tal reflexão levar-nos-á a rejeitar qualquer crença que não pareça ter sido formada para assegurar esse resultado”.
Aqui o pensamento está a ser concebido como inquérito, sendo a fixação da crença o objectivo do inquérito. Assim, diz Peirce que a produção de crença é a única função do pensamento. Portanto, “a acção de pensamento é excitada pelo início da dúvida e cessa quando a crença é atingida; eis porque a produção de crença é a única função do pensamento”. Peirce concebe o pensamento essencialmente como inquérito, ou seja, como a actividade de apaziguamento da dúvida (questão) pela produção de crença (resolução).
Neste contexto, a dúvida surge geralmente a partir de alguma indecisão, mesmo que momentânea, nas nossas acções. Isto leva a uma tenção, criada pela indecisão. Ao acalmar a dúvida, então, elimina-se a tenção. Deste modo, o pensamento refere-se essencialmente à produção de crença; pois, como advoga Peirce, “o pensamento em acção tem por único motivo possível alcançar o pensamento em repouso, e o que quer que seja que não se refira à crença não é parte do pensamento em si”. Crença esta que (1) é algo que estamos conscientes; (2) acalma a irritação da dúvida; (3) envolve o estabelecimento, na nossa natureza, de uma regra de acção, um hábito.
No entanto, pelo facto de se chegar a uma crença não significa que será eterna; pois, uma vez que a crença é uma regra de acção, a sua vida é a sua aplicação, e cada aplicação pode abrir a porta a nova dúvida e, assim, um novo pensamento para apaziguar.
Princípios fundamentais do pragmatismo de Peirce:
(1) As crenças são idênticas se e só se dão lugar ao mesmo hábito de acção.
(2) As crenças dão lugar ao mesmo hábito de acção se e só se acalmam a mesma dúvida, por via de produzirem a mesma regra de acção.
(3) O sentido de um pensamento é a crença que ele produz.
(4) As crenças que produzem a mesma regra de acção apenas se nos conduzem a agir nas mesmas situações sensíveis.
(5) As crenças produzem a mesma regra de acção apenas se nos conduzem aos mesmos resultados sensíveis[2].
(6) Não existe distinção de sentido mais fina do que a que consiste numa possível diferença no que é tangível e concebivelmente prático.
(7) A nossa ideia de qualquer coisa é a nossa ideia dos seus efeitos sensíveis[3].
(8) Ao considerar que efeitos poderiam concebivelmente ter implicações práticas, concebemos o que o objecto da nossa concepção tem. Então, a nossa concepção destes efeitos é toda a nossa concepção do objecto[4].
(8a) Perguntemos quais são os nossos critérios para chamar P a uma coisa. Então a nossa concepção de tais critérios é toda a nossa concepção de P-idade (P-eza…).
(9) Uma crença verdadeira é aquela que está destinada a merecer o acordo final de todos os que investigam cientificamente.
(10) Qualquer objecto representado numa opinião verdadeira é real

[1] (1) Há uma dissemelhança entre a sensação que acompanha caracteristicamente o duvidar (o desejar pôr em questão) e aquela que acompanha a passagem ao crer (o desejar pronunciar um juízo). (2) O sentimento de crer é uma indicação mais ou menos segura de estar estabelecido na nossa natureza algum hábito que determinará as nossas acções. A dúvida nunca tem tal efeito. (3) A dúvida é um estado de preocupação e insatisfação, do qual lutamos para nos libertarmos e para passarmos ao estado de crença, enquanto o último é um estado clamo e satisfatório de que não queremos sair ou transformar em crença de qualquer outra coisa.
[2] Segundo Peirce, regressamos ao que é tangível e concebivelmente prático, ou seja, situações sensíveis e resultados sensíveis.
[3] Peirce defende que é radicalmente impossível que tenhamos uma ideia nas nossas mentes relacionada com algo que não sejam efeitos sensíveis das coisas. (Mas, isso não vai invalidar o facto de Peirce ser religioso).
[4] Regra para atingir a clareza da apreensão (de propriedades) – Exemplo (dureza): “Ao considerar que efeitos poderiam concebivelmente ter implicações práticas, concebemos o que a dureza tem. Então, a nossa concepção destes efeitos é toda a nossa concepção da dureza”; (por conseguinte, é necessário perguntarmo-nos a nós próprios o que é que queremos dizer quando dizemos que uma coisa é dura [em todas as circunstâncias possíveis]).
Seguindo o (8), Peirce salienta que em cada caso há algum efeito sensível, um efeito pode ter implicações práticas.


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