24/08/2009

Ética Sexual


Em ética sexual existem uma série de questões complexas, sobre as quais não poderemos dar uma mera solução completamente definitiva, pronta e dogmática. De modo a sondar outras sensibilidades de pensamento diferente do nosso sobre a “maravilha, errância e enigma” da sexualidade, como nos diz Ricoeur, decidimos questionar um especialista em bioética. Assim, falamos com Daniel Serrão sobre sexualidade, a questão das relações pré-matrimoniais, do casamento, entre outros… e da relação destas matérias com a Igreja.
Segue-se uma carta que Daniel Serrão me escreveu:
“Coloca-me uma questão difícil e que obrigaria a uma resposta muito extensa porque está em causa não apenas um caso concreto mas a sua inserção num certo universo cultural a que se chama a cultura exterior simbólica (Merlin Donald). Que é onde nós, os humanos racionais, efectivamente vivemos.
Tendo de ser sucinto direi o seguinte:
1. Na cultura actual, no nosso País e noutros países da chamada cultura europeia, a maior parte das pessoas que se apresentam à Igreja Católica para celebrarem o Matrimónio na presença de um sacerdote, tiveram já múltiplas relações sexuais quer entre si quer com outros "parceiros" (como se diz) ou "namorado(a)s" como refere a imprensa cor de rosa. O uso da pílula anti-concepcional eliminou o risco de uma gravidez não desejada nos coitos praticados. A prostituição masculina e feminina oferece as facilidades para que a prática do coito antes de qualquer projecto matrimonial, seja uma rotina, com  risco moderado de transmissão de doenças, em especial a SIDA.
Esta é a realidade. A relação sexual tornou-se uma banalidade; segundo inquéritos fidedignos, feitos nas Escolas Secundárias, a prática de manipulações sexuais com parceiro do mesmo sexo ou do sexo oposto, incluindo o coito com penetração começa pelos 14 anos e aos 17 é muito elevada; em média, nesta idade e dependendo da localização da Escola, vai de 70% a cerca de 90% nas escolas junto a bairros periféricos habitados por membros de etnia africana. Por isto a nossa taxa de gravidez em adolescentes é das mais elevadas da Europa.
2. A Igreja Católica e outras confissões religiosas e mesmo organizações laicas concluem que esta prática é prejudicial para os jovens (gravidez e DST) para as crianças quando nascem e para a possibilidade de no futuro virem a ser constituídas famílias com um mínimo de estabilidade para a geração e educação dos filhos.
Por isso propõem aos jovens a manutenção da virgindade até à decisão de constituírem um casal estável, com um projecto comum de parentalidade, apoiado num acordo  formal civil e/ou religioso. O que tem como consequência, pela ordem natural do impulso sexual, que esta vida em comum deve ser iniciada muito mais cedo do que é actualmente e com recurso ao planeamento familiar e à regulação da natalidade. Dada a dependência económica dos jovens, hoje até  muito tarde, em especial nas classes médias e altas, os Pais devem estar disponíveis para acolherem estes novos casais, ao menos em termos de habitação e alimentação (assim acontece na comunidade cigana onde as raparigas casam cedo, e virgens, e são apoiadas pela família, sendo frequente que três gerações vivam em conjunto e com uma economia solidária).
3. A questão que me coloca de os noivos, que estão decididos a celebrar um Sacramento de Matrimónio, perante um representante da Igreja Católica, poderem, 5 minutos antes de se apresentarem no templo realizarem um coito (na linguagem coloquial é designado por "uma rapidinha") não me parece substantiva.
O importante é se de facto desejam celebrar o Sacramento - são eles que o celebram, perante o Deus em que acreditam, não é o sacerdote - de acordo com a Fé Católica. A Fé católica não trata de coitos;  refere-se a uma relação íntima e pessoal com Deus. E os ditos noivos deverão celebrar a sua mútua promessa de amor e fidelidade, sentindo a presença de Deus nas suas auto-consciências. Se acharem que um bom e mútuo orgasmo é condição para que esta presença divina aconteça que o procurem. Mas será certamente raro.  A maior parte  dos que vivam na Fé, preferirá realizar a união dos corpos depois de ter prometido a união das pessoas, que ambos são; e pessoa é unidade substancial e indivisível do corpo, que conhecemos, e do espírito, que nele e por ele se realiza e aflora na auto-consciência (que é talvez o nome moderno para a antiga noção de espírito).
5. O que me preocupa é a total ignorância dos jovens sobre o componente genital da sexualidade. A informação da genitalidade é considerada, por muitos, como pornografia. E é de facto obtida por rapazes e, hoje, também pelas raparigas, em escritos e filmes pornográficos que descrevem  e apresentam performances genitais artificialmente montadas e que pouco têm a ver com a realidade dos coitos comuns. Os milhares de pessoas que estiveram, por exemplo, no Salão Erótico de Gondomar indicia essa busca de informação sobre os aspectos propriamente genitais da sexualidade. Também a genitalidade praticada no banco traseiro do carro nada tem a ver com os coitos que irão acontecer no casal casado.
Dar instrução sobre genitalidade nos seus aspectos anatómicos e funcionais é necessário, deve começar cedo (13-14 anos) e ser transmitida com naturalidade em ambiente sereno e confidencial (numa escola um professor achou que a melhor forma era despir um rapaz e uma rapariga para explicar a genitalidade, julgando que estava a fazer educação da sexualidade...) A instrução da genitalidade deve ser progressiva e feita ou pelos progenitores, se forem capazes de a fazer, ou por um médico ou enfermeira de preferência do mesmo sexo do aluno. A menstruação e a polução nocturna, como factos perturbadores do adolescente,  são a melhor porta para se iniciar a instrução do funcionamento e da anatomia dos órgãos genitais; dos próprios e dos do outro sexo. Sem necessidade de começar logo pelo ponto G... mas introduzindo a explicação do que é o orgasmo masculino e feminino. A naturalização da genitalidade atenua a curiosidade e dá aos órgãos genitais a sua verdadeira participação na sexualidade humana. Isto é fácil. O que é difícil é educar e preparar os jovens para a vivência do amor como doação mútua entre pessoas humanas, porque exige uma maturação psicológica que não começa a aparecer senão pelos 17 anos, tanto no rapaz como na rapariga.
6. Tudo isto, e muito mais que poderia dizer-lhe, está involucrado na sua pergunta; que por isso, não é uma pergunta banal. Poderá ler mais ideias nos meus escritos sobre este tema que encontrará em  http://www.danielserrao.com  introduzindo no motor de busca interno a palavra sexualidade.
Envio-lhe em anexo uma Conferência que fiz recentemente no Brasil e cujo conteúdo poderá integrar nesta resposta”.


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