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    Quinta-feira, 27 de Agosto de 2009

    Filosofia Prática

    Fiz a seguinte entrevista ao Dr. Jorge Humberto Dias, que é um grande especialista na área da filosofia prática.

    Qual entende ser o papel do filósofo no mundo social de hoje?
    JD – Penso que a Filosofia Social é hoje uma área cada vez mais
    importante. Com a complexificação do tecido social, sobretudo ao nível
    das relações pessoais e institucionais, considero um bom investimento
    profissional e social, por parte dos alunos universitários, a
    especialização em Filosofia Social Aplicada. Tal como acontece noutras
    áreas (académicas e profissionais), desde o Direito à Educação, passando
    pelo Serviço Social, penso que é uma resposta extremamente actual e com
    sentido, a Filosofia dedicar-se à análise e intervenção social, nos mais
    variados domínios.
    Para isso, necessitamos da articulação entre as ofertas universitárias
    (que devem ser cada vez mais diversificadas, indo ao encontro dos
    interesses dos alunos, assim como das reais necessidades das sociedades
    e das pessoas), as entidades de estágio, as associações profissionais na
    área da Filosofia e o mundo social em geral (empresas e organizações
    não-governamentais, por exemplo).
    O contributo do filósofo sempre foi importante para o debate de ideias,
    para a formação das pessoas e para o desenvolvimento das organizações
    sociais. No entanto, vivendo hoje num mundo cada vez mais tecnicizado e
    profissionalizado, com fortes influências sociais e tecnológicas, os
    licenciados em Filosofia deverão, também, obter formação especializada e
    experiência profissional nas diferentes áreas de intervenção social.
    Está aqui em causa a questão da habilitação profissional para uma
    determinada função. Neste âmbito, sabemos que as instituições de
    formação, em Portugal, estão ainda em processo de desenvolvimento, no
    que diz respeito à implementação de cursos de formação inicial
    (universitários) e de formação contínua (profissionais) e de grupos de
    investigação académica/científica.


    Em que consiste o aconselhamento filosófico?
    JD – Trata-se de uma área de aplicação da Filosofia, que consiste
    no fornecimento de um serviço especializado de aconselhamento, a
    pessoas ou instituições/organizações, utilizando para isso o
    domínio dos conhecimentos e dos métodos filosóficos, na abordagem
    a uma determinada situação. Neste processo, é necessário dominar
    competências de aconselhamento, assim como competências
    filosóficas.
    Tal como existem outros aconselhamentos, o jurídico, o financeiro, o
    psicológico, o dietético, o empresarial, o imobiliário, o social, etc.,
    também o Aconselhamento Filosófico pretende ajudar o seu cliente a
    melhorar a sua situação concreta de vida. Em geral, o conselheiro
    filosófico trabalha as várias dimensões filosóficas da vida e do
    pensamento do cliente.


    O que é que uma pessoa pode esperar quando se dirige a uma consulta de
    aconselhamento filosófico?

    JD – O consultante, quando procura um serviço de aconselhamento,
    pretende obter uma espécie de ajuda. Actualmente, em Portugal, já muitas
    pessoas conhecem o tipo de serviço que o Aconselhamento Filosófico pode
    fornecer. No entanto, ainda é frequente encontrar pessoas, com problemas
    específicos da sua situação de vida e/ou da sua subjectividade, e que
    depois de terem experimentado outros tipos de ajuda, decidem
    experimentar a ajuda filosófica. Estas, na sua larga maioria,
    desconhecem a metodologia de trabalho utilizada pelo conselheiro
    filosófico.
    Por outro lado, já vamos encontrando em Portugal consultantes que
    procuram intencionalmente este tipo de serviço, pois têm noção da sua
    utilidade nas suas vidas/pensamento.
    Podemos ver alguns exemplos: a felicidade é, quanto a mim, um problema
    humano e filosófico, que poderá levar um consultante a solicitar os
    serviços de um conselheiro filosófico, e o qual poderá ser útil na
    reflexão metodológica sobre o problema, pois a concepção de felicidade
    tem uma relação única e insubstituível com a concepção de vida do
    consultante.
    Problemas relacionados com o sentido da vida e da morte, com a
    compreensão relativa a um conflito de valores, com a interpretação
    relativa a um conjunto de ideias e acções, com a análise de uma situação
    pessoal complexa, etc.
    Hoje, vemos empresas a contratar licenciados em Filosofia, pois conhecem
    os benefícios que o trabalho filosófico pode ter na gestão empresarial,
    desde as questões éticas/deontológicas às questões de recursos humanos,
    de filosofia da empresa, de qualidade, etc.


    O que é o método “PROJECT@”?
    JD – É uma forma de trabalhar a consulta filosófica. Ao longo da minha
    carreira como Consultor Filosófico, fui-me apercebendo de alguns
    instrumentos específicos e próprios que utilizava nas consultas
    individuais e organizacionais. Aos poucos fui escrevendo e
    esquematizando esses instrumentos, pois considero fundamental
    partilhá-los com os colegas de profissão, assim como com os leitores
    interessados em conhecer e explorar esta área de trabalho.
    PROJECT@ é assim uma metodologia criada para o desenvolvimento da
    consulta filosófica individual, embora possa ser adaptada à consulta
    organizacional. Tal como acontece em todas as criações, as influências
    são várias: a filosofia dos clássicos antigos (o questionamento de
    Sócrates sobre as ideias essenciais da vida, a metodologia sistemática
    de Aristóteles, os conselhos de Epicuro, Séneca, Epicteto e Marco
    Aurélio), a filosofia do existencialismo (escola que desenvolveu várias
    análises sobre a existência humana em geral, embora alguns autores
    tenham abordado, mais em específico, alguns tópicos como por exemplo, a
    liberdade, a responsabilidade, o sentido da vida, a felicidade, o
    suicídio, a morte, os projectos, etc.), a filosofia vitalista
    (nomeadamente de autores espanhóis, como Ortega e Gassett e Julián
    Márias) e o movimento contemporâneo da Philosophical Practice, iniciado
    em 1981 por Gerd Achenbach (com os seus diversos projectos: gabinete de
    consulta filosófica, centro de formação de praticantes de filosofia e
    associação nacional e internacional de filosofia prática) e nos anos 90
    com Lou Marinoff e Ran Lahav (com a organização do primeiro congresso
    internacional de prática filosófica).


    O aconselhamento filosófico é uma alternativa à psicologia e à
    psiquiatria?
    JD – De facto, alguns autores têm abordado o Aconselhamento
    Filosófico partindo de uma comparação com as ciências da psique.
    No que diz respeito ao meu ponto de vista, já em várias
    entrevistas me posicionei em relação a este tema: penso que
    estamos perante áreas diferentes e que utilizam conceitos e
    metodologias diferentes. Entendo que possam existir alguns autores
    a explorar o facto de alguns filósofos, no passado, terem dedicado
    os seus estudos às três áreas em conjunto. Mas com a
    especialização de cada área, na época contemporânea, já não faz
    sentido confundirmos Filosofia, Psicologia e Psiquiatria. São
    áreas que trabalham de modo diferente e que tratam problemas
    diferentes. No entanto, há uma questão que pode ser pertinente
    analisar, que é a utilidade que cada uma pode ter no processo de
    ajuda a um determinado consultante. Também poderá ser objecto
    interessante para a investigação académica, a definição clara de
    qual a área indicada para trabalhar a situação concreta do
    consultante que decide solicitar os serviços de um destes
    profissionais: consultor filosófico, psicólogo ou psiquiatra.
    Para terminar a minha resposta a esta pergunta, recordo umas jornadas de
    saúde e de toxicodependência, em que participei como conferencista
    convidado, no painel dedicado ao trabalho da ética em equipas
    multidisciplinares. Com este exemplo, pretendo transmitir a minha
    posição, ou seja, penso que na actualidade, os problemas das pessoas e
    das organizações são tão complexos, que só um trabalho de equipa,
    composto por profissionais de diferentes áreas, poderá ajudar a
    desenvolver novas formas de gestão, resolução, etc.

    Consegue-se viver de filosofia prática (aconselhamento filosófico,
    filosofia para crianças, ética empresarial, etc) em Portugal?

    JD – Esta é mais uma boa questão. Eu não conheço todos os
    profissionais que se dedicam, em Portugal, à Consultoria
    Filosófica. A experiência que tive como presidente da Associação
    Portuguesa de Aconselhamento Ético e Filosófico, entre 2004-2008,
    permitiu-me verificar que não existia nenhum associado que vivesse
    exclusivamente da prática profissional da filosofia. A sua grande
    maioria eram professores de filosofia do ensino
    secundário/superior que exerciam a actividade de consultoria
    filosófica em regime de acumulação.
    Relativamente à filosofia para crianças, a situação é diferente, pois
    estamos perante uma área que também faz parte do paradigma mais
    utilizado em Portugal: o estudo da disciplina de filosofia no sistema de
    educação. Sei que existem alguns professores a leccionar a disciplina de
    filosofia para crianças em escolas do 1º e 2º ciclo do ensino básico,
    que optaram por apresentar esta oferta. Outros, têm-se dedicado à
    formação de professores e outros ainda, têm participado em
    ateliês/oficinas de curta duração.
    Quanto à ética empresarial, a situação é ainda mais peculiar, dado que a
    maioria dos profissionais que trabalha esta área não tem qualquer
    formação na área das ciências filosóficas. No entanto, existem alguns
    licenciados em filosofia a desenvolver projectos nesta área.
    Resumindo, penso que é necessário criar, em primeiro lugar, as condições
    necessárias e legais para o exercício de uma profissão. Só nessa base
    fará sentido perguntar se existem profissões na área da filosofia. Como
    todos sabemos, em Portugal só está prevista a profissão de professor de
    filosofia. As outras saídas profissionais, anunciadas pelas
    universidades, dependem da “boa vontade” das entidades empregadoras.
    Portanto, com este cenário, somos levados a dizer que há ainda um longo
    caminho a percorrer por parte das associações profissionais do sector.
    Os consultores filosóficos, a exercem a sua actividade em Portugal, têm
    preenchido o seu IRS com a designação da categoria profissional de:
    «Consultores» - também utilizada por outros licenciados, profissionais
    de outros sectores.


    Quer-nos falar sobre a filosofia para crianças, os cafés filosóficos,
    filosofia na empresa, e pertinência destas actividades na sociedade?
    JD – Penso que essas actividades têm de ser organizadas de acordo
    com os interesses dos eventuais participantes. E claramente,
    dependem dos objectivos estabelecidos pelo facilitador. Se o
    público-alvo fôr o cidadão comum, então o filósofo terá de adaptar
    a sua linguagem e metodologia, de modo a que todo o trabalho seja
    perceptível e possa vir a resultar em utilidade. Por outro lado,
    se o público-alvo fôr o próprio filósofo, isto é, em que o
    objectivo seja a formação interpares, então os instrumentos
    técnicos deverão ser suficientemente pertinentes...


    Que perspectivas pode ter um recém-licenciado em filosofia para exercer
    uma profissão em Portugal?
    JD – Na sequência do que eu já disse anteriormente, penso que
    falta uma associação profissional forte na área da filosofia, que
    trabalhe no sentido de promover melhores condições profissionais
    para os licenciados em filosofia, dialogando com vários parceiros,
    desde os organismos governativos, passando pelas universidades,
    pelas empresas, pela comunicação social, etc. Neste processo, é
    essencial a organização de reuniões científicas e profissionais,
    com a presença de personalidades de reconhecido mérito, nacional e
    internacionalmente.
    Penso que os filósofos têm muito a aprender com o trabalho realizado
    pelas ordens profissionais, já existentes no sector da advocacia, da
    medicina, da arquitectura, da engenharia, da economia, etc. Todos
    sabemos que não existem modelos perfeitos, mas a realidade tem mostrado
    que as profissões mais fortes e que subsistem no mercado são aquelas que
    têm melhores formas de organização e que conseguem promover os seus
    serviços e obter condições de trabalho digno, sério e útil.
    No panorama actual, um licenciado em filosofia está dependende da “boa
    vontade” (infelizmente, não no sentido kantiano do termo) das
    instituições com que contactar e/ou da sorte nos concursos de
    professores. Se nalgum momento necessitar de apoio/aconselhamento,
    desconheço se existe alguma associação de filosofia a prestar esse
    serviço aos seus associados. Talvez fosse uma boa ideia, contactar
    algumas empresas de filosofia, que actualmente existem um pouco por todo
    o mundo...

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