25/08/2009

O existencialismo teológico de Kierkegaard


O doutor Júlio Fragata tem um artigo interessante intitulado de “O existencialismo teológico de Kierkegaard”[1] no seu livro “Problemas da Filosofia Contemporânea” que merece reflexão.
Tanto o hegelianismo como o Cristianismo influíram poderosamente no pensamento de Kierkegaard. No entanto, Kierkegaard considerou que a filosofia de Hegel se encerra no pensamento próprio, numa rigidez de raciocino lógico, totalmente arquitectada, mas nada prática. Pelo contrário, Kierkegaard defende que nós filosofamos para a vida, não vivemos para filosofar. Portanto, o essencial para Kierkegaard é ir à existência concreta, à realidade tal qual ela é. Vemos, assim, uma certa reacção negativa ao sistema, a Hegel.
O Cristianismo teve uma reacção muito positiva em Kierkegaard, pois, o homem para valorizar a sua existência (para se humanizar) precisa de ser cristão.
Kierkegaard considera que poderíamos viver romanticamente para as coisas finitas, perdidos em bagatelas, mas uma existência assim não seria autêntica (mas desequilibrada e desorientada), ou seja, uma existência em contínuo e irremediável desespero[2]. Deste modo, por uma decisão livre temos que superar este desespero para começar a existir autenticamente. Assim, a única decisão salvadora é a união ao Absoluto, ao Infinito, pela renuncia de tudo o que se apresente como finito e transitório. Esta adesão ao Infinito deve ser total e exclusiva, implicando viver sacrificadamente. Vemos, então, aqui um aspecto doloroso.
Portanto, Kierkegaard vê o ser humano como inseguro e suspenso sobre o nada, dependente apenas de Deus; é na tentativa de superar a inseguridade que procura a fé. Sem fé era impossível sair do estado de desespero; mas, apesar disso a fé implica um risco e insegurança anexa à nossa liberdade.
Do mesmo modo, no que concerne à fé, Júlio Fragata considera que Kierkegaard não conseguiu libertar-se dos erros inerentes à doutrina da justificação, (ou seja, pelo perdão, o pecado, propriamente, não desaparece; deixa apenas de ser imputado; então, depois da justificação, o homem apresenta-se agravado ainda pelo pecado, não podendo saber, apesar da sua melhor vontade, se Deus finalmente virá a considerá-lo como condenado). Assim, o cristão nunca viverá em paz.
Cristo é o Homem e Deus num paradoxo incompreensivelmente real. É o nosso modelo, aquele que precisamos de seguir para nos inteirarmos plenamente no absoluto, numa superação radical do finito. Este modelo segue uma vida de renúncia, de tormentos, com o epílogo na cruz. Deste modo, Kierkegaard considera que a vida de cristão tem que ser crucificada, em contínua renúncia e repleta de dores. Então, para se ser autêntico cristão é preciso ser infalivelmente infeliz.
É precisamente no íntimo desta infelicidade que a existência está apta a mostrar-se autêntica, a interna-se plenamente no absoluto em desprendimento total de tudo o que não seja infinito e eterno.
A certo ponto do seu texto, Júlio Fragata, questiona se o existencialismo teológico de Kierkegaard é genuinamente cristão. Júlio Fragata considera que Kierkegaard arquitectou um cristianismo individual (intimamente diverso do cristianismo genuíno), certamente devido ao princípio da livre interpretação individual das fontes da revelação que conservou do luteranismo.
Júlio Fragata considera totalmente admissível o facto de Kierkegaard conceber que a existência humana, no seu desenvolvimento concreto e integral, tem que ser uma existência cristã. No entanto, o cristianismo de Kierkegaard é antropocêntrico, onde aparece em primeiro plano o homem que tem que se libertar das duas misérias (ou seja, superar o seu desespero). Assim, o homem vê-se forçado a aderir à fé, unindo-se em amor a Deus. Porém, este amor não transparece como plenamente desinteressado, mas é um meio apto à nossa superação e felicidade. Deste modo, Kierkegaard apresenta um cristianismo invertido, do autêntico cristianismo que é teocêntrico. Sendo o temor genuinamente cristão não um fruto da desconfiança em Deus, mas da desconfiança própria. Júlio Fragata vê que Kierkegaard aderindo à doutrina luterana da justificação, baseia o temor numa desconfiança no mesmo Deus. Assim, a sua inquietação não conseguiu superar o desespero.
Deste modo, os frutos práticos do cristianismo invertido levaram Kierkegaard a uma vida misantrópica, e a uma renúncia demasiado material como um fim em si. No entanto, Júlio Fragata considera que se o primeiro plano for ocupado pelo interesses de Deus (e não do homem), então, só renunciarei às coisas finitas na medida em que esses interesses o pedirem. Pois, o cristão autêntico sabe encontrar a Deus no finito sem desprezar o finito.

[1] FRAGATA, Júlio – “O existencialismo teológico de Kierkegaard”. In: Problemas da Filosofia Contemporânea. Braga: FacFil, 1989, pp. 93-98.
[2] “A maior parte das pessoas vivem sem grande consciência do seu destino… e daí toda essa falsa despreocupação, essa falta de satisfação em viver (…) que é o próprio desespero”. O desespero humano. Porto: 1952, p. 53.


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