30/08/2009

Filosofia para Crianças (2)


A propósito da temática da filosofia para crianças decidimos entrevistar mais uma grande especialista de FpC a nível nacional. A dr. Joana Sousa é certificada em Filosofia para Crianças e no método Six Thinking Hats®. Nesta entrevista ela conta-nos a sua experiência...
1. Qual entende ser o papel do filósofo no mundo social de hoje?
O filósofo viu o seu papel reduzido ao trabalho académico até há muito pouco tempo: hoje já conhecemos notícias de grandes empresas que recrutam licenciados em Filosofia, para a função de consultores, por exº. Considero que o movimento das novas práticas filosóficas, onde se insere a consultoria filosófica e a Filosofia para Crianças, constituem uma esperança, um caminho para um olhar diferente sobre o filósofo. Pode ser que a filosofia ganhe um novo fôlego e consiga marcar um lugar ao sol, do qual tem vindo a ser arredada.
2. Em que consiste a filosofia para/com crianças?
No meu entender, a Filosofia para Crianças (FpC) consiste numa prática de competências do pensar. Costumo usar a imagem do ginásio: nas sessões de FpC temos oportunidade de treinar os músculos do pensamento, questionando, reflectindo em grupo e assumindo posições. O motivo desse «treino» pode ser um texto, uma imagem, um exercício de criatividade; os recursos podem ser diversos, pois o importante é o processo de pensamento que ocorre em grupo. Mais importante do que os resultados dos ateliers (um desenho e uma frase, por exº) é o observar o modo como as crianças descobrem que «trabalhar com a mente é divertido».
3. O que é que os pais podem esperar de um filho quando o “matriculam” em filosofia para/com crianças? Neste momento, em Portugal, ainda não dispomos de instrumentos avaliativos que nos permitam apresentar resultados concretos e trabalhados sobre os efeitos da Filosofia para Crianças. A própria disciplina ainda não se constitui enquanto disciplina; está presente sob a forma de AEC (actividades extra curriculares) ou como uma actividade que os Centros de Formação e ligados ao ensino oferecem. Alguns colégios e escolas particulares já proporcionam a FpC como actividade facultativa. Não podemos ter a ilusão de que numa hora de sessão ou atelier se cria uma comunidade de investigação e todos as crianças apreendem TODAS as noções de pensamento crítico, criativo e cuidativo! Sem continuidade isso não é possível, pois a prática constante é fundamental nesse processo. As crianças que participam de forma continuada acabam por exprimir que a Filosofia lhes permite «pensar com a cabeça», «pensar como as coisas são».
4. Filosofia “para” crianças ou filosofia “com” crianças? Qualquer uma das expressões me agrada. E utilizo-as frequentemente, sem preconceito. Numa sessão de FpC não se pode esperar que aconteça Filosofia, no sentido mais clássico do termo. O que acontece é uma prática das competências do pensar. Sabemos que o espanto filosófico é muitas vezes ilustrado com o espanto da criança, que fica perplexa e olhar para as coisas como se fosse a primeira vez. Mas se as crianças são filósofos em ponto pequeno, porque é que as sessões são, por vezes, tão difíceis de realizar? Note-se que esta dificuldade é que transforma a sessão em desafio para o facilitador: trabalhamos sem rede, porque o nosso papel não é o de direccionar os ateliers no sentido daquilo que gostaríamos de trabalhar, mas de atender às solicitações do grupo que temos perante nós. Talvez a expressão correcta seja «sessão de filosofia das crianças» - porque no fundo a sessão pertence-lhes!
5. Qual é a importância da filosofia para/com crianças? Tal como já afirmei anteriormente, a mais valia desta disciplina é a possibilidade de colocar em prática as competências do pensamento crítico, criativo e cuidativo. Estas são dimensões apontadas pelo «pai» da FpC, Mathew Lipman. Conceptualizar, problematizar, criar, ouvir o outro, ter a capacidade de esperar pela sua vez, tomar decisão, mudar de ideia – a FpC pode proporcionar isso mesmo. Como dizia uma aluna minha há dias, de dez anos, «não pensem que é só para as crianças, a Filosofia é para todas as idades.»
6. Em que consiste o método “Six Thinking Hats®” de Edward de Bono? Trata-se de uma técnica que permite a organização do pensamento: cada chapéu tem uma cor, cada cor significa uma linha de pensamento. Os seis chapéus podem funcionar como um «código» que me permite identificar em que posíção se encontra a pessoa com quem falo. Permite que eu use o mesmo chapéu do outro e assim torne mais fácil e acessível o processo comunicativo. Com as crianças torna-se divertida a utilização da técnica (e dos próprios chapéus) e facilmente interiorizam as cores e os significados.
7. Consegue-se viver de filosofia para/com crianças em Portugal?
Penso que não estão reunidas as condições para isso. A FpC nem sequer é uma disciplina propriamente dita. Não conheço ninguém que o faça. Mas isso não faz com que seja impossível!
8. Que perspectivas pode ter um recém-licenciado em filosofia para exercer uma profissão em Portugal?
Em termos profissionais, um recém licenciado em Filosofia tem que estar preparado para trabalhar noutra área; quem sabe a especializar-se numa área diferente e assim iluminar a sua especialização com a luz do saber filosófico. Podemos e devemos conduzir esforços no sentido de procurar exercer profissão na área filosófica. Mas repare-se que a Filosofia é um saber transversal a todos os outros, pelo que os filósofos «são capazes de quase tudo», como costumo dizer de forma irónica.


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