17/08/2009

Obra Críton (Argumentos e Perspectivas)



Na obra filosófica “Críton” de Platão está patente um diálogo entre amigos (Sócrates e Críton), os quais se esgrimem com argumentos, a fim de chegarem a um consenso e coerência comum sobre o destino escatológico de Sócrates.
O “Críton” tem um contexto histórico-filosófico, este insere-se numa trilogia filosófica elaborada por Platão. Esta trilogia inicia-se com a “Apologia de Sócrates”, a qual trata da problemática da condenação injusta de Sócrates; seguidamente vem o “Críton”, o qual trataremos neste artigo; e por último o “Fédon”, no qual constatamos a procura de argumentos sobre a imortalidade da alma por parte de Sócrates, do mesmo modo podemos verificar a morte de Sócrates através da cicuta.
A obra “Críton” enceta-se com um amigo (Críton) que vai ter com Sócrates, sendo ainda deveras cedo. Sócrates estava numa serenidade tal que dormia tranquilo, o horror da morte não o atormentava, suportava esta situação com uma “facilidade e doçura”. Críton achando que Sócrates estava a ser alvo de uma condenação injusta faz pressão para que ele fuja. Críton começa esta pressão com o argumento de que mesmo as pessoas idosas (como Sócrates) se revoltam contra a sua própria morte, pois, Críton ficava perplexo com serenidade que Sócrates possuía perante a morte. A pressão é acentuada quando Críton afirma que a morte de Sócrates “arrastará mais de uma desgraça”, primeiro porque vai ficar privado de um amigo, depois porque as pessoas o vão condenar por suporem que não tivesse consentido na fuga de Sócrates. Críton finda a sua argumentação alegando que se Sócrates fugir será bem recebido no estrangeiro, caso não queira fugir está a cometer um erro, entregando-se a si próprio, quando se podia salvar; estaria a trair os filhos, deixando-os abandonados e à mercê do destino; e estaria também a trair os amigos, pelos quais não consentia em fugir, levando-os a ser fruto de difamações por supostamente não estarem dispostos a ajudar.
Sócrates contra-argumenta Críton, através da “maiêutica”, afirmando que não se deve seguir a voz da multidão, que critica negativamente e calunia, mas sim devemos seguir a voz interior, a voz da razão, a qual deve ser a única que se deve considerar. Continua a sua contra-argumentação alegando que não se deve responder à injustiça com a injustiça, nem fazer mal a nenhum homem, seja o que for que ele nos tenha feito. Sócrates conclui a sua contra-argumentação de um modo interessante, dando voz às próprias leis: “(…) que procuras com o golpe que vais tentar senão destruir-nos, a nós, as leis e o Estado inteiro (…) ?”. Sócrates tinha sido fiel e defensor das leis durante toda a sua vida, caso fugisse estaria a condena-las e deitar por terra tudo o que tinha pregado sobre a justiça.
Este diálogo termina com Críton convencido com os argumentos defendidos por Sócrates, existindo assim um consenso entre ambas as partes.
Para uma melhor avaliação da obra achamos que era bom formalizar os argumentos principais de Críton e Sócrates para constatarmos se existe algum fundamento nos argumentos e se estes são relevantes.

Primeiro argumento de Críton:

Primeira premissa – Normalmente mesmo as pessoas idosas têm medo da morte e revoltam-se contra ela.
Segunda premissa – Sócrates é idoso.
Conclusão – Logo, Sócrates deveria ter medo da morte e revoltar-se contra ela.

Pensamos que este argumento é pouco relevante, pelo facto de Críton generalizar o sentimento que uma pessoa tem diante determinada realidade. Só porque normalmente, mesmo as pessoas idosas têm medo da morte e revoltam-se contra ela, não quer dizer que Sócrates tenha que ter este mesmo sentimento. Isto poderá levantar outras questões: será que Sócrates desejaria morrer? Se fosse assim ele nem sequer se preocupava com a sua defesa na “Apologia de Sócrates”.

Segundo argumento de Críton:

Premissa – Se Sócrates morrer, Críton irá ficar privado de um amigo
Conclusão – Logo, é necessário que Sócrates fuja para não perder um amigo.

Penso que este argumento tem pouco fundamento, verifica-se claramente uma perspectiva individualista e egoísta por parte de Críton.

Terceiro argumento de Críton:

Premissa – As pessoas vão condenar Críton por suporem que não tivesse consentido na fuga de Sócrates
Conclusão – Logo, para Críton não ser caluniado pela multidão, Sócrates tem que fugir

Este argumento está muito relacionado com o segundo, no qual se vê claramente o individualismo e egoísmo de Críton.

Quarto argumento de Críton:

Primeira premissa – Se Sócrates fugir será bem sucedido.
Segunda premissa – Se Sócrates não fugir está a cometer um erro.
Conclusão – Logo, é mais frutífero e bom Sócrates fugir.

Não concordamos muito com este argumento, porque pomos em causa a primeira premissa. Até quando é que o acto de Sócrates fugir será bem sucedido? Indo para o estrangeiro não será pior? Desrespeitar as leis é ser bem sucedido? Mas, Sócrates é que fica encarregado de destruir este argumento.

Por outro lado, Sócrates contra-argumenta e refuta os argumentos defendidos por Críton, tendo uma argumentação muito forte e valorizada, influenciou Críton e trouxe-o à realidade da justiça e do bem.

Primeiro argumento de Sócrates:

Primeira premissa – Só a voz interior (a voz da razão) nos leva à boa conduta.
Conclusão – Logo, não se deve seguir a voz da multidão que poderá levar-nos por maus caminhos.

Pensamos que este argumento é algo sólido, uma vez que a multidão não tem qualquer qualidade e capacidade para avaliar o nosso agir, então, devermos procurar na voz da razão, aquela voz interior (consciência) que tem capacidade para discernir e avaliar o nosso agir. Contudo, será que só a voz da razão nos leva à boa conduta? Não existirá excepções? A voz interior não poderá ser influenciada? Acho que é possível…

Segundo argumento de Sócrates:

Primeira premissa – Não é um acto de justiça fugir, mesmo sendo condenado injustamente.
Segunda premissa – Não se deve responder à injustiça com a injustiça, nem fazer mal a nenhum homem, seja o que ele nos tenha feito.
Conclusão – Logo, Sócrates não pode fugir para não cometer uma injustiça.

Este argumento é bastante sólido. Pois, se Sócrates fugisse estava a desrespeitar as regras, as leis, mesmo do próprio cárcere. E não se deve nunca responder à injustiça com injustiça, pois, segundo Sócrates “nunca é permitido ser injusto”. Deste modo, é um bom argumento para contradizer Críton.

Terceiro argumento de Sócrates:

Primeira premissa – Sócrates cumpriu sempre as leis
Segunda premissa – Se Sócrates fugir estaria a condenar e a deitar por terra tudo o que tinha pregado sobre a justiça.
Conclusão – Logo, Sócrates prefere não fugir para cumprir sempre as leis, afim de ser sempre justo e a sua vida sempre pautada pela justiça.

Quanto a este último argumento, verificamos que possui muito valor moral e ético. Pois, se Sócrates fugir estaria a ser um autêntico cobarde e a não cumprir aquilo que desde sempre pregou: “a justiça”. Por isso mesmo, consideramos Sócrates um modelo a nível moral e ético. Com este último argumento conseguiu convencer definitivamente Críton quanto à questão de não querer fugir, simplesmente se Sócrates fugisse estava a ser injusto. Por isso, era melhor para todos que ele ficasse no cárcere e consequentemente morresse.
Nesta obra constatamos com diversas perspectivas. Sócrates teve, de facto, no seu tempo uma visão de mundo. Ele vê claramente e profundamente as coisas do mundo que o rodeavam, por isso mesmo é considerado sábio. Não se incomoda nem dá valor à voz da multidão, mas apenas à voz da razão. Aquela voz que permite ver nitidamente a realidade e por conseguinte avalia-la. Sócrates tem acesso à verdadeira realidade ôntica e gnosiologica.
Do mesmo modo, é marcante Sócrates ser de tal modo justo. Ele leva até ao termo da sua vida o conceito de justiça com dignidade e honra. Acho que podemos dizer que foi um santo. Preocupou-se sempre com os modelos do bem, da justiça, tentado influenciar o seu próximo numa aproximação a esta visão de mundo.
Parece-nos também aceitável uma pequena analogia de Sócrates com Jesus Cristo. Apesar de serem essências muito opostas (um é um mero ser mortal, o outro é uma divindade) posso constatar alguns pontos convergentes. É de notar o modo como estes dois seres foram condenados: devido a acusações injustas. Os dois poderiam escapar de tal condenação: Sócrates podia fugir; Jesus Cristo, como ser divino, tinha poder para se libertar. Os dois não pagaram o mal com o mal, nem a injustiça com a injustiça, morrendo assim de uma forma “gloriosa” e honrada.
Achamos que a obra filosófica “Críton” de Platão tem um grande valor ético. Vemos, nesta obra, a pessoa de Sócrates resplandecente de dignidade e honra. Sócrates tem a audácia de apresentar o outro lado do argumento. Procura a coerência. Não seguindo a voz do vulgo, das pessoas, mas apenas a sua voz interior (o mestre).
A grande lição ética que apreendemos desta obra é o facto de “Não se deve, portanto, responder à injustiça com a injustiça, nem fazer o mal a nenhum homem, seja o que for que ele nos tenha feito”.

Ilações
Muitas vezes podemos ter o preconceito que as obras filosóficas não têm actualidade nos nossos dias, devido a serem obras por vezes antigas. Porém, estas obras têm um carácter muito profundo e actual. Podemos constatar isso, por exemplo, na obra Críton.
Críton é uma obra que nos transmite a virtude justiça. Isto é, Platão defende que devemos ser sempre justos em todas as circunstâncias. E não só naquelas que nos interessa. Portanto, continua afirmando que não se deve pagar o mal com o mal, nem a injustiça com a injustiça.
O que é que isto que dizer nos dias de hoje?!


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