25/08/2009

Étienne Gilson


clip_image001 Vida e Pensamento

clip_image003Étienne Gilson foi um filósofo francês; nasceu em Paris no ano de 1884, e faleceu em Cravant no ano de 1978. O seu método de investigação consiste em inserir um autor ou uma obra no seu contexto filosófico, social, político, e teológico e vai também descobrir a persistência do pensamento medieval na nascente filosofia moderna.

Gilson teve o mérito de modificar a postura do mundo académico em relação à Idade Média e, em particular, de permitir que os intelectuais católicos falassem de São Tomás sem corar. Gilson chegou às suas geniais reconstruções historiográficas graças à descoberta do “método realista”, colhido operativamente presente na gnosiologia tomista, onde o conhecer não tem prioridade sobre o ser, como quer o idealismo, mas é activado pelo ser, numa unidade vivida e experimentada do sujeito cognoscente e do objecto conhecido; o conhecer deixa-se condicionar, de modo consciente e inteligente, por parte do ser real.

Deve-se a Gilson, historiador da filosofia, a descoberta de um continente filosófico – o da história da filosofia medieval. Nos anos em que estudou na Sorbonne ainda estava disseminada a convicção positivista de que a história da filosofia, bem como a da ciência, dividia-se em duas épocas: a antiga e a moderna. Assim, havia entre os gregos e Descartes uma “noite intelectual”. No entanto, os estudos e investigação de Gilson levaram-no a descobrir que uma grande quantidade de noções e conclusões haviam passado de Tomás de Aquino para Descartes. Concomitantemente, deu-se conta de que muitas doutrinas escolásticas haviam sido emasculadas e passado sem solidez e eficácia à filosofia moderna.

Deste modo, apresentou-se a Gilson, com força, uma nova perspectiva histórica: havia existido um pensamento medieval autónomo, original, cujos personagens nada tinham a invejar, em certos aspectos, a Descartes. Advogou que a filosofia grega saiu da Idade Média diferentemente de como entrara e de que, longe de seguir aos gregos como se nada tivesse havido entre eles e ele, Descartes se seguira à Idade Média quase como se os gregos nunca tivessem existido. Pois, ocorrera uma profunda transformação na filosofia, devido à teologia cristã, e essa teologia não se limitara a conter alguma metafísica, mas produzira uma metafísica nova.

Apesar das muitas objecções, defendeu a tese da existência de uma “filosofia de São Tomás de Aquino”. No entanto, admitiu como fundamentalmente verdadeira a afirmação de que São Tomás é sobretudo um teólogo, mas isso permitiu-lhe adquirir outra convicção: a de que a noção de teologia não exclui a de filosofia. No seio da teologia, Gilson descobre, porém, uma filosofia própria de Tomás de Aquino, sendo conatural à teologia o recorrer contínua e livremente ao raciocínio filosófico. Gilson considera emblemática a seguinte declaração da “Soma contra Gentiles” (I, 9): “empenhar-nos-emos, antes de tudo, em manifestar aquela verdade que foi professada pela fé e é estudada pela razão, trazendo, ao mesmo tempo, raciocínios demonstrativos e raciocínios prováveis, alguns dos quais extraímos dos livros dos filósofos e dos santos, para que a verdade seja confirmada e o adversário convencido”.

A relação entre filosofia e teologia em Tomás de Aquino aparece como uma relação de distinção e de unidade; a filosofia é uma serva da teologia, mas não é uma serva que se queixe da patroa, nem que seja maltratada pela patroa: a filosofia deve permanecer racional para poder ser utilizada pela teologia, e a teologia deve continuar sendo ela mesma para poder utilizar a filosofia: através da filosofia, a teologia torna-se a ciência especulativa da fé.

clip_image001[1] A filosofia cristã

Insistindo na natureza da filosofia e da teologia, Gilson definiu um dos pontos nevrálgicos entre as duas disciplinas, o da teologia racional: em que relação estão as verdades sobre Deus, sobre a sua existência e sobre os seus atributos, contidas na revelação, e as verdades sobre Deus adquiridas através de demonstração filosófica? A resposta está contida sinteticamente na afirmação de Tomás de Aquino de que é impossível saber e crer a mesma coisa, simultaneamente e do mesmo ponto de vista; o que eu sei e o que eu creio nunca são exactamente uma coisa idêntica e nunca são conhecidos sob o mesmo aspecto. Não há demonstração filosófica possível da existência Jahvé, nem de Jesus Cristo, filho do Deus salvador. A escritura não revela a existência de um Deus, mas a do Deus verdadeiro, que se faz conhecer pessoalmente pelo homem para estabelecer com ele e com o seu povo um contrato cuja iniciativa só ele pode tomar e cujos termos só ele pode fixar. Com a filosofia, eu sei que existe um Deus, e obtenho um ganho no plano teológico, porque adquiro certa inteligência da fé; mas esse inteligência da fé permanece sempre o que é, ou seja, inteligência, e jamais se torna fé.

Gilson especificou o sentido da expressão “filosofia cristã” como aplicável aos sistemas filosóficos puramente racionais em seus princípios e métodos, cuja existência não se explicaria sem a existência da religião cristã; além disso, Gilson afirma que “uma filosofia aberta ao sobrenatural seria certamente uma filosofia compatível com o cristianismo, mas não seria uma filosofia cristã. Para que uma filosofia mereça realmente esse título, é preciso que o sobrenatural desça, como elemento constitutivo, não à sua trama, o que seria contraditório, mas à obra da sua constituição. Chamo, pois, filosofia cristã a toda a filosofia que, embora distinguindo formalmente as duas ordens, considere a revelação cristã como auxiliar indispensável da razão”.

Uma filosofia cristã assim entendida não só é possível, como também, para Gilson, é real: realizou-se historicamente na filosofia de São Tomás, como na de Santo Agostinho, São Boaventura, Duns Scotus. No diversificar-se das formas, o que une os filósofos cristão é a sua fé, a qual os coloca numa situação intrinsecamente diferente da dos filósofos não cristãos, porque a razão sabe aquilo cuja demonstração procura. O espírito da filosofia medieval é o da filosofia cristã; os mestres citados, embora tendo criado filosofias diferentes, estavam de acordo ao sustentar a verdade da revelação cristã recebida através da fé.

A encíclica “Aeterni Patris” (4 de Agosto de 1879) do papa Leão XIII distinguiu como típica expressão da filosofia cristã a filosofia tomista; Gilson concorda que o tomismo é um “philosophandi genus”, que usa a razão e ao mesmo tempo se recusa a privar-se da luz da fé; é uma filosofia que se põe ao serviço da revelação e dos seus fins, e tira daí vantagens e fecundidade.

No entanto, alguns autores, como Maurice Blondel, criticaram Gilson contestando-lhe do modo mais radical a possibilidade de decidir o problema da filosofia cristã no plano da história: o método de quem investiga afirmações comuns aos filósofos e aos crentes (por exemplo, a existência de Deus e a criação) leva a se esquecer de que a filosofia e fé têm perspectivas diferentes. Para Blondel, o cristianismo age sobre a filosofia obrigando-a a rever as suas próprias posições, ajudando-a a tomar consciência da sua insuficiência congénita, estrutural, com o notável resultado de fazer emergir uma existência de vida sobrenatural.

Apesar da críticas Gilson permaneceu sempre fiel à sua noção de filosofia cristã. A filosofia é cristã na medida em que o cristianismo a torna possível; é cristã a filosofia que aceita a acção reguladora do dogma cristão; a fé propõe soluções, de que a filosofia, em seguida, por vezes encontra a demonstração. A filosofia cristã permite uma certa compreensão da palavra de Deus, compreensão preciosa, mesmo na sua limitação. O filósofo cristão não renuncia à sua natureza racional e ganha incomparáveis profundidades.

clip_image001[2] Neo-tomismo

É a tentativa de fazer renascer o tomismo, o sistema filosófico de São Tomás de Aquino, no seio da modernidade. O neotomismo pretende manter, no fundamental, todas as características atribuídas à filosofia tomista, que considera representar o ponto mais elevado da escolástica medieval. Das teses tomistas destaca-se a tese mediadora da acesa problemática que ocupou a filosofia medieval, na tentativa de definir uma posição quanto ao problema do realismo e do nominalismo. A tese tomista inspirou-se em Aristóteles para defender que o género é real (realismo), mas que a substância primeira é o indivíduo (nominalismo), como individuação do género.

Os neotomistas pretendem que o pensamento de São Tomás foi o ponto culminante do saber filosófico e daí o apelo para a necessidade de a ele retornar.

O tomismo, após o seu período de ampla divulgação, na Idade Média, acabou por ir ficando no esquecimento durante a modernidade, até que o Papa Leão XIII faz uma exortação, na encíclica “Aeterni Patris”, em 4 de Agosto de 1879, em favor do regresso ao tomismo por parte dos católicos, dando assim o impulso necessário para que o movimento neotomista já iniciado em Itália se pudesse desenvolver. Há a destacar, como personagens fundamentais neste renascimento, ainda na primeira metade do século XIX, Buzzetti, depois Serafim e Domingos Sordi, Luís Taparelli d'Azeglio e Mateus Liberattore. Na Alemanha foi precursor do neotomismo o jesuíta G. Kleugten.

Na Universidade Católica de Lovaina, em 1889, constituiu-se o Instituto Superior de Filosofia, de inspiração tomista. Em Portugal, logo em 1879, após a encíclica de Leão XIII, teve início no Seminário de Coimbra uma cadeira de filosofia tomista. Depois, em 1880, fundou-se a Academia Conimbricense de Santo Tomás d'Aquino. Em 1896 deu-se início a outra cadeira de filosofia tomista.

O movimento neotomista caracteriza-se, em geral, pelo seu esforço de actualização constante e abertura aos novos problemas e novas interrogações vindas de todos os lados da filosofia.

 

Fontes consultadas:

Enciclopédia “Logos”

“Deus na filosofia do Século XX” / “Infopédia”



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