24/08/2009

Hoje é Dia no IPJ – O teatro em reflexão


No passado dia 27 de Março, o Instituto Português da Juventude (Braga), na actividade “Hoje é Dia”, comemorou o Dia Mundial do Teatro com a presença de Manuel Cardoso (director da Associação Cultural da Juventude Povoense) e Cunha de Leiradella (dramaturgo). Estes conferencistas propuseram abordar o teatro como acção e conflito, enquanto indagação dos porquês, do seu poder de abrir mentes, e de proporcionar um maior conhecimento do humano. É esta interpretação do teatro enquanto actividade filosófica que aqui queremos sublinhar.
O teatro representa uma das formas mais antigas de expressão artística. Concebemos sobretudo o teatro como a arte mais dinâmica, directa, real e viva; destacando-se, assim, de forma peculiar de outras formas de arte. Em “Sobre el carácter festivo del teatro”, Hans-Georg Gadamer refere que o teatro é uma criação genuína, um reflexo existencial do ser humano que o possibilita intensificar a consciência de si mesmo. Neste horizonte, a mensagem do Dia Mundial do Teatro de 2009 salienta que uma das principais funções do teatro é “tornar conscientes esses espectáculos da vida diária onde os actores são os próprios espectadores, o palco é a plateia e a plateia, palco”; assim, o teatro “ilumina o palco da nossa vida quotidiana”.
As indústrias culturais podem afectar o teatro no seu íntimo reduto. Poderá existir uma certa tendência de concorrência e desvalorização da arte teatral. Principalmente o cinema, rádio, e televisão proporcionam novas formas de satisfação do prazer inato dos seres humanos pelo espectáculo, ou até o próprio desporto se apresenta como uma forma de espectáculo de massas. Assim, como refere Gadamer, a forma extrema de vida que domina a nossa civilização moderna, regida pela vontade de poder e do útil, da tendência de transformar tudo em coisas e dominá-las, poderá levar a ignorar a essência originária e viva da festa como criação, que de certo modo é inerente ao teatro. As indústrias culturais, utilizadas de forma perversa, podem até objectualizar e manipular o ser humano. Elas são passíveis de «despejar» informação e mais informação, numa ausência de questionamento, interpelação, diálogo… Como salienta o dramaturgo Cunha de Leiradella: “quanto mais informações me fornecem menos eu me comunico. Mais dirigido me sinto”. Face a esta situação ameaçadora, é necessário incrementar aquilo que o teatro tem de distintivo, os conjuntos das suas potencialidades que enriquecem o ser do humano.
Cunha de Leiradella referiu-se a quatro formas de expressão teatral. A “Forma Dramática” apela à emoção, é um teatro que proporciona sentimentos. A “Forma Épica” tem em consideração essencialmente a razão, onde as sensações são substituídas por outras formas de conhecimento. O “Teatro do Absurdo” exibe a incomunicabilidade, aliena o espectador, mostra-lhe a falta de sentido das concepções do mundo. É de salientar que o teatro do absurdo envereda pelo caminho da negação, o “nonsense”. Quanto ao “Teatro de Questionamento” pode aparecer num âmbito mais positivo, mas também abordando questões existenciais e profundas ao ser humano, pelo facto de estimular, provocar, e questionar o espectador.
Eloquentemente, o teatro poderá ser, de modo análogo à filosofia, uma forma de questionamento, que possibilite momentos de reflexão sobre a vida, a fim de se nutrir de uma existência reflectida e com sentido. Como explica o dramaturgo Cunha de Leiradella “se [o teatro] não questionar, perde a significação e o propósito. Uma representação teatral não pode ser mais, somente, uma forma de diversão ou de prazer. Nem, tampouco, uma forma de comunicação a serviço de uma ideologia”. Conceber o teatro apenas pela dimensão lúdica e espectacular tem como contrapartida ficar sem conteúdo. Pois, o teatro, tal como a filosofia, não deve apenas responder ao “o quê” ou ao “como”, mas deve interpelar também o “por quê”. Assim, o teatro como forma de questionamento aproxima-se da filosofia, não encerra temáticas, mas abre caminho para um repensar a vida, a existência, e o ser.
É de louvar esta iniciativa do IPJ, pois, como o teatro é uma proposta algo essencial ao nível artístico, é importante a sociedade em geral desfrutar de momentos de séria reflexão sobre este modo de expressão da arte.
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Publicado no Jornal Diário do Minho – Suplemento Cultura, nº 486, 22 de Abril de 2009, pp. IV-V


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