25/08/2009

Friedrich Nietzsche


a) Vida e Influências
clip_image003Friedrich Nietzsche[1] foi filósofo alemão, filho e neto de pastores luteranos. Nasceu em Rocken (perto de Lutzen, na Saxónia) no dia 15/10/1844; e faleceu em 25/08/1900 em Weimar. Estudou no colégio protestante de Pforta contactando com a visão intelectual do cristianismo. Nesse colégio descobre também o universo e cultura grega, a qual será o espaço exclusivo da sua reflexão. Do mesmo modo, começa a rejeitar as tradições familiares, sobretudo a ruptura com o Cristianismo. Em 1864 vai para a Universidade de Bona onde está inscrito em teologia. Mas o que lhe interessa realmente é os estudos de filologia clássica. Deste modo, o pensamento helénico passou a constituir a referência definitiva do seu pensamento sobre o homem, sobre a vida e o mundo. De 1869 a 1879 é professor de filologia na Universidade de Basileia. Entretanto surge-lhe uma doença grave sendo obrigado a demitir-se da universidade e a levar uma vida errante na procura de um clima mais ameno para a sua débil saúde. É de salientar que em 1883 Nietzsche conhece Lou Salomé, querendo desposá-la; no entanto, ela rejeita Nietzsche e casa com um seu amigo e discípulo (Paul Ré). A 03/01/1889 tem um violento ataque de “paralisia progressiva” acompanhada de perturbações cerebrais. Nietzsche é assistido por sua mãe a partir de 1890 e, à morte desta, em 1897, por sua irmã Elisabeth até falecer.
Paul Valadier[2] afirma que o que principio orientador da existência de Nietzsche é a separação: “separação do cristianismo quando ainda estudante, separação da pátria alemã, primeiro devido à sua posição docente em Basileia, depois mediante a sua escolha da cidadania suíça (certamente por motivos administrativos, mas o seu distanciamento em relação à Alemanha não deixará de se acentuar), separação em relação ao mundo da filologia clássica graças a essa quase-provocação em relação às tradições filológicas arraigadas na Universidade que foi a publicação, em 1872, de Origem da Tragédia, separação depois em relação à própria universidade, primeiro pelas suas críticas radicais ao sistema universitário, em seguida pela sua própria renuncia à cadeira de filologia, em 1879, separação geográfica graças a uma vida errante através da Europa do Sul, mas também separações íntimas, certamente mais dolorosas do que todas as outras, em relação a mestres (Schopenhauer), a amigos (Wagner, etc.), a mulheres desejadas como companheiras (sobretudo a última, Lou Salomé), em relação à própria mãe e à irmã Elisabeth, com a qual, aliás, as suas relações permanecerão sempre difíceis. Finalmente, o seu descalabro mental de Janeiro de 1889 não poderá também ser interpretado como uma última forma de separação – ultimidade esta que não é total já que o doente sobreviverá durante mais de 10 anos, misterioso por detrás do seu sorriso e das suas lágrimas, fisicamente presente e, contudo, já algures?”
b) Temáticas e obras
Poderemos salientar as mais famosas obras que abalaram os alicerces cristãos: "Gaia Ciência” (1881), “Assim Falava Zaratustra” (1885), “Anticristo” e “Ecce Homo” (1888). Nietzsche nas suas obras apresentou quase sempre o seu maior inimigo. Este filósofo aponta o cristianismo como a mais nefasta das seduções e das mentiras ao qual disputará todas as posições, numa luta aberta sem tréguas. Para Nietzsche o cristianismo toca a questão fundamental do valor do homem e da vida; mas vê o cristianismo a ensinar e a propor uma doutrina triste e mortal, por isso a sua vida consistiu em substituir essa doutrina por um saber alegre e exaltante.
c) As três metamorfoses
Nietzsche relê o destino da cultura ocidental a partir de uma tripla metamorfose: do camelo, do leão, e da criança. Isto simboliza a par da história da Humanidade e talvez do itinerário espiritual de Nietzsche, uma estrutura de experiências e de atitudes que entre si se podem opor e digladiar.
O “camelo” refere-se ao período da história onde se assiste a uma dominação por um largo tempo pelos valores cristão. Ou seja, é o espírito de obediência, de sujeição, e veneração das velhas tábuas da lei. Carrega sobre si todos os valores, da religião à moral e da moral ao conhecimento. É o período do carregar, assumir, dizer sim a todas as imposições e imperativos do grande “dragão” que é para Nietzsche o “tu deves” e que o espírito de camelo toma como divisa, quer proceda de um Deus, de um senhor ou de si mesmo. É um estágio dominado por valores já estabelecidos, fixados num céu religioso, moral ou científico, que reduzem o homem a um animal atento e venerador.
“Leão” é o momento em que descobre que tudo é vão. Revolta contra o princípio contra o principio e o nada dos valores que até então carregou submissamente. Ao tu deves o “leão” opõe um eu quero. Ao principio donde dependiam os valores até então vigentes opõe um outro principio, que irá ditar e impor novos valores por então desconhecidos. Ao sim do camelo, que consiste em assumir, opõe um não triunfante, espezinhando todos os fardos, inclusive o fardo do niilismo. Nada de ideias eternas de que os seres seriam simples cópias; não existem cópias e muito menos cópias de cópias, pela simples razão que não existe nenhum modelo. Liberto de todas as caravanas de “camelos” que nada mais fazem do que atravessar pachorrentamente a imensidão do deserto (niilismo passivo), o “leão” torna-se senhor do seu próprio deserto, lançando pânico e a destruição à sua volta (niilismo activo). Mas é necessário dar continuidade a esta destruição, a este niilismo activo, é necessário um novo período, uma nova metamorfose.
“Criança” é o período em que o leão se transforma em “criança”, inocência e esquecimento, a inaugurar uma nova era, que diga sim ao jogo espontâneo da criação e da vida: doravante nem Deus nem homem acima do eu, apenas o instinto criador que, a cada momento, considera o Mundo como um jogo e um começo sagrados. A “criança” com a sua força criadora, vem substituir, não só os valores estabelecidos, mas o princípio de toda a possível dijudicação. Ao não do “leão” sucede um novo sim, que não é sim do camelo que carrega, mas da criança que cria, uma afirmação que se confunde com a leveza e a graça da aurora.
d) O projecto filosófico
O projecto filosófico de Nietzsche consiste em superar o cristianismo; deste modo, proclama-se niilista, mas o seu niilismo não se deve confundir com o niilismo passivo dos seus contemporâneos, cujas contradições denunciou de modo implacável. O niilismo de Nietzsche é activo, é já o do super-homem, para o qual não existem céus inteligíveis nem outros mundos nem distinção entre o ilusório e o real. O super-homem é o tipo da mais elevada plenitude; ele simboliza tudo de contrário aos bons, aos cristãos, e também aos niilistas de profissão sem saída possível; super-homem é o eu em toda a sua plenitude de auto-suficiência, autor e senhor do seu próprio poder. Não se trata de celebrar a superioridade de cada um sobre os outros, mas de consagrar o domínio de si próprio, como fonte e princípio de todos os valores.
É, portanto, necessário substituir a vontade que do exterior pretende ditar e impor os fins da vida por uma “vontade própria”, independente e autónoma, que a si mesma se dê os fins e os meios do seu agir. É esta a vontade de poder que se afirma não tanto como vontade de domínio sobre os outros (como queriam a sua irmã Elisabeth e Peter Gast). Para esta vontade de poder não basta anunciar a morte de Deus, é necessário perseguir até a sua sombra que se infiltra e oculta por toda a parte onde subsista uma regra ou uma norma ainda que de simples gramática. É necessário liquidar, uma vez por todas, os imperativos categóricos das novas prisões que acorrentam o homem a uma verdade que não é sua. Para chegar ao super-homem há que denunciar todos os alucinados do além, aqueles que se limitam a rezar em vez de abençoarem tudo quanto lhes acontece. Necessário ainda acabar com os niveladores, construtores de um igualitarismo democrático destinado a realizar a felicidade do rebanho, de um bem-estar, de uma facilidade e comodidade de vida para todos, que é a maneira mais explicita de reduzir o homem à mediocridade dos seus desejos, ao tamanho comum, à estatura da nada e ninguém. O super-homem é a recusa da moral e a rejeição da religião. O eterno retorno é a verdadeira escatologia no e pelo tempo, é a satisfação permanente de ser o que sou: um eterno presente, uma fulguração do idêntico.
e) A questão de Deus
Para Nietzsche agora a escolha é entre o Crucificado e Dioniso: “o Deus pregado na cruz é uma maldição da vida, uma advertência para nos livrarmos dele; Dioniso esquartejado é uma promessa de vida a renascer eternamente da sua destruição”. Uma vez rejeitado o cristianismo, Nietzsche arvora-se em profeta do Deus da vida, promessa da plena realização do homem. Com razão escreveu Lou Salomé que Nietzsche toda a vida se esforçou por descobrir através das diferentes figuras de divinização de si mesmo um substituto para o Deus morto. De facto Dioniso, Zaratustra e o super-homem parecem constituir outras tantas incarnações daquilo que Nietzsche procurou pôr no lugar de Deus.
O Deus que Nietzsche rejeita é inegavelmente o Deus moral, inquiridor e indiscreto, que com o seu olhar penetrante e aterrador esmaga e paralisa o homem. Assim, é necessário que este curioso morra para que o homem possa viver. Mas seria legítimo esperar que o desaparecimento deste Deus moral de ascendência kantiana abrisse espaço para um outro Deus a morar para lá dos humanos padrões do bem e do mal.
Nietzsche critica o cristianismo por ter perdido o sentido realmente divino do mundo, de ser demasiado humano e, falho de distância e deferência, de ter pactuado com a sonolência e o antropomorfismo do rebanho, da mediania, da banalidade e indiferença.

[1] Cf. FREITAS, Manuel da Costa – “Nietzsche”. In: Enc. Luso-Brasileira Logos.
[2] Cf. VALADIER, Paul – Nietzsche: L’athée de rigueur. Paris: Desclée de Brouwer, 1975, p. 26.


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