22/08/2009

Ética da Vida Familiar


A reflexão filosófica sobre a família é algo que aprecio bastante. Encontrei um livro muito interessante que nos pode ajudar a reflectir melhor eticamente sobre aquilo que considero ser a célula básica da sociedade. O livro que proponho intitula-se de “ETICA DE LA VIDA FAMILIAR: CLAVES PARA UNA CIUDADANIA COMUNITARIA” e é do filósofo DOMINGO MORATALLA, AGUSTIN. Deixo aqui algumas notas que considerei mais relevantes…
ETICA DE LA VIDA FAMILIAR
[Um milagre frágil, temperado pelo amor…]
[p. 59] um dos desafios mais importantes da vida familiar: a personalização do amor. É uma questão importante da ética familiar.
A personalização do amor está na raiz do namoro, matrimónio, das novas relações de parentesco, ou da vida sexual.
De que serviria o matrimónio como reconhecimento jurídico do casal se cada um dos cônjuges não teve a possibilidade de desenvolver-se como pessoa na medida em que se entrega ao outro? De que valeria o namoro como preparação e treino para a vida em casal se os namorados planeiam o seu projecto de casal como uma anulação dos projectos de vida pessoal, e não descobrem o valor de um projecto de vida em comum? De que vale o parentesco se na realidade é um conjunto de relações impostas? Para quê viver a sexualidade em casal se as experiencias de encontro, prazer e gozo nos embrutece fazendo-nos mais egoístas e menos sensíveis?
[p. 60] personalizar o amor é um processo de permanente construção de si mesmo, de descobrimento de si mesmo, de alargamento de si mesmo e de doação de si mesmo.
Esta relação de encontro com o outro, não descreve uma relação de propriedade, de possessão, ou de vinculação possessiva. Esta relação de amor apela à vida pessoal como um processo de doação, encontro, identificação, e descobrimento permanente.
A vida familiar é o espaço privilegiado para a personalização porque nela não se encontram um conjunto de corpos de indivíduos que repartem o tempo, o que se encontra são pessoas que aprendem a dar de sí.
A vida familiar é um espaço aonde podemos dar de si, é decidir, podemos fazer presentes como realmente somos compartilhando o tempo não como algo que temo mas sim como alguém que somos.
[p. 63] o amor da vida familiar é bem frágil, não se compra nem se vende. É um bem que transforma a família numa trama (net) de relações que tornam possível a liberdade pessoal, e gera assim uma rede para facilitar a integração comunitária.
À diferença de outro tecidos sociais, o tecido familiar é especialmente frágil e vulnerável, depende da qualidade e valor de amor com que ele se alimenta. Esta milagroso fragilidade faz com que a família seja a primeira escola de amor, o primeiro lugar educativo onde aprendemos a amor
“A família consiste em ser o ponto de articulação do público e do privado, em unir de certa forma de vida social a certa intimidade. Socializa o homem privado e interioriza os costumes…”.
[p.64] a função mediadora da família na personalização do amor não só a converte em rede (nó), na parte de um tecido ou na parte de uma rede social, a converte numa realidade permanentemente acondicionada.
A qualidade de vida familiar não aumenta quando se a pensa muito ou se organiza muito, está antes relacionada com a energia do amor que a põe em forma (acção), a acondiciona, a têmpera.
Desempenha a função de mediadora porque gera um espaço valioso de comunicação que não hipoteca ou condiciona a liberdade real das pessoas, mas sim a possibilita.
O milagre da vida familiar pauta qualquer pretensão de ordenar a vida social ou politica segundo o amor. A família é uma instituição que cultiva o amor, e por isso será sempre determinante quando se quiser organizar uma comunidade social e política com princípios de justiça e solidariedade.
[p. 65] a família é uma civilização do amor… civilização em duplo sentido:
1- a família civiliza, isto é, organiza segundo os usos sociais, as normas jurídicas e os princípios políticos na trama de relações da vida familiar. Ao civilizar proporciona um reconhecimento público e faz da instituição familiar a primeira, mais básica e originária de qualquer instituição cívica ou cívico-politica.
2- para descrever uma cultura da solidariedade e da justiça global não serão possível sem o protagonismo da família como espaço básico e original da construção pessoal.
» É necessário tomar a sério o amor conjugal.
O amor conjugal é a condição de possibilidade do amor familiar, sem a personalização do amor que se produz na família, seria tudo uma pura idealização.
O amor conjugal situa-nos antes da corporalidade como dimensão estrutural da nossa vida pessoal. E o grande perigo é acreditar que o amor conjugal se reduz ao desejo e ao amor entre os corpos, como se não fosse uma comunicação pessoal, como se o amor não gerasse um novo espaço de comunicação interpessoal.
[p. 66]
“Para construir um ética familiar é importante começar” a partir do namoro, prestando atenção à complexibilidade deste estado de alma que se mostra hiperactiva. Amar – baseado na projecção pessoal. Namoro – baseado na reciprocidade.
É necessário não banalizar o amor conjugal. (Carlos Días) apresenta uma tríade dialéctica de (encantamento – desencantamento – reencantamento) do casal (namorados)
O valor que a sociedade reconhece ao casal através do matrimónio ou a igreja que concede este ultimo como sacramento, procede do valor de uma dinâmica complexa onde intervêm tanto o desejo e a paixão, como o amor e a atenção.
(Romano Guardini) – Fases no amor:
1- Encantamento. Do outro só se vê o que se deseja ver nele, sobrevalorizam-se as suas possibilidades, modela-se a realidade conforme os próprios desejos. É a fase mais erótica da vida em namoro, uma fase de desejo intenso onde se produziu uma idealização do outro. Dá-se uma entrega por encantamento.
[p. 67] O amante está absorvido pela atracção do amado, existe atracção sexual e paixão, mas não existe aceitação do outro como tal, não há tranquilidade no reconhecimento do que o amado é; mas sim vontade de que seja como o amante quer.
2- Desencantamento. Então, o amante descobre que o amado não é um ser tão excepcional como se imaginara, mas sim uma pessoa com a qual não deve somente conviver, mas sim coexistir e sobreviver. As excelências que se foram descobrindo na época do encantamento se transformam em normalidades e rotinas. Se o amor conjugal se reduzir a esta fase de pura frustração e desencantamento nunca seria possível nem o matrimónio nem a vida familiar. Podem aparecer os sentimentos de decepção, frustração, amargura, tédio e irritação quando o amante sabe de memoria o que o amado pode decidir ou fazer.
O amor conjugal não se mantém quando o amante e o amado estão desencantados, quando perderam a capacidade de entrega interpessoal. O amor conjugal tampouco se pode reduzir ao rotineiro cuidado mútuo ou simplesmente ao “carinho”; nesse caso se reduziria à mútua simpatia, à relação de fidelidade ou de adesão, mas não à entrega pessoal.
3- Reencantamento. Nós tomamos a serio o amor conjugal quando conciliamos a entrega com o encantamento, isto é, quando se chega a produzir o encantamento pela entrega e doação de si. Isto exige aceitação e reconhecimento sincero do outro, não a sua idealização nem o seu desprezo. O outro é como é, e não como nós gostaríamos que ele fosse. E o que é mais importante, é o facto do amante como o amado são, aparecendo progressivamente na entrega diária. A aceitação do outro enquanto outro.
[p. 68] o amor conjugal não é fruto do entusiasmo e heroísmo, mas sim resultado da paciência, perseverança, e de tenacidade.
Quando existe reencantamento, o amado não só se entrega ao amado, mas também compartilha a sua entrega com o mundo do amado, criam um mundo conjunto unido numa dedicação recíproca do seu encantamento.
A vida matrimonial e familiar será o resultado deste novo mundo criado e compartilhado, de uma história compartilhada aonde o amor conjugal é muito mais que o erotismo conjugal, aonde a fidelidade conjugal supera a emoção amorosa, aonde a entrega realizada supera a fantasia.
O grande perigo da vida matrimonial é reduzir o amor conjugal à rotina, aos costumes, ao simples cuidado condicionado sem fantasia, sem ilusão, sem surpresa, em suma: sem erotismo, graça e encantamento.
Para que se produza este encantamento é necessário ver a verdade da outra pessoa, isto é, crer nela, ter confiança nela baseada na inteligência…
[p. 69] quando se fala de amor tem que se ter em atenção o carácter único e insubstituível do outro, e como o encontro com o outro é um processo de desvelamento e revelamento pessoal.
[p. 71] tomar a sério o amor conjugal exige-nos não reduzir o amor a um puro sentimento, nem a vida familiar a entrega sem entusiasmo. A intima união de duas pessoas, a sua inseparabilidade e entrelaçamento de trajectórias é conciliável com a persistência da personalidade de cada um.
O amor conjugal funda uma aliança entre pessoas mediante as quais têm a possibilidade de realizar a sua vocação como tal. A aliança entre o casal expressa uma estrutura dativa e generosa de ser pessoa, expressa uma forma de ser pessoa que a partir da entrega de si mesmo (como entrega desinteressada) não se perde nada, mas sim ganha-se.
A família é uma comunidade e unidade baseada na entrega mútua.
A instituição do matrimónio é um resultado interior do amor conjugal.
[p. 79] “Amor, ergo sum”. Sou amado, logo existo. Amar o outro é dizer-lhe: “tu não morrerás”. “amor, ergo sum” pode ser o princípio que pode reger a ética da vida familiar.
[p. 81] construir uma “civilização do amor”. Com a humanização do mundo contribuímos para a personalização do amor criando uma “cultura do amor”.
A família está organisticamente unida a esta civilização do amor. A família é o centro e o coração da civilização do amor.
[p. 82] diante de uma situação cultural adversa, uma ética da vida familiar tem que resistir a preservar o valor da família – a liberdade e o amor mesmo.
Civilização do amor evoca alegria porque os esposos podem chegar a ser pais, por um ser humano vir ao mundo, porque pode acontecer a verdade da vida.
Civilização do amor significa alegrar-se com a verdade e resistir a uma mentalidade consumista e anti-natalista…
Mesmo sendo a família vulnerável, mesmo que seja composta por um tecido frágil, ela é o princípio e o fundamento de uma civilização do amor (pela particular proximidade e intensidade dos vínculos que se instauram nela entre as pessoas e as gerações). Para ela é necessário um amor exigente baseado na entrega e na liberdade.
Na família é onde encontramos a base da civilização do amor, construída com os membros do personalismo, e não do individualismo, porque a ética personalista é altruísta, move a pessoa a entregarem-se aos demais e a encontrar “gozo” neles.
[ Família e educação na sociedade da informação ]
[p. 88] o poder de alguns artefactos tecnológicos, que estão por todas as partes e ao alcance de todas as idades (televisão, internet, videoconsola, telemóvel, etc…), alteram radicalmente as aprendizagens e dificultam qualquer horizonte educativo coerente.
O caso da televisão é paradigmático porque modifica a relação entre uma cultura do ver e uma cultura do entender, uma cultura da imagem e uma cultura da leitura. Está a dar-se um processo de transformação do “homo sapiens” para “homo videns”.
[p. 92] para uma ética da vida familiar a casa não é um simples espaço de sobrevivência face ao mundo exterior, ou de coexistência para reafirmar a própria individualidade; mas sim espaço para a convivência.
[p. 93]habitar um lugar é muito mais que dispor do espaço físico que torna possível a convivência, é pois dispor de um tempo significativo que se compartilha, um tempo entrelaçado por relatos, narrações, ou historias compartilhadas. A vida familiar tem muito de narrativa no sentido de pertinência e participação num projecto em comum.
[p. 94] as crises familiares podem-se dever a estilos de vida baseados em projectos individuais, na cultura do ter, do aparentar, do acumular de maneira incessante as ultimas tendências do consumo familiar.
Problema da educação
[p. 95] uma ética familiar tem que ser, antes de tudo, uma ética presidida pelo imperativo cuidado. Isto, é prestar mais atenção ao que se passa em casa, e começar a habita-la de verdade. Poderá existir uma quantidade de oportunidades que perdemos todos os dias para cuidarmos mais uns dos outros.
Um descuido com que progressivamente nos vai empobrecer, porque perdemos a sensibilidade para colocarmo-nos no lugar do outro, para termos projectos com aqueles com quem habitamos.
Esta ética do cuidado refere-se a um cuidado responsável baseado no conhecimento e amor que nos faz a cada um singulares. (não é um cuidado paternalista).
[p. 96] A educação baseia-se no cuidado responsável, isto é, cuidar é atender o outro, ter compaixão do outro, viver o que ele está vivendo, participar psicológica, anímica ou moralmente no seu mesmo estado de ânimo. Se os pais estão obsessiva e compulsivamente em cima dos seus filhos não os estão a cuidar, mas antes os sobreprotegem e dificultam o seu crescimento. Aprender a colocarmo-nos no lugar dos nossos filhos e ajuda-los para que se ponham em nosso lugar é o primeiro passo para um cuidado não paternalista.
Cuidar é ajudar o outro a realizar o que não pode fazer sozinho, ajudá-lo a ser autónomo, a que tenha a sua própria vida. Para ajudar é necessário proporcionar ao outro instrumentos, recursos, oportunidades.
Cuidar é convidar o outro a que reconheça a sua vulnerabilidade e se deixe ser ajudado. O cuidado responsável é educar para uma responsabilidade que se compartilha, para a corresponsabilidade.
Cuidar é velar pelo bem do outro, converter o outro no centro de gravidade da nossa vida. Na vida em família o cuidado responsável exige sempre desvelar-se uns pelos outros, descentramento, despossessão, e entrega. Nos processos de formação familiar e construção educativa existe sempre um momento de entrega, de desvelo, e uma maior preocupação para com as necessidades do outro do que com as do próprio.
[p. 98] cuidar é acompanhar o outro sem necessidade de indicar-lhe ou determina-lhe o caminho que deve seguir.
[p.99] o cuidado responsável é uma forma de cuidado pelo qual salvamos o outro da uma solidão não desejada. Na sociedade da informação, as comunicações vão reduzindo as distâncias entre as pessoas, mas por vezes têm descuidado o conhecimento da pessoa em si mesmo. Uma pessoa pode ter muitos meios para comunicar-se com os outros, mas pode desconhecer como poderá conhecer-se melhor a si mesmo. Uma ética do cuidado nos exigiria unicamente salvar o outro da solidão do abandono, da depressão.
Existe duas formas de solidão, uma desejada, outra impingida. O cuidado responsável nos exige atender e promover o valor da solidão desejada como caminho de autoconhecimento, encontro com sigo mesmo, e possibilidade de encontrar diálogos interiores que fortaleçam o crescimento ou maturação pessoal.
A responsabilidade do cuidado não só permite manter as distancias entre quem som objecto de cuidado e o sujeito que os cuidam. A responsabilidade funda e constrói uma realidade familiar e educativa nova na qual nem se confundem nem se dissolvem as pessoas, é a realidade de um nós que nos permite falar da família como instituição comunitária e não como simples associação de indivíduos.
[ Cultura familiar para uma nova sociedade civil ]
[p.120] “Nós” – qualquer “nós” que pronunciemos ou de que dele nos sentimos parte, é mais artificial e convencional que o “nós” originário da relação familiar.
[p.121] pode-se falar de um “nós” como construção artificial, fictícia, como resultando de um pacto, contrato ou acordo de interesses individuais.
Nas sociedades modernas e em culturas que têm uma atomização ou individualização da família, o “nós” não deixa de ser um conjunto de interesses, ou convenções, sendo um simples contrato.
O relativismo na cultura familiar é uma consequência do relativismo moral em que não se põem em questão os seus estilos de vida, de quem se conforma com a sua própria felicidade e bem-estar, de quem tem medo de buscar uma verdade comum que veja mais além dos seus próprios interesses.
o “nós” básico e original é um bem publico. Se o reduzirmos ao somatório de interesses ou contratos, quando não existe verdadeiramente amor e um “nós” original, a vida familiar não durará para sempre (só durará enquanto os interesses se mantiverem), e poderão surgir vários problemas como: menores sem estabilidade emocional e psicológica porque não crescem numa família normal, menores que podem abandonados e desprotegidos à sua sorte, casos de violência (abusos, agressões, maltratos) contra algum membro da família, casos que podem originar solidão e por conseguinte refugio no álcool, drogas, … Quando existem estes problemas graves de desmoramento familiar, é fácil constatar um “nós” que nunca foi verdadeiramente “nós”, mas sim um “nós” fragmentado, roto, em estado de podridão.
[p.122] Mas, o “nós” básico expressa uma aliança originária (não material) a manter durante toda a vida, tanto biológica como biográfica.
Se reduzirmos a vida familiar unicamente às suas categorias civis e contratuais não teríamos de qualquer forma uma cultura familiar, existiria apenas direito familiar.
Existe uma cultura familiar quando o “nós” básico abarca todas as suas dimensões e toda a sua riqueza, todas as suas possibilidades e todos os seus limites, (quando também vê o seu valor jurídico, e faz presente no espaço publico o seu valor expressivo).
Na cultura familiar podemos descobrir, assim, o valor da reciprocidade, da doação mútua como características imprescindíveis para entender a vida familiar. Elas são as que alimentam a ética da vida familiar e fazem com que a cultura familiar tenha vida, são as que utilizando uma terminologia desportiva, põem a família em forma.
[p. 123-130]
A vida familiar como fonte de reconhecimento moral.
A vida familiar tem que assumir um protagonismo que a corresponde como sujeito social diante o paradigma cultural…
A família é…
…espaço de identidade e identificação – a família é fonte de reconhecimento porque é espaço em que não só começamos a conhecer a realidade, mas também por ser um espaço em que começamos a descobrir a nossa própria identidade.
…espaço de doação mutua e reciprocidade – a família é fonte de reconhecimento porque descobrimos que não somos únicos no mundo, que a nossa identidade aparece nas relações de doação mútua e de reciprocidade. Reconhecer-se na família não é somente conhecer-se a si mesmo, mas sim descobrir-se diante do outro, com o outro e através do outro.
…espaço de diferenciação – a família é fonte de reconhecimento porque nela nos singularizamos, nos diferenciamos, e começamos a descobrir o que é mais próprio de cada um. A diferenciação familiar não é um processo de separação ou ruptura para romper uma relação de doação mútua e igualdade. Na vida familiar descobrimos que a única igualdade que respeita o valor das pessoas e a sua singularidade é uma igualdade completa que respeita as pessoas como são.
…espaço de desenvolvimento pessoal. A família é fonte de reconhecimento porque a singularização e a personalização são processos de desenvolvimento, de selecção e assimilação de possibilidades que modulam a nossa capacidade de trabalhar e de relacionar com o mundo.
…espaço de doação e gratuidade. A família é fonte de reconhecimento porque nela aprendemos o valor da doação e da gratuidade. A família pode ser espaço para a troca de muitas coisas, mas basicamente é espaço para o dom, e o primeiro dom é o da nossa vida biológica. Não há reconhecimento se não existe aceitação da nossa própria vida como dom e como presença relacional. Somos verdadeiramente reconhecidos na família, não pelo que temos ou fazemos, mas sim por aquilo que somos. O reconhecimento implica no amor familiar um valor de gratuidade, de surpresa, de mistério, incluindo de diferenciação e dissimetria.
…espaço para a justiça e para a verdade. A família é fonte de reconhecimento porque nela não só aprendemos as relações de doação mútua e reciprocidade, mas também relações de justiça. A família gera o espaço moral aonde aparece “o terceiro em questão”. Ricoeur utiliza “o tema do terceiro” para enquadrar o horizonte da doação mútua e do reconhecimento quando falamos de uma distribuição justa. O filho é um terceiro para o casal, os pais são um terceiro para os irmãos, o outro a que nos referimos não é um simples “outro como eu” ou um “outro igual a mim”, mas é um outro diferente de mim, distinto de mim, é “outro eu”, a alteridade não é igualdade mas sim diferença radical, exterioridade que se nos faz presente. Existe cultura familiar quando o casal está aberto diante da possibilidade do terceiro que é o filho, quando os irmãos estão abertos diante da possibilidade da chegada de um novo membro à família, quando se acolhe qualquer um que chega independente da sua condição, e que se o acolhe como se esse terceiro fosse um mais (na sua alteridade e diferença radical). Uma ética familiar também é uma ética para a aprendizagem da distância justa.
[p. 131] Um dos problemas mais importantes na cultura familiar é a conciliação entre a vida familiar e a vida laboral.
O movimento feminista e o reconhecimento pelos direitos da mulher têm denunciado que é injusto, não solidário, e imoral que as mulheres tenham um dia de trabalho laboral duplicado porque trabalham numa empresa e em casa.
O facto de o casal trabalhar por igual fora de casa transformou totalmente os estilos da criança, não só porque o modelo paternalista começa a ruir, mas porque situa a vida familiar diante novos desafios.
Existe mais liberdade na vida familiar, mas também existe mais responsabilidade. Passa-se menos tempo com os filhos, mas quando se está com eles quer-se viver intensamente. Valoriza-se mais o tempo que a família no seu todo passa em casa, e lamenta-se que esta pareça mais com um centro de serviços do que de uma comunidade de identificação.
[p. 132] A vida familiar reduz-se a um centro de serviços familiares quando o universo familiar se reduz à distribuição de tarefas e funções, de obrigações e responsabilidades, para que o lugar onde se viva não falte nada. Neste caso, a educação com os filhos reduz-se ao reconhecimento de um conjunto de obrigações compartilhadas que todos assumem para que a casa funcione. Isto converte a vida familiar num conjunto articulado e mecânico de funções, porque não existe tempo para uma vida de encontro.
[p. 133] Mas, o significado e o valor do tempo vivido familiarmente leva-nos a uma cultura familiar diferente aonde a família não só funciona como centro de serviços, mas sobretudo como comunidade de identificação. Neste caso, a cultura familiar plasma-se de “hábitos do coração”.
[p. 138-139] As maiores dificuldades para construir uma cultura familiar procedem do mundo laboral. Infelizmente, hoje é difícil encontrar uma cultura empresarial, administrativa ou laboral que facilite a integração das responsabilidades laborais com as responsabilidades familiares. É difícil porque as novas formas em que se desenrola o capitalismo afecta directamente a vida das pessoas e as suas famílias.
(Richael Sennett) “um regime económico que não proporciona aos seres humanos nenhuma razão profunda para se cuidarem entre si, não pode preservar por muito tempo a sua legitimidade”.
» A experiência bíblica da cultura familiar.
[p.144] A Bíblia não esconde os elementos negativos e as crises que se dão em muitas famílias. Na genealogia de Jesus encontramos um grande número de casais que passam por um grande número de dificuldades e incompreensões. Mesmo na própria família de Jesus não faltam momentos de crise (Cf. Mt 2).
Se a bíblica conta a história destas famílias talvez seja para nos ensinar que a vida em casal, em família, é uma vivencia também árdua; e que talvez sejam poucas as pessoas que conseguem vive-la sem dificuldades, que podem ser dramáticas e provocar rupturas, separações tanto visíveis como invisíveis. A cultura familiar da Bíblia não nos apresenta um cenário de convivência paradisíaco. Mas, a partir de um cenário realista se constrói o ideal do matrimónio e das relações cristãs do casal.
[p. 145] Os narradores dos textos bíblicos sabem que a vida familiar é árdua, e por conseguinte querem ajudar-nos com exemplos de famílias difíceis, mediantes as quais nos sugerem ajudas e estímulos com vista ao ideal que propõe o matrimónio cristão.
[p. 146] Na experiência bíblica, as crises podem ser interpretadas como probas para possibilitar o crescimento e a maturação da vida familiar. As situações de crises podem ser interpretadas como provas. Estas não são simplesmente um problema, mas podem ser oportunidades para o desenvolvimento conjunto de cada membro da unidade familiar, para que em cada um emerja o melhor de si mesmo.
[p. 147] Valor importante do diálogo para fazer face às crises. Se aprendemos a discernir e a sarar os conflitos na família, teremos também visão e capacidade para ver e ultrapassar dia a dia os pequenos ou grandes conflitos pessoais e sociais que aparecem. Todas as leis da paz têm algo em comum…
Familiaris Consortio (JP 2) – horizonte realista e contraditório de um tempo com luzes e sombras. (paragrafo 6, 47, 48).
[ Política familiar como fonte de justiça e capital social democrático ]
[p. 156] O mito do pluralismo e da diversidade de modelos…
A intenção de incluir todo o tipo de pessoas unidas por vontade de conviver juntas, não tendo em conta a natureza do vínculo, transforma a política familiar numa variante da política social ou associativa, como se a protecção da família fosse equiparada à protecção de qualquer outro agrupamento de pessoas com a simples finalidade de conviver juntas.
[p. 157] Uma política familiar não pode reduzir-se a promover equiparações e atender unicamente à natureza contratual da vida familiar, deve atender também à natureza biológica, afectiva, emocional, e educativa que aparecem quando existe algo mais que um contrato.
[p. 163] Quando se produz a diferença de valorização entre a família como contrato matrimonial ou unidade de consumo, e a família como comunidade de vida onde intervêm elementos expressivos, emocionais, cognitivos e culturais, então dá-se um dilema na política familiar. Dilema que consiste em construir uma política familiar que por um lado cuida da família como contrato de interesses, unidade de consumo ou agência de socialização e que, por outro, descuida a família como comunidade de vida sentimental, afectiva, reflexiva e cultural.
Os meios de comunicação têm grande influência, pois quando se fala de vida familiar tendem a apresentá-la unicamente como unidade económica ou educativa, e não como comunidade que compartilha, expressa, valoriza e reconstrói a sua identidade na unidade mais básica do tecido social.
Apresenta-se a vida familiar de maneira incompleta, superficial e ligeira. Na TV valores como estabilidade, fidelidade, sacrifício, doação mútua, e a felicidade compartilhada não ocupam muito tempo nas programações.
[170] Família – valor que tem como instituição – porque não é um agrupamento ocasional económico, fiscal, social, ou educativo, mas é essencialmente uma comunidade moral com vontade de permanência no tempo que promove, facilita e articula tanto o reconhecimento mútuo como a doação e identificação recíproca.
[171] …existe propostas para reconhecerem e ampararem uma pluralidade de forma de convivência sobre o nome de famílias.
Afirmar que família pode ser uma pluralidade de formas de convivência (até mesmo entre pessoas do mesmo sexo) parece-me ousado.
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Cf. DOMINGO, Agustín – Ética de la vida Familiar. Bilbao: Editorial Desclée Brouwer, 2006.
(A tradução livre de alguns excertos do espanhol para o português foi realizada por nós).

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