24/08/2009

Kierkegaard


a) Vida e Influências
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Kierkegaard nasceu no dia 5 de Maio de 1812 em Copenhaga; falecendo a 11 de Novembro de 1855, na sua cidade natal[1].
Recebeu uma rígida educação na religião luterana; frequentou, deste modo, a Faculdade de Teologia da Universidade de Copenhaga. É de salientar que assistiu a algumas lições de Scheling em Berlim.
Várias pessoas marcaram profundamente Kierkegaard influenciando-o na sua obra: o seu pai, Regina Olsen, A. Goldschmidt, e os bipos Mynster e Martensen. Seu pai tinha um temperamento melancólico e deprimido, “julgando-se amaldiçoado por Deus”[2]; isto foi algo que influenciou Kierkegaard determinando a sua vida austera. Conheceu Regina em 1837, sendo sua noiva em 1840; no entanto rompeu o noivado, pois, “as suas ideias de rigor se opunham ao matrimónio: preferiu continuar a admirá-la, amando-a fora de qualquer intenção matrimonial”[3]. Regina influenciou quase todas as obras (quer no conteúdo interno, quer na decisão de as escrever) de Kierkegaard. Entre 1845 e 1846, o director (Goldschmidt) do jornal satírico Corsário elogiava Kierkegaard; no entanto, o filósofo de Copenhaga considerava o director reaccionário e desmoralizador, preferindo deste modo ser atacado do que elogiado; foi então que Kierkegaard se tornou num “mártir do riso” pelo escarnecimento e ridicularização da sua pessoa. Esta polémica possivelmente levou Kierkegaard a defender a ideia de que “a essência do cristianismo é uma vida infeliz e de sofrimento”[4]. Entre 1854 e 1855 surge uma nova polémica e mais séria com o bispo Martensen (sucessor de Mynster), que levou Kierkegaard a atacar o cristianismo burguês e a começar “a viver um cristianismo pessoal à margem de qualquer jerarquia constituída”[5].
b) Pensamento
O pensamento de Kierkegaard gira sobretudo à volta da valorização humana. Vemos que Hegel insistia nos aspectos mais intelectual, universal e necessário implicados na dialéctica. Opondo-se ao hegelianismo, Kierkegaard insistia na vontade, no singular e na liberdade. “Esta valorização singular viu-a na vida cristã autêntica – a única capaz de nos levar ao Eterno em nós. (…) Na prossecução deste ideal é que Kierkegaard renunciou a tudo o que pudesse ter qualquer aspecto de prazer”[6].
Kierkegaard faz bem a distinção entre cristandade e cristão (aquele que adere à pessoa de Cristo). Considerava, pois, que depois de mil e oitocentos anos de cristianismo tudo se tornou superficialidade na cristandade actual; isto porque o cristianismo é visto como instrumento capaz de facilitar sempre mais a vida, a temporalidade no sentido mais trivial. Aqui a heresia consiste em brincar com o cristianismo.
É notória a defesa que Kierkegaard empreende em relação ao “indivíduo”. E é exactamente na vida da fé que constitui a forma verdadeiramente autêntica da existência finita, visto como o encontro do “indivíduo” com a singularidade de Deus.
A fé tem um aspecto fulcral, indo além do próprio ideal ético de vida. Este símbolo de fé, Kierkegaard, personifica-a na pessoa de Abraão, que, em nome da fé em Deus, levanta o punhal contra o seu próprio filho… Se aceitarmos a fé, como Abraão, então a autêntica vida religiosa aparece em toda a sua paradoxalidade, já que a fé em Deus, que ordena matar o próprio filho, e o principio moral que impõe amar o próprio filho entram em conflito e levam o crente a ser posto diante de uma escolha trágica. A fé é, assim, paradoxo e angústia diante de Deus como possibilidade infinita.
É relevante constatar que Kierkegaard contrapõe ao desespero, que é a verdadeira doença mortal, a salvação da fé, sustentando que, fora da fé, só existe desespero.
Através de pequenos excertos das suas obras não será difícil perceber que o seu pensamento é um pensamento essencialmente religioso: é a defesa da existência do indivíduo, existência que só se torna autêntica diante da transcendência de Deus. Os temas de fundo da filosofia de Kierkegaard são: o indivíduo e Deus e a relação do indivíduo com Deus…
Ao fazer este predomínio no indivíduo percebe-se o facto de não encarar bem o sistema hegeliano. Apela-nos que a vida não é um absoluto conceito; pois, este não se preocupa com o existente concreto que podemos ser eu e tu, na nossa irrepetível e insubstituível singularidade; ao contrário este preocupa-se com o homem em geral, com o conceito de homem. Assim, Kierkegaard desmascara sistemas filosóficos que se interessam pelos conceitos e não pela existência; sobretudo em Hegel, cujo sistema é a encarnação da pretensão de “explicar tudo”… No entanto, elucida Kierkegaard, que o sistema não consegue engaiolar a existência.
Deste modo, realça o indivíduo (alternativa ao hegelianismo); o indivíduo conta mais do que a espécie: o indivíduo é contestação e rejeição do sistema. É também importante salientar que o indivíduo torna-se o baluarte da transcendência; e que indivíduo e fé são correlatos (pois, a fé, ou seja, o facto de ser cristão constitui um dado central da própria existência)[7].
c) Estádios da vida
Kierkegaard concebeu e passou por vários estádios da vida: estádio estético, estádio ético, e estádio religioso.
Estádio estético – “O homem vive a vida dos «sentidos» ao sabor dos instintos naturais. (…) sem se preocupar com o eterno em si”[8]. No entanto, considera feliz o homem que começa a angustiar-se dando conta que a vida ao sabor das paixões é banal. Deste modo, o homem devido a um desespero pode elevar-se ao estádio seguinte.
Estádio ético – “No estádio estético, o homem apenas «é»; aqui começa a «existir» no sentido autêntico, dá conta das responsabilidades pessoais, elevando-se acima da massa amorfa, sente-se livre, assumindo a direcção da sua vida no desempenho das suas funções”[9].
Estádio religioso – Na linguagem de Kierkegaard é sinónimo de cristão. “No estádio anterior, o homem estava ainda sujeito às normas da moralidade, de carácter universal. No estádio religioso ultrapassa-as, entrando num ritmo de singularidade cada vez mais perfeito”[10]. No estádio religioso não existe apenas a adesão à verdade revelada, mas também supõe a graça divina que permite ao homem a união com Deus, para ser mais do que aquilo que ele é. É ser contemporâneo de Cristo…
No entanto, como afirma Júlio Fragata, Kierkegaard segue Cristo não no cume da sua glória, mas no meio das suas humilhações. Deste modo, chega mesmo a considerar o cristianismo como uma doutrina cujo primeiro efeito é tornar os homens, humanamente falando, infelizes. Ele concebe uma adesão à fé tão radical que o leva a um desprendimento dos laços sociais em ordem à valorização da própria individualidade. Daí se perceba o porquê de renunciar a tudo o que pudesse ter qualquer aspecto de prazer, rejeitando assim a vida matrimonial. Mas, até que ponto é saudável e é cristão um tal desprendimento dos laços sociais em favor de uma valorização da própria individualidade? Não será que Kierkegaard está a exagerar?
Considero que os estádios da vida estão inteligentemente construídos, na medida em que o homem deve valorizar-se cada vez mais; deixando, assim, o estádio estético de egoísmo avançando para um estádio religioso de encontro com Deus. No entanto, penso que este encontro profundo com e em Deus não nos afasta dos laços sociais, mas pelo contrário depois de uma mudança interior somos chamados a humanizar o mundo.
Quanto à fé, esta apresenta-se paradoxal. Fé é a salvação, no entanto não suprime a angústia. Pois, Kierkegaard “viveu influenciado pela doutrina luterana da justificação, segundo a qual o pecado nunca fica eliminado. Ao pecador só lhe resta entregar-se com a confiança do mendigo que espera uma esmola; mas esta pode falta, pois Deus não é obrigado a salvar ninguém. Só pela entrega ao sofrimento pode o homem manifestar-se como singular e atrair a compaixão de Deus”[11].
Reflectindo seriamente considero que se Deus é amor e se o homem se consciencializa do seu pecado, querendo efectuar uma mudança interior numa aproximação de Deus, então certamente o pecado fica sempre eliminado. Penso que a questão não está em Deus que pode ou não perdoar, mas sim vejo a questão no homem como aquele que apesar de todo o perdão de Deus pode cair novamente no pecado. E, deste modo, o homem precisa de se esforçar numa conversão interior aceitando o do dom da graça, para se relacionar verdadeiramente com Deus.
d) Verdade e fé
A verdade para Kierkegaard é sempre um risco, uma vez que não se pode aderir a ela por motivos perfeitamente convincentes. É algo que tem que ser intimamente vivido; considerando, deste modo, que a verdade é “subjectiva” e “apaixonada”. É importante salientar que “quanto mais se evidencia a «incerteza objectiva», maior o risco de adesão à verdade; mas também mais profunda e rica é a verdade”[12]. Deste modo, a verdade apresenta-se como a verdade suprema; pois, aderir a ela é uma exigência e risco supremo, é onde se manifesta a confiança em Deus por parte do crente. Do mesmo modo, é relevante o facto de Kierkegaard, contrariando a doutrina luterana, elogia a carta de São Tiago na qual se defende que a fé sem obras é morta[13].
e) Paradoxo
Vemos “paradoxo” sempre que se manifeste uma oposição de termos à primeira vista irreconciliáveis. Normalmente a filosofia tentou resolver o problema do “paradoxo” (por exemplo, a filosofia escolástica usa o conceito de “analogia”).
Kierkegaard vê no “paradoxo” sobretudo o contraste entre o divino e o humano. Os paradoxos são entre: Deus e o Mundo, Deus e homem, cristão e homem; onde o paradoxo supremo é Cristo (o Homem-Deus). No “paradoxo” não são eliminados nem Deus nem o homem; no entanto, Kierkegaard considera que o homem tem que se tornar apto pela fé a aderir a Deus. A fé apresenta-se com um carácter paradoxal, pois, é adesão sem compreensão[14].
Será que poderemos relacionar o paradoxo de Kierkegaard com a coincidência dos opostos de Nicolau de Cusa? Parece-nos que é possível fazer uma tal relação.
f) Importância do filósofo Kierkegaard
Kierkegaard influenciou grandemente a filosofia do século XX, nomeadamente a filosofia da existência, a corrente do existencialismo, Heidegger, Ricoeur, entre outros… É de salientar a sua originalidade.
Os seus interesses principais foram: “o empenho de valorização humana, o realce dado ao homem no seu existir concreto, a ânsia de transcendência, o interesse pelo exercício da liberdade e por certas experiências que lhe estão anexas, como a angústia e desespero, que se apresentam como características especificamente do homem ou como meios de desenvolvimento das suas possibilidades”[15].
É interessante ver a sua teologia e filosofia, constatando para o facto de Kierkegaard introduzir o homem no Cristianismo como ambiente necessário para o apaziguamento das suas ânsias; focando a importância da religião para a vida humana.

[1] Cf. FRAGATA, J. – “Kierkegaard”. In: Enc. Logos. Col. 161-162.
[2] FRAGATA, J. – Op. Cit., col. 162.
[3] Idem.
[4] Idem.
[5] Idem.
[6] FRAGATA, J. – Op. Cit., col. 163.
[7] Cf. REALE, Giovanni – “Sören Kierkegaard: o Indivíduo e a causa do cristianismo”. In: História da filosofia. São Paulo: Paulinas, 1990-1991, vol. 3, pp. 234-250.
[8] Idem.
[9] Idem.
[10] Idem.
[11] FRAGATA, J. – Op. Cit., col. 164-165.
[12] FRAGATA, J. – Op. Cit., col. 165.
[13] Cf. FRAGATA, J. – Op. Cit., col. 165.
[14] Cf. FRAGATA, J. – Op. Cit., col. 165-166.
[15] FRAGATA, J. – Op. Cit., col. 166.

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