18/08/2009

Filosofia e Matrix


Depois de ver o filme, deixo aqui alguns pontos para uma possível reflexão filosófica:

1.Quando Neo está preso na Matrix vê, sente, ouve, toca e cheira, contudo penso que não conhece o que o que vê, sente, ouve, toca e cheira. Pois, mesmo que Neo tenha uma crença justificada em certa proposição, essa certa proposição é falsa, uma vez que é uma ilusão. Imaginemos que Neo olha para uma determinada jovem que se dirige para ele, sente a vitalidade da jovem, ouve os passos dela caminhando em direcção a ele, pode cumprimentá-la tocando-a na face, e cheirar o seu suave e agradável perfume. Neo neste cenário está totalmente justificado para acreditar que existe mesmo a jovem e que ela está ao lado dele. Mas, a jovem (a proposição) poderá ser falsa; uma vez que a jovem pode ser uma criação da Matrix sendo assim esta jovem uma mera ilusão. Portanto, conhecer implica também uma verdade real, e não basta apenas ver, sentir, ouvir, tocar, cheirar, e justificar isso.

2.Por vezes costumo lembrar-me dos sonhos. Quando sonho só tenho consciência que sonhei depois de acordar, e normalmente passados alguns minutos esqueço tudo o que sonhei num processo automático. Num sonho tenho total liberdade… posso voar, ser rico, fazer o que não consigo por vezes fazer enquanto vivo na realidade, enfim, não existe qualquer limite. Os sonhos, ao contrário da realidade, muitas vezes aparecem-me como abstractos, com segmentos sem qualquer sentido temporal e espacial; aparecem normalmente com coisas levadas a um extremo significativo, impossíveis de acontecer na realidade. O real é mais objectivo, concreto, com um espaço e tempo muito determinado, com muitas leis e normas fixas, com muito pouco espaço de manobra.

3.Nunca senti que há algo errado na minha vida ou com o mundo à minha volta. Sempre senti que vale a pena viver, e a vida está repleta de sentido, sendo esta uma verdadeira realidade, e não uma ilusão como muitos poderão pensar. Acredito e penso que não sou de nenhuma forma um escravo da Matrix. As minhas crenças de controle sempre me fizeram acreditar que sou um ser livre (com condicionamentos). Mas, penso que posso dogmaticamente afirmar que sou pelo menos um ser livre de pensamento. Não sou um escravo da Matrix, pois penso que a realidade que percepciono através dos meus sentidos é cognoscível, objectiva. Contudo, os meus sentidos podem-me enganar, é certo. Mas, acho que a realidade que eu percepciono não será assim tão diferente daquilo que eu possa pensar. É verdade que o meu mundo é diferente do mundo de um invisual. É verdade que se eu colocar uns óculos microscópicos vejo um mundo diferente do que se estiver a olhar a olho nu. É verdade que se tivesse outros sentidos mais apurados tinha uma visão diferente do mundo. Mas seria assim um mundo tão diferente? Penso que não. Mas, vou imaginar que de facto sou um escravo da Matrix. Então, se sou um escravo da Matrix tudo o que posso conceber, percepcionar, adquirir, é apenas uma ilusão, uma imagem. Ora, o facto de eu afirmar que sou um escravo da Matrix é do mesmo modo uma ilusão, uma imagem (uma vez que tudo o que posso conceber, percepcionar, adquirir, é apenas uma ilusão, uma imagem). Logo, dizer que sou um escravo da Matrix é irreal, falso, pois o facto de eu dizer que sou escravo da Matrix implica que ela própria seja uma ilusão, uma imagem. Deste modo, felizmente, nunca poderei ser um escravo da Matrix.

4.Caso pudesse escolher optaria sempre pela realidade objectiva, mesmo que esta fosse desagradável, fria, e desoladora. Para mim a realidade é um valor muito importante, pois na minha opinião a realidade tem valor em si mesma, mesmo que seja muito desagradável. Pois, para que a minha vida tenha sentido tem que ter do mesmo modo realidade. Sem realidade não posso ser feliz, apenas me iludo a mim próprio. Que serve ser rico, ter todas as facilidades, dominar o mundo, se souber que tudo isso não passa de “uma espécie de jogo de computador”?!


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