24/08/2009

A formação filosófica: “mais-valia” no mundo de hoje


Texto realizado por Domingos Faria, Heiton Gomes e Higino Lombe, alunos da Faculdade de Filosofia da Católica/Braga. Supervisão do docente Carlos Morais.
Como é já do conhecimento público, a Faculdade de Filosofia (UCP/Braga), lançou, no corrente ano lectivo, a iniciativa inédita entre nós da criação de estágios no Curso de Licenciatura em Filosofia, orientados para as vertentes da intervenção sociocultural no contexto das organizações. É, pois, na qualidade de estagiários que nos propomos apresentar alguns dos traços de maior relevância social deste desafio, no momento em que se comemora o Dia Mundial da Filosofia, patrocinado pela Unesco, e quando em Portugal se assiste a uma sistemática e perigosa erradicação da filosofia do espaço público.
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Procuraremos, nesta nossa reflexão, sublinhar a concepção da filosofia como um exercício teórico-prático, ou seja um saber-fazer que se traduz em aplicações concretas nos diversos domínios da realidade. Em segundo lugar, identificaremos as principais competências que a filosofia proporciona, no sentido de demonstrar que elas constituem uma mais-valia em qualquer âmbito das actividades desenvolvidas nas instituições e organizações. Finalizaremos este texto referindo a nossa experiência de estagiários nas instituições que nos acolhem, bem como a motivação para deixarmos nas actividades em que estamos envolvidos uma marca identificativa da formação filosófica.
O que é a filosofia?
A filosofia é uma disciplina intelectual que usa métodos racionais e de análise crítica. Tem como objectivo a construção de um pensamento, de um modo de ver as coisas coerente, criativo e fundamentado. Todos os campos da realidade interessam à filosofia, desde as questões mais profundas e misteriosas do ser humano e das relações sociais, aos problemas da cultura, da economia, do direito, da arte, da política, da ecologia, tentando encontrar o sentido total de todas as coisas. A atitude questionadora faz parte da sua identidade mais genuína, numa salutar insatisfação de quem procura sempre mais, melhores resultados, respostas mais completas, sentido mais fundamentado.
Todavia, como se sabe, a filosofia, está permanentemente sob suspeita, são-lhe dirigidas objecções de diversa índole que nos preocupam. A filosofia é muitas vezes apodada de um saber infrutífero, uma “tagarelice”, uma conversa fiada, onde todos os pontos de vista são possíveis, sem produzirem nenhum resultado. Responderemos que, possuindo um carácter especulativo uma vez que se debruça sobre o pensamento, a sua busca da verdade, do melhor fundamento e da melhor expressão discursiva não redunda em mera abstracção. Todos os elementos sobre os quais a filosofia se debruça são parte de um mundo, de uma realidade concreta. Assim, quando falamos do sentido da vida e da morte, do valor da existência, do sentido das relações humanas, da ética aplicada ao meio empresarial ou às ciências da vida, da relação com a cultura, dos valores estéticos e da arte, da política e da cidadania, etc., estamos a referir-nos a algo que se liga intimamente ao nosso mundo e à nossa vida concreta. Não são meras quimeras ou abstracções. E o role das questões que cabe à filosofia reflectir poderia continuar: De onde vimos? Qual é a nossa forma de atravessar a vida? Para quê e para onde? Que poderemos conhecer, fazer, esperar? (Kant).
Para que serve e filosofia?
Também nos deparamos, amiúde, com a ideia pré-concebida de que, em termos de saber-fazer, a filosofia não nos proporciona nada. Que ela até nos pode dar um certo ar de erudição e com isso reforçar o nosso estatuto social, mas a nível do saber-fazer revela-se ineficiente… Discordamos deste preconceito. Os formados em filosofia adquiriram a capacidade de pensar claramente, com rigor e precisão, concebem respostas inovadoras e criativas para questões e actividades complexas, analisam com acuidade ideias, argumentos, projectos, oferecendo respostas e comentários com imparcialidade e rigor muito prático. Por isso dizemos que a sua presença é uma mais-valia em todas as actividades laborais. Além disso, os formados em filosofia manifestam – tal como é reconhecido por muitos empregadores – um grande poder de adaptação, de reflexão crítica e por isso inovam mais do que muitos especialistas das diferentes áreas. Precisamente porque possuem um grande treino a nível da teorização filosófica, contribuem para a efectiva resolução de problemas no seio das distintas actividades laborais.
Acusam, ainda, a filosofia de ser apenas demagogia, socorrendo-se de um vocabulário rebuscado como forma de escamotear a realidade. Contrapomos que a análise conceptual, a reflexão em torno das questões da linguagem e seus processos cognitivos são imprescindíveis em todos aqueles campos onde se desenvolve a dimensão comunicacional. Só clarificando os conceitos, praticando uma hermenêutica poderemos assentar as bases de uma eficaz linguagem capaz de veicular e expressar o campo antropológico e cultural. É ainda o rigor lógico da filosofia que permite uma maior objectivação e precisão, permitindo maior entendimento dentro de uma comunidade, ou entre várias comunidades.
Portanto, em síntese, a filosofia não é um entretenimento diletante, um jogo de palavras caras, ou uma ocupação sem consequências, mas uma prática da reflexão, séria e consequente, pela qual o filósofo aprende a pensar pela sua própria cabeça os problemas que se lhe deparam.
O lugar do filósofo na sociedade
Dadas estas competências, parece-nos totalmente legítima e até urgente a inserção do filósofo em todos os sectores em que se organiza a vida em sociedade, nas mais diversas áreas de actividades. Por isso, bem andou e decidiu a Faculdade de Filosofia ao apostar na valorização das competências dos seus licenciados, oferecendo-lhes a oportunidade de desenvolver uma componente mais prática e profissional da licenciatura em filosofia, que estava em falta, ajudando decisivamente a reabilitar a imagem do filósofo enquanto “profissional”. Estamos confiantes de que assim será para nós mais fácil, porque mais credível, abrir portas de acesso à inserção na vida activa.
É assim que entendemos a nossa presença nas instituições que nos acolhem para a realização dos nossos estágios. Nas respectivas instituições procuramos prestar toda a colaboração prática nas actividades que constam do plano do nosso estágio, ao mesmo tempo que as aprofundamos através da investigação, de análise, da interpretação e avaliação crítica, de modo a participarmos nelas com um cunho pessoal, e a desenvolvermos instrumentos tendentes à sua dinamização e valorização pública. Mais concretamente, vejamos cada uma das situações de estágio.
No Instituto Português da Juventude/Braga, sob a responsabilidade do Director Regional Dr. Vítor Dias e a orientação do Animador Dr. Constantino Teixeira, o nosso estágio consta da participação em três áreas principais: nas Exposições de Arte que terão lugar nas próprias instalações do IPJ, na rubrica “Hoje é Dia” e no programa “Rota dos Museus”. Trabalhamos na organização das exposições inseridas na planificação do Instituto, com vista, preferencialmente, à promoção e valorização cultural dos novos valores que vão surgindo na área da criação. Procuramos complementar estas iniciativas com artigos de opinião, de análise da arte. Na actividade “Hoje é Dia”, enquadraremos historicamente o respectivo tema, elaboraremos uma reflexão crítica em torno da respectiva questão e procederemos à sua divulgação. Na “Rota dos Museus”, o nosso objectivo passa por dar continuidade a este interessante programa do IPJ, contribuindo para a valorização de entidades museológicas não tão conhecidas do público.
Na Junta de Freguesia de São Victor/Braga, sob a orientação do seu Presidente, Dr. Firmino Marques temos a nosso cargo a colaboração na concepção, dinamização e execução de diversas actividades. Em primeiro lugar, a preparação do Ano Escolar 2008/2009, reunindo com os coordenadores/as das Escolas EB1 e Jardins-de-Infância, requerendo reflexão de índole pedagógica e curricular, bem como a recolha de dados. Em segundo lugar, a colaboração na preparação do Boletim Informativo da Junta de Freguesia, onde faremos a recolha e tratamento dos artigos e textos com vista a sua publicação. De seguida, a participação na Organização da Maratona Cultural e da Solidariedade. Neste contexto realizamos um trabalho de reflexão sobre o significado desta maratona. Finalmente, participaremos na preparação e organização da “VII Grande Noite de Fados de São Victor 2008”, aproveitando também para submetermos esta iniciativa a uma reflexão estética e cultural sobre o Fado e sua repercussão na fruição cultural da região.
Na Associação Portuguesa de Aconselhamento Ético e Filosófico, sob a orientação do seu Presidente, Dr. Nuno Tavares, desenvolvemos um conjunto de actividades no âmbito da filosofia prática, hoje muito valorizada. Especificamente, no que concerne ao “aconselhamento filosófico” treinamos competências para o exercício de consultas de orientação filosófica, em ordem à clarificação do pensamento daquelas pessoas que nos procuram. Trata-se de uma intervenção que busca a resolução de “patologias” e dilemas de pensamento, onde seguimos a máxima socrática “conhece-te a ti mesmo”. Participamos, também, em ateliers de “filosofia para crianças” onde se pretende implementar estratégias em ordem à criatividade e autonomia progressiva do pensamento, à promoção de hábitos de questionamento e problematização. Outra das actividades consistirá na orientação de grupos de reflexão sistemática e de cafés filosóficos (de carácter mais informal), onde o filosofo é o moderador na discussão de temas relacionados com a vida quotidiana. Finalmente, uma outra actividade do nosso estágio consistirá no treino de competências para intervir nas organizações empresariais, treinando a identificação, análise, e resolução de conflitos e problemas do âmbito da ética e das relações humanas; aqui, temos a missão de melhorar o ambiente do local de trabalho, de humanizar a organização ou empresa.
Fica uma palavra de gratidão a estas Instituições, pelo enriquecimento que nos estão a proporcionar, preparando-nos para a entrada na vida activa.
Com esta resenha desejamos ter contribuído para o esclarecimento do leitor quanto a esta inovadora concepção de formação filosófica, a sua utilidade pública e a sua aplicabilidade a situações concretas. Se o tivermos conseguido, teremos também dado o nosso contributo para a desmistificação dos estereótipos e dos preconceitos acerca da filosofia. Inspirados em Deleuze, afirmamos que a filosofia é uma actividade do pensamento, e como tal pode e deve ser usada como útil ferramenta na diversidade das situações da vida, do trabalho e do ócio.

Texto publicado no jornal Diário do Minho, n.º 28324, de 20/11/08.


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