24/08/2009

Ética Sexual (Continuação)


O professor Daniel Serrão escreveu-me outra carta onde continua o diálogo sobre algumas questões de sexualidade, ética, Igreja. Vale a pena ler…
«Caro "Correspondente" que acolho com muito gosto
Já pedi desculpa mas têm sido muitas as solicitações e não consegui tempo. Creia que me incomoda não ser pronto na resposta.
Vamos ao primeiro ponto
É claro que um casal paterno que não tem preocupação em que o filho(a) tenha vida sexual activa, com outro(a), em qualquer lugar, continuando a viver cada um na respectiva casa paterna, nem tem uma perspectiva de matrimónio como sacramento, não terá nenhuma disponibilidade para aceitar que casem e fiquem a viver algum tempo em sua casa (sejam pais dele ou pais dela). Aplicam-lhe a norma popular - quem casa quer casa - e vão fazer-lhe a vida negra até que eles saiam. A minha proposta (e conheço vários casos), refere-se a Pais que querem, de facto, ajudar os filhos e/ou filhas a casarem virgens no respeito por uma norma de disciplina religiosa católica a que querem ser fieis. E desejam pagar a sua parte, sem nenhum incómodo, antes com alegria. E que sabem respeitar a intimidade do novo casal "hospedado" transitoriamente em sua casa. E ajudando o casal a resolver o problema de casa própria alugada ou comprada a crédito. Vai dizer-me que é uma raridade. Será mas é para essa raridade que faço a minha proposta aos Pais que podem ter de ser preparados para construírem essa solução com amor. Num caso que conheci num curso de preparação para o matrimónio católico, a menina forçou o noivo a ter relações com ela para saber como era antes de casar; ficou grávida e os Pais do noivo apressaram o casamento e acolheram o casal até que o filho nasceu e eles acabaram os cursos e começaram a trabalhar mudando-se para poiso próprio. A alternativa era o abortamento ou a mãe solteira sem apoio da mãe e pai respectivos que atribuíam a responsabilidade da gravidez ao "noivo" porque o estereótipo é que são eles que as obrigam. Na minha experiência de aconselhamento, hoje é quase sempre o contrário e com a agravante de mentirem sobre o uso de pílula.
A parte final desta sua questão é muito interessante. A hipótese é de um par que faz um compromisso privado e numa entrega de pessoas e amor mútuo e fiel a Deus (tomando o cuidado de não ter filhos) passa a ter relações sexuais. É isto reprovável ou imoral por parte da Igreja?
A minha resposta é que se esse casal tem essas disposições (substituindo não ter filhos por planeamento responsável) está em condições de realizar um matrimónio católico; sem necessidade de passarem a viver juntos e podendo continuar a fazer a mesma vida que é a que possibilita a prática de uma mútua actividade sexual. A convicção de que o matrimónio católico obriga a que os casados vivam juntos, sob o mesmo tecto, é puramente social e não tem nada que ver com o sacramento. O matrimónio católico só obriga à fidelidade mútua "amar-te e respeitar-te" e nada diz sobre nenhuma obrigação de viverem na mesma casa. Podem até viver, temporariamente, em países diferentes por motivos de formação profissional ou outros (conheço casos). O problema é que o matrimónio católico transformou-se num espectáculo pagão onde a representação substituiu a verdade. E a fidelidade, antes e depois do matrimónio, é, à partida, uma farsa.
2. Relativamente ao divórcio a minha convicção é que quanto mais tardio for o casamento mais ameaçado está de terminar em divórcio. Os dois vão para o casamento e para a vida em comum, já com vidas pessoais diferentes e estruturadas separadamente durante dez ou mais anos de vida independente em casa dos Pais ou mesmo em casa própria quando têm condições financeiras para isso. E ambos, em regra, com experiências de ligações sexuais passageiras com outros "parceiros" e assumidas, por ambos os noivos, à partida, com isso mesmo: apenas genitalidade. Dificilmente este par vai conseguir construir um projecto comum que resista às dificuldades e conflitos. O primeiro desacordo sobre o sítio e a data das férias, abre a via para o processo simplex de separação. Ficando bons amigos e encontrando-se por vezes para fazerem sexo mas não para terem vida em comum. E isto já não é só nas classes altas, onde é a regra.
O que proponho para as "raras" famílias que querem "viver" como católicas e não apenas dizerem que "são" católicas, é um programa difícil e, em certos aspectos, heróico. Mas que pode ser proposto aos jovens e seduzir alguns: afirmarem e demonstrarem, pelo próprio exemplo, que o casamento fiel e para toda a vida, é a melhor resposta para as dificuldades de um homem e uma mulher viverem felizes toda uma vida. Apresentarem aos seus filhos o seu exemplo de vida, explicando que não tiveram que sofrer nem abdicar de nada para poderem viver uma vida feliz. Genitalidade plena, sexualidade realizada, amor permanente. Não precisaram de ir buscar fora do matrimónio o que tinham em casa.
Se um matrimónio católico não for exemplar, nem sequer para os próprios filhos, então não tem nada a fazer. Nem a Escola nem o Estado podem fazer nada. Se os Pais não podem viver e apresentar o seu matrimónio como um Sacramento, nada podem fazer pelos seus filhos.
Claro que o tempo de namoro é o tempo apropriado para se discutirem estas perspectivas de futuro. Se os namorados apenas estão interessados em saber se podem ter coito antes do casamento e a Igreja não se "chatear", é melhor nem pensarem em celebrar um sacramento.
3. Nesta matéria sou crítico. A relação sexual de homem e mulher é biologicamente e naturalmente ordenada para a procriação, porque a sua origem, no homem como em todos os animais gonocóricos, é a conservação da espécie. Portanto, segundo a lei natural, homens e mulheres devem praticar o coito quantas vezes forem precisas até que a fêmea fique grávida. A poligamia e a poliandria são "naturalmente" aceitáveis se forem indispensáveis para a manutenção da espécie. E como não sabemos o que se passa no resto do mundo, agimos no nosso meio. A fecundação das filhas de Lot pelo próprio Pai, após a destruição de uma sociedade homossexual, naturalmente infértil, foi por iniciativa delas e deu origem aos moabitas e aos amonitas. Preservou-se "a raça do nosso País" como disse a mais velha das duas filhas.
No momento actual invocar a lei natural não faz sentido para mim, em matéria sexual.
Não há métodos naturais. Toda a intromissão cultural na sexualidade é introduzir o artificial. Não é aceitável, na cultura moderna, imaginar que a fertilidade pode ser entregue, no ser humano, ao simples jogo das leis naturais. A fertilidade passou a ser um acontecimento cultural e, como tal, artificial, porque é o homem que cria a cultura e a cultura é artificial.
A separação entre coito e fecundidade, tornada possível pelo uso de uma anti-ovulação, é tão anti-natural como escolher, para o coito não procriativo, os dias seguramente inférteis da mulher, que só são conhecidos pela investigação científica. Quando os cônjuges, seleccionam estes dias para o coito estão, de facto, a separar o carácter unitivo e procriativo da relação sexual, do meu ponto de vista, como médico.
Penso que nenhuma religião aprendeu a lidar com este acontecimento formidável que é um homem e uma mulher se unirem sexualmente para terem prazer mútuo e gerarem filhos, por imposição biológica à qual o Homem, como ser inteligente, se pode opor, mas que não pode nunca eliminar.
Tal como comer é uma obrigação biológica, mas comer em excesso é gula, pecado (agora é síndrome metabólico...), a relação sexual é um impulso biológico, que os seres humanos são chamados biologicamente a cumprir, mas deve ser contido numa leitura cultural e humana.
As religiões deviam ter-se limitado a fixar as barreiras do abuso, do "pecado", e pouco mais.
Nas nações politicamente organizadas em Estados, o Direito encarregou-se dos aspectos particulares da relação homem/mulher, dos direitos filhos, da herança do património, etc., e é um papel que lhe cabe.
Às religiões deve competir, apenas, mostrar em que medida esta relação, de base biológica, pode ser integrada numa leitura transcendental da origem e destino do Homem.
Como dizia alguém, "não incomodemos Deus com assuntos de alcova".
Aqui tem um feixe de reflexões em fim de tarde de Sábado.
Fico à sua disposição para futuros debates.
Com os melhores cumprimentos
Daniel Serrão».


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