24/08/2009

O filosofar agostiniano


1) Vivência e reflexão
Filosofar, para Agostinho, era algo sério e decisivo da vida. Agostinho era algo mais que intelectual curioso que procurava o saber pelo saber. Deste modo, encarava a filosofia como a busca daquilo que realiza o homem, do sentido supremo da vida, e da sabedoria em seu pleno significado. Filosofar era, assim, percorrer o caminho de salvação.
Do mesmo modo, filosofia é algo inerente à vida, surgindo como uma resposta aos problemas que se põem a partir da vida. É um pensamento vivido (antes de ser um pensamento pensado); portanto, imbuído de vivência. Por exemplo: as “confissões” são um diálogo com Deus sobre os mistérios da vida e do ser. Então, temos uma filosofia e teologia experimentais, ligadas à concretude da existência.
O filosofar de Agostinho realiza-se, também, na base da escuta atenta do mistério de ser. Agostinho sente o que pensa, pensa sentindo. E procura interpretar as experiências de vida, bem como os textos bíblicos.
2) Estilo expositivo
A sua exposição tem um carácter digressivo, assistemático, anárquico.
É um pensamento que brota da inspiração do coração e dos problemas que tinha para enfrentar as heresias.
Agostinho tem um estilo literário-filosófico e teológico. Move-se entre o literário, retórico, hermenêutico e científico. Mais próximo dos autores contemporâneos, do que dos grandes pensadores da filosofia clássica.
3) A busca da sabedoria beatificante
Agostinho corria pelos caminhos da filosofia, pois, era o seu desejo natural ser plenamente feliz (beatus). Essa felicidade plena advém da posse da sabedoria. Assim, a filosofia dá valor à vida, traz consigo a felicidade de vida. “O único motivo que leva o homem a dedicar-se à filosofia é o desejo natural de ser plenamente feliz”.
Quando era jovem, Agostinho acordou para a busca da sabedoria ao ler Cícero. “O que me deleitava naquela exortação era o facto de as suas palavras me excitarem fortemente e acenderem em mim o desejo de amar, buscar, conquistar, reter e abraçar, não já esta ou aquela seita, mas sim a mesma Sabedoria, qualquer que ela fosse”.
4) Caminho de interioridade
Agostinho busca a própria realização humana, pela posse plena da verdade ou da sabedoria beatificante. A plena verdade é identificada com Deus. Portanto, filosofar é fazer caminho para Deus. Filosofar é uma actividade religiosa e existencial. A sua pesquisa intelectual centra-se em conhecer Deus e a alma. “O que eu desejo conhecer é Deus e a alma, absolutamente mais nada”.
Deus é a própria verdade, a qual não se encontra fora do homem, mas dentro dele.
Este caminho para a verdade (Deus) é um caminho interior. A filosofia segue o caminho da interioridade, isto é, o itinerário da alma para Deus. Esta concepção implica um movimento de conversão (dar a volta) do exterior para o interior, e do inferior para o superior. A filosofia agostiniana é assim definida como: “metafísica da conversão” ou “metafísica da transcendência”.
“Não busques fora de ti; entra dentro de ti mesmo, porque é no homem interior que habita a verdade; e, se achares que a tua natureza é mutável, transcende-te a ti mesmo, mas não te esqueças que, ao ascenderes para além do cume do teu ser, te estás a elevar acima da tua alma, dotada de razão. Encaminha, pois, os teus passos para onde se acende a luz da razão”.
Bibliografia:
Coutinho, Jorge – Elementos de História da Filosofia Medieval. Braga: Faculdade de Teologia, 2005, pp. 19-21.

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