24/08/2009

Filosofar após Kierkegaard


a) Como filosofar após Kierkegaard?

Paul Ricoeur em “A Região dos Filósofos” apresenta um outro texto intitulado de “Filosofar após Kierkegaard”[1], onde se questiona como será a filosofia após Kierkegaard.

Ricoeur começa por lançar algumas questões: Kierkegaard pensador de protesto? Contra quê? Automaticamente respondemos contra o sistema, Hegel, o idealismo alemão. E que desperta este pensador? Somos convidados a responder – existencialismo.

No entanto, Ricoeur considera que é menos esclarecedor tomar o existencialismo como chave de leitura de Kierkegaard. Mas, entende-se que Kierkegaard é anti-hegeliano, pois, ele próprio o diz. É um pensador que transpõe uma experiência viva numa dialéctica aguda (rompida).

Normalmente concebe-se que Hegel pôs fim à filosofia. Então, Kierkegaard inaugura uma nova era de pensamento (pós-filosofia), pois, após Hegel algo diferente aparece. Mas, Ricoeur coloca a dúvida: quem termina com a filosofia? Considerando que é preciso libertar desse esquematismo e preconceito…

Assim, estamos preparados para responder à questão: como filosofar após Kierkegaard?

É de salientar que Kierkegaard não só argumenta, mas também elabora conceitos. Construindo sobre o próprio terreno da dialéctica hegeliana, uma anti-dialéctica feita por oposições não resolvidas (paradoxos).

Do mesmo modo, em Kierkegaard há algo que não pode ser dito sem um pano de fundo kantiano, assim, é necessário um retorno a Kant. É também importante referir que Fichte e Schelling influenciaram Kierkegaard. Então, os filósofos Kant, Fichte, e Schelling dão ao discurso kierkegaardiano a sua dimensão filosófica. Deste modo, Ricoeur defende que filosofar após Kierkegaard é, ao mesmo tempo, voltar atrás de Kierkegaard, na direcção da filosofia (de Kant, Fichte, e Schelling), libertando-a do jugo hegeliano… Mas, é também verdade que Kierkegaard não pode ser compreendido sem Hegel.

Kierkegaard considera que Hegel permanece no estádio ético, porque reduz o indivíduo ao geral, o pensador subjectivo ao pensamento objectivo impessoal; reduzindo, assim, o indivíduo ao geral. Kierkegaard, ao contrário de Hegel, volta à apologia do indivíduo, do particular, desse reconhecimento que fora esquecido.

Deste modo, é possível filosofar após Kierkegaard. Pois, a filosofia está sempre relacionada com a não-filosofia (ou seja, o lado irracional da experiência de Kierkegaard é fonte da filosofia). Do mesmo modo, Kierkegaard inaugura uma nova maneira de filosofar (crítica das possibilidades existênciais); apelo ao discurso sobre a existência. Por fim, a oposição entre indivíduo e sistema é um conflito totalmente diferente de uma alternativa diante da qual estaríamos condenados a escolher; pois, a questão da existência humana não significa a morte da linguagem e da lógica, mas requer um acréscimo de rigor e lucidez.


[1] Cf. RICOEUR, Paul – “Filosofar após Kierkegaard”. In: A Região dos Filósofos. São Paulo: Loyola, 1992, pp. 27-44.



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