17/08/2009

Obra “Tratado do primeiro princípio”



Numa primeira leitura ficamos com a impressão de ser uma obra difícil e sofisticadíssima, no que concerne à sua interpretação. Contudo, ultrapassando esta barreira, através de alguma paciência, deparamo-nos com uma obra fascinante, com uma nova visão do mundo partindo do pressuposto de Deus.
Nesta obra, as duas primeiras partes destacam todos os elementos para a demonstração da existência de Deus como primeiro princípio. A terceira mostra a sua tripla preeminência: elevação, perfeição, causa final e eficiente. Por fim, na quarta parte, o tratado culmina com a demonstração da simplicidade do primeiro princípio, da sua inteligência e, sobretudo, da sua infinitude.
É de salientar o facto de Duns Escoto insistir na liberdade de Deus. Poderá ser uma forma de protestar contra o determinismo integral. Desta acepção, surge o primado da vontade sobre o entendimento, uma nova apreciação da contigência e uma nova concepção de indivíduo.
Do mesmo modo, demonstrando a infinitude de Deus, Escoto “ultrapassa o horror aristotélico do infinito e abre um novo espaço de pensamento, sem o qual o pensamento moderno é inconcebível”1.

Ilações
Duns Escoto seguindo o pensamento de Aristóteles, no que concerne à busca de um fundamento para o real, na procura daquela causa primeira que tudo impulsionou para explicar a realidade, encontra Deus. Para Escoto, Deus é o princípio e causa de tudo. Já não é o ar, o fogo, a água, a terra ou o apeiron dos primeiros filósofos. Isto possibilitou que o real ultrapasse aquilo que existe.
De um modo ou de outro, o que pretendemos salientar é o facto de existir uma atitude de procura e de explicação da realidade; elaborando, por conseguinte, uma visão de mundo. Foi isto que aconteceu ao longo da história da filosofia.
Actualmente, talvez estejamos com alguma carência desta atitude de procura e explicação da realidade. É mais fácil uma pessoa se acomodar e ser um amorfo. A era tecnológica que atravessamos também poderá ser uma causa desta carência. O que interessa são os “zeros” e “uns”, e as verdadeiras realidades são postas de parte.
Portanto, pensamos ser necessário cultivar e incentivar cada ente, afim de adquirir esquemas e atitudes de procura e explicação da realidade. É um caminho que apenas cada um o pode traçar.
1 Ruedi Imbach


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