23/08/2009

Pluralismo Cultural


O pluralismo cultural implica necessariamente o relativismo ético?
O pluralismo cultural não implica necessariamente o relativismo ético, nem é sinónimo de uma heterogeneidade total dos valores, nem sequer se refere ao facto dos valores serem limitados e condicionados apenas ao ponto de vista do sujeito.
A sociedade europeia até à Reforma Protestante vivia uma homogeneidade cultural e um código moral único. Era uma Europa cristã que seguia a moral cristã. O pluralismo cultural emergiu devido à Reforma Protestante e à revolução cultural, bem como outros factores, entre os quais: a emigração, e a valorização do indivíduo enquanto indivíduo. Assim, de uma moral heterónoma passou-se a uma moral autónoma; o homem passa de súbito a soberano, senhor de si mesmo. Isto mudou essencialmente o modo de fundamentar as normas morais. Desta forma, foi necessário procurar uma moral que regesse o comportamento moral do cidadão no espaço público, independente de qualquer religião, embora compatíveis com elas. Ou seja, procurou-se encontrar uma moral civil.
A moral civil deu espaço ao indivíduo, reconhecendo que todos têm como ideal a felicidade, e é uma moral que deixa a cada um espaço para realizar esse seu ideal. Mas para isso é necessário primeiramente encontrar uma possibilidade de convivência no espaço público, onde cada um viverá à procura da sua felicidade. Isto é, são necessárias condições mínimas justas em que cada um se poderá realizar; ou melhor dizendo, é indispensável uma moral de mínimos, onde os cidadãos de uma sociedade “partilham uns mínimos morais, ainda que não partilhem a mesma concepção completa da vida boa” (Adela Cortina).
Contudo, a pessoa não vive apenas numa moral de mínimos, pois, esta não apresenta um ideal de vida a alcançar, é uma moral vazia de conteúdo. No entanto, a pessoa anseia pela sua felicidade, e isso implica uma moral de máximos. É somente nesta moral que a pessoa se realiza pessoalmente, fazendo a sua hierarquia de valores própria. Assim, a pessoa é um ser autónomo e livre, dando a si a sua lei.
Portanto, o pluralismo cultural não implica necessariamente o relativismo ético, mas sim implica uma “relatividade” ética. Ou seja, cada um pode realizar o seu ideal de felicidade pessoal (sem ter que se sujeitar a um código moral único), numa mesma base de valores comuns que permitem a convivência entre todos.

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