17/08/2009

Entrevista ao pintor Américo Carneiro



Américo Carneiro considera que só pode pintar ou desenhar um tema quando ele já faz parte de si. Ou seja, só pode pintar algo pelo qual se encantou porque encontrou um eco nela, ou por qualquer razão ela já estava a construir-se dentro de si. Assim, este pintor reconhece que só pode pintar uma expressão, um olhar, um ser, porque ele já estava dentro de se próprio. Do mesmo modo, Américo Carneiro concebe que o “artista é aquele que é o porta-voz dessa pequena ou grande comunidade, é um porta-voz do tempo que vive, é um porta-voz da sociedade em que está integrado e onde deve procurar estar profundamente integrado nessa sociedade, e deve preocupar-se em ser um porta-voz; não é tanto um estandarte, mas um porta-voz dessa pequena ou grande sociedade”.


Como surgiu o seu interesse para pintar?
É difícil… é difícil marcar um momento no espaço e no tempo em relação a essa questão. Porque desde que me recordo, recordo-me sempre da minha grande vontade de me exprimir plasticamente. Mas, recordo-me de um certo aniversário por volta dos 4, 5 anos que me ofereceram um magnífico material de pintura (aguarelas, blocos, coisas maravilhosas) e partir daí comecei a trabalhar na pintura até hoje, já vou nos 52 anos. Foi assim que começou o meu interesse com a oferta de material bom.

Teve educação artística? Pintores na família? Foi educado familiarmente ou academicamente?
Tive educação artística na família e na escola, em termos gerais, globais. Praticamente, sou um auto-didacta. Estou na arte, mas vim da licenciatura em direito. Sou um auto-didacta muito assumido.

A cada quadro corresponde uma ideia?
Sempre. Corresponde sempre a uma ideia. A todos os níveis. A nível de escolha do tema, de composição, escolha de material, e escolha (porque não) do discurso. Eu há tempos ouvi o pintor Júlio Resende dizer uma coisa admirável. Dizia ele: “Eu pinto porque quero produzir alimento para o espírito”. Eu também admirei profundamente, e arrepiou-me a afirmação do grande génio que é Resende. E arrepiou-me porque senti-me totalmente revisto e totalmente solidário com essa ideia. Penso que cada obra por mais pequena, por mais simples, modesta que ela seja será sempre um pequeno alimento para o espírito.

Quais são os seus mestres na arte?
Desde logo, Claud Monet - a liberdade de expressão, o trabalho quase automático, o gesto completamente selvático, o instinto a solta, a evasão do gosto e do gozo da cor, a experimentação cromática, tem tudo. Mas todos os grandes mestres e até mestres menores mas que muitas vezes sendo ilustres desconhecidos conseguiram grandes conquistas em termos experimentais, em termos de uso, e uso fruto de determinados materiais. Sou uma pessoa aberta a todas as influências. Agora, essas influencias têm de me servir a mim, eu não posso deixar-me influenciar por capelas, escolas, mesmo em termos ideológicos, porque a ideologia tem de estar muito presente na arte. A minha defesa foi sempre a defesa intransigente da minha independência, e essa independência passa rigorosamente pela asserção quase fundamentalista do conceito, isto é, tem que ser independente de influencias de bandeiras de, de capelas, de influencias, ou pelo menos tem de tentar ser, e tento trabalhar assim. Agora não há duvida nenhuma, há esse grande génio que foi Claud Monet que me influenciou cabalmente no trabalho, na técnica na revolução que propôs e que consegui levar a cabo, e até em método de trabalho, porque era um homem fabuloso levantava-se as cinco da manhã, levava a família toda que tinha em casa, os amigos (ele tinha vários amigos que inclusivamente tinham caído na ruína) e levava toda a gente e chegou a ter grupos de trinta ou trinta e cinco pessoas que o acompanhavam na aventuras a procura da luz, dos efeitos cromáticos desde o nascer do sol no meio do campo, no meio da neve no meio do orvalho, foi um homem que comprou uma casa com um jardim belíssimo só para poder pinta-la, e eu admiro imenso essa postura, que é também uma postura filosófica.

Qual foi a obra que mais gostou de pintar? Qual a temática que mais gostou de pintar?
Há muitas, mas algumas de cariz religiosos e que exigiram mas de mim, por exemplo o Cristo, que comecei a pensar há vários anos, comecei a pensa-lo em 1986 e comecei a executar em 1997 e estou prestes a termina-lo. É uma tela grande. O Cristo que me serviu de modelo, é um Cristo pintado há vários séculos pelo frangélico, um Cristo que está a desaparecer que ele chamou “il cristro driso” é um Cristo derrubado, um Cristo com um véu sobre os olhos, com uma coroa de espinhos, com uma ar profundamente sereno, pacífico e que está a ser agredido de todas as maneiras possíveis e imaginárias. Só que está ser agredido pura e simplesmente fisicamente, à alma não lhe chegam, daí aquela expressão de um enlevo, de um perdão de uma paz de um amor tão imenso que me está a encher de orgulho, além do mais uma tela que está ser pintada ao longo de dez anos, é realmente uma tela que me está a encher de um orgulho muito profundo, de uma grande felicidade até. Aponto esta, mas podia apontar outras que estou a trabalhar há vários anos, mas sobretudo essa. É o Cristo derrubado que curiosamente é um Cristo bem elevado.

Quando pinta inspira-se numa temática, num objecto exterior a si, ou é puro exercício de intelecção?
Dizia um mestre pintor chinês do século XVI, “o homem pinta arvore quando já tem a árvore dentro de si” portanto eu só posso pintar ou desenhar um tema quando ele já faz parte de mim. Eu compreendo perfeitamente as palavras do grande mestre chinês. Eu só posso pintar essa árvore que me encantou porque encontrei um eco nela, ou por qualquer razão ela já estava a construir-se dentro de mim. Eu só posso pintar aquela expressão, aquele olhar, aquele ser, porque ele já estava dentro de mim, e eu o reencontrei, ou estou a conhecer, ou estou a aprofundar, o meu amor por ela ou por ele, portanto, qualquer tema serve desde que ele ecoe dentro de mim. Isto o não é snobismo, mas é real.

Que reacções a sua obra pode despertar nas pessoas?
Tenho encontrado várias, confesso que esse um aspecto que me fascina dentro da minha obra, porque são várias as temáticas dentro da minha obra. Eu pratico desde a heráldica até ao desenho de cariz etnográfico, pratico uma forma de pintura que raia o surrealismo, porque me permite uma grande liberdade de expressão e de independência, pratico também com grande amor e com grande entrega a pintura paisagística. É uma grande paixão. Curiosamente, a reacção que mais me entristece, tem sido a reacção que eu menos tenho vindo a encontrar nos últimos anos. É a reacção de indiferença. Nunca encontrei ninguém irado, colérico, revoltado com a minha obra, tenho encontrado alguma indiferença aqui e além, ao longo dos anos. E isso é o que mais me magoa. Eu preferia que me agredissem, como fizeram com o Amadeu de Sousa Cardoso no porto, foi agredido e foi levado para o hospital. Eu preferia que me agredissem e que me dessem uma grande tareia, do que expressassem indiferença, porque a indiferença é uma coisa muito fria, cruel, magoa-me. Alguma reacção de inveja, lisonjeia-me. Alguma reacção de desprezo, compreendo perfeitamente e respeito perfeitamente e até paradoxalmente as vezes até agradeço. Daí para cima tenho encontrado muita adesão, muita solidariedade e até mesmo muita exaltação com algumas obras minhas. Tenho sentido que tenho levado algum alimento espiritual e alguma felicidade através das cores ou das formas às pessoas e isso dá-me uma grande alegria. Mas o que mais me assusta como ser humano é a indiferença, que é fria, desprezível, é má. Estou a falar da questão do desprezo não só em meu nome, mas em nome de muita gente que pinta, que está na arte de uma forma ou de outra, e que poderia estar a dizer exactamente a mesma coisa que eu agora te estou a dizer. Mas não que dizer que tenho encontrado muita, até pelo contrário, tenho encontrado muito pouco. Daí para cima, tenho encontrado realmente tudo aquilo que me tem dado muita força para continuar, e tenho encontrado muito amor, solidariedade e demonstração de alegria e felicidade nas pessoas que é uma coisa fabulosa.

O que pretende transmitir com a sua obra?
Pretendo transmitir a vida tal como a vivo. Eu não concebo o artista fora da sociedade, em termos teóricos um artista é sempre um ser (homem ou mulher) que vive numa sociedade, nem que seja numa sociedade de cinco. Portanto o que é o artista? O artista é aquele que é o porta-voz dessa pequena ou grande comunidade, é um porta-voz do tempo que vive, é um porta-voz da sociedade em que está integrado e onde deve procurar estar profundamente integrado nessa sociedade, e deve preocupar-se em ser um porta-voz, não é tanto um estandarte, um porta-voz dessa pequena ou grande sociedade; mas deve também faze-lo com honestidade que o levará a transmitir a interpretação da vida, a interpretação de si próprio, a interpretação dos outros, a interpretação do mundo que o rodeia, isto é, a arte é uma posição política na medida em que o artista toma a posição de porta-voz, mas é também um exercício de crescimento de conhecimento, a arte é um exercício de conhecimento das coisas, dos fenómenos das pessoas, dos sentimentos e das coisas. Portanto, o que é que o artista deve fazer? Deve ser um porta-voz, deve expressar correcta e honestamente (e isso é o que conta em arte), a vida que flúi através de si.

Em que corrente se insere?
Eu admiro a obra dos grandes surrealistas portugueses, eu poderia dizer-lhe por exemplo o Mário Cesariny de Vasconcelos em todas as suas vertentes como polemista, como conferencista, mas sobretudo como poeta e até como pintor, principalmente até como pintor. Há um surrealista português que me marcou profundamente que eu ainda hoje venero quase, Cruzeiro Seixas, há um ilustre desconhecido António Lisboa que morreu muito precocemente com cerca de 30 anos que foi um grande surrealista no campo do desenho e no campo da poesia. Curiosamente tenho uma grande admiração por todos os surrealistas portugueses, tenho uma grande admiração por todos os passos que eles deram, como homens, como interventores, como artistas plásticos, como poetas. Mas curiosamente não tento seguir-lhes as pisadas em termos estéticos, não propriamente em relação ao Cruzeiro Seixas, não propriamente em relação ao Mário Cesariny, não propriamente no campo do desejo em relação ao António Maria Lisboa ilustre desconhecido e poeta maior do século XX português. Eu revejo-me mais num homem que não se proclamando surrealista, não deixa de ser um homem que impunha a bandeira da grande liberdade estática do surrealismo. Foi o grande mestre Lima de Freitas. As obras dele têm-me servido de inspiração estética e quase material. Não quer dizer que eu o siga, mas é um homem quem me ilumina a mente, me ilumina o coração, e muitas vezes até teoricamente para partir para um quadro ou para uma composição. É curioso porque é um homem que nunca se proclamou um surrealista.

Pinta para um estrato social específico? Qual o seu público-alvo?
O que eu tento é integrar-me profundamente na sociedade em que vivo, e portanto não tenho por meta de delimitar-me em determinados grupos sociais, culturais, seja de que guisa for, para os promover porque eu tento promover as pessoas da sociedade onde vivo através da minha arte. Portanto, tenho de ter muito cuidado quando faço um trabalho para não me deixar referenciar por nenhuma franja, e tentar ser o tal porta-voz de exponencialmente todos e não de alguns, ou seja, de uma pequena franja. Portanto, tento representar todos os sectores. Mas não os sectores que estão materialmente delimitados em termos de sociedade (há umas décadas atrás era muito importante para os artistas dizerem que representavam o campesinato, o operariado, ou os valores de conservadores ou valores progressistas) digamos que ultrapassei já esta espécie de infância. Mais uma vez não é snobismo, mas considero uma forma de pensar os fenómenos sociais, bastante infantil e limitada. Portanto com ela não me convenho.

A arte na actualidade sofre de alguma forma os efeitos da cultura de massas?
Cada vez mais, e isto por circunstancias tão diversas, mas vamos ver só o campo das arte: deixa-me falar-lhe num nome que nem se quer é português; vou falar-lhe de Andiworom nos anos 70 além de promover que um dia todos nós teríamos direito a um ou dois minutos de fama, pegou nos valores que estão inerentes a maquinização, a industrialização a massificação social que imperava no seu tempo nas sociedades ocidentais e que imperam hoje em dia, graças a globalização, tendencialmente em todo o mundo, e expôs muito bem essas premissas na arte que praticou. Eu posso recordar por exemplo, “Lata de sopa Campels”, que é uma obra fabulosa, bastante explícita, mas posso também, e esta parece ser a melhor maneira de falar dessa reviravolta digamos assim, na forma de ver a arte e a arte como fenómeno social. As repetições quase infindáveis do rosto da Marlin Moron o mesmo rosto, a mesma composição reproduzida ad eternum tendencialmente com cores que apenas iam mudando, uma vez que a composição básica era sempre a mesma. Há aqui um fenómeno de obsessão, um fenómeno de industrialização, um fenómeno de massificação que ilustrou bem os tempos que viriam. O que penso que hoje há é uma arte que nos poderíamos chamar interventiva, uma arte profundamente ideológica, mascarada num experimentalismo bastante seco, um experimentalismo que se quer auto-satisfazer. Há aqui uma espécie de masturbação intelectual que preside à grande arte de hoje. A arte interventiva dos anos 70 tornou-se a arte massificada, a arte sem referências ideológicas. A arte que ainda por cima quer desestruturar todo o legado do passado. E curiosamente se reparar é arte que hoje em dia impera nos circuitos comerciais. E quando falamos nos circuitos comerciais, também não podemos deixar de pensar nos circuitos globais, hoje uma galeria de arte que expõe as suas obras em Lisboa está integrada num circuito que engloba outras galerias em Hoshaka, em Montreal, em Nova York, em Sidney e daqui a pouco possível mente em Pequim. Deixe-me dizer que hoje a arte nos circuitos comerciais mascara muitas vezes operações menos legítimas, menos correctas e mascara muitas vezes operações de branqueamento. A arte hoje em dia é uma fachada para coisas terríveis. Hoje em dia, século XXI os artistas tem de ter muito presente isto e muitos outros factores. Isto por uma questão de empenhamento.

Verificamos pela sua exposição em Braga que trata de temas como: a religiosidade popular, festas, ambiente telúrico e campestre, história nacional… porque razão trata destes temas? Porquê a tradição? Porquê os motivos históricos?
Estes trabalhos são trabalhos têm 13 anos suponho. Foram feitos ao longo do ano de 1994 e numa altura em que era bastante nítido que efectivamente aquele mundo, onde as pessoas da minha geração cresceram, num mundo em que eu cresci, eu nasci num Portugal e no ceio de um povo que hoje em dia não sei onde estão. Aquelas referências nas quais eu nasci envolvido, eu nasci envolvido por uma cultura por um povo, por uma língua, por um sotaque por tantas questões de carácter afectivo ate, que eu hoje em dia não sei onde estão. Eu hoje em dia olho para trás e não sei onde está nem o meu povo nem onde está o país onde eu nasci. Quer dizer, nasci integrado numa nação que em 1994, para quem queira passar apenas alguns minutos por dia a rever com calma é nítido, estava a ser pura e simplesmente destruído. Sei que o termo aqui é um pouco pesado, mas nalguns casos até intencionalmente destruído. E daí esta exposição se chamar tradição. Tradição porque? Tradição é aquilo que nós chamamos folclore, na melhor acepção da palavra, isto é, o património de um povo que se revela nos usos e costumes, no cantar, na dança, no trabalho, na relação entre as pessoas, no afecto, nas estações do ano e na forma como essas estações do ano são vividas, globalmente falando uma nação. E portanto esta é de certa maneira uma homenagem a esta nação, a nação onde eu nasci, uma nação grande de coração gordo (não estou a dizer que era uma nação que continha em si o melhor do mundo, mas tinha coisas que eram só suas, que nenhuma outra tinha). Havia necessidade de crescer, havia necessidade de acompanhar os tempos, sem dúvida nenhuma. A Irlanda fê-lo. A Irlanda cresceu e é dos países mais ricos da Europa neste momento. E cresceu porque apostou correctamente na sua tradição, na sua nação, nos factores culturais que fazem parte integrante da sua alma. Apostou nos seus arquétipos e eu gostaria que com Portugal tivesse sido da mesma maneira e portanto, esta foi a forma que eu encontrei de prestar uma homenagem muito sentida a esse povo e a esse país onde eu nasci a 21 de Setembro de 1955, eram as festas grandes da minha terra.

As suas temáticas condicionam as técnicas?
Sim! Sem dúvida. Como uma coisa também condiciona a outra. As técnicas também condicionam muitas vezes as temáticas. Porque que se tiver de abordar determinada temática, mas se não tiver capacidade técnica para chegar lá, ou seja, para fazer um trabalho honesto, elevado ao extremo, então é melhor nem pensar nisso. O contrário também acontece. Se quero abordar determinado tema tenho que utilizar uma técnica adequada, que domine. É uma questão de honestidade. Além do mais, a pintura permite lidar com temas bastante abstractos, vagos… o exemplo disso é que lidamos com cores quentes e frias… se não souber abordar a paleta das cores frias ou quentes é melhor não fazer nada.

A pintura constitui uma necessidade, vocação ou exigência?
Sem dúvida. Tem havido bastantes autores em todas as artes que dizem que não consigo viver sem… (pintar, fazer arquitectura, escrever…). Não consigo conceber a minha vida sem pintar.

Aliena-se a alguma obra sua? Ou algumas obras de arte são inalienáveis?
É relativo. Acontece esse fenómeno, é uma espécie de criação de um fantasma. Nós quando dizemos que uma nossa é um filho nosso estamos a criar um fantasma, uma entidade a que nos ligamos, a quem respondemos. Se há entidades desses em que não conseguimos cortar o cordão umbilical, há outro em que sempre com muita dor nós conseguimos cortar esse cordão umbilical. Relativamente, isto é, conseguimos vende-lo ou doá-lo. Vi muitas obras minhas partirem. E fica aquela saudade, mas a saudade é uma forma de cultivar uma presença em nós. Portanto, a obra que partir, não partiu totalmente. Esse filho foi, mas fica para sempre em nós. O artista consegue esta coisa maravilhosa de ficar “grávido”, “parir”, e criar um filho… e depois a certa altura é capaz de lhe dizer “abre as asas e chegou a altura de saltar do ninho. E regressa um dia”. Há uma ligação com esse Cristo de há bocado. Vou contar uma história: Leonardo Da Vinci trabalhou sempre por encomenda. Houve duas obras que não largou e colocou à beira da cama, quando sabia que ia morrer. Uma obra foi o S. João Baptista. O outro foi, curiosamente, Gioconda. Havia muitas razões para isso. Mas é curioso porque é que o Leonardo nunca conseguiu lagar aqueles dois quadrinhos. Segundo a lenda o último olhar foi para S. João Baptista. Desses dois quadros ele não se quis livrar-se, e foram encomendas! Porque será? É matéria para reflexão. Esse Cristo, gostaria de morrer muito velhinho como o mestre Artur Loureiro… gostaria de morrer no meio de uma serra, pobrezinho, muito velhinho e a trabalhar. Mas gostava de ter esse quadro, esse Cristo, a meu lado.

Porque pinta brasões? Isso poderá estar relacionado com a monarquia?
Não… de maneira alguma! A heráldica em Portugal é considerada prerrogativa de uma classe que já nem cá está… estão netos, bisnetos, etc… dessa velha classe que foi a aristocracia portuguesa. Mas efectivamente é uma classe que já não é operante. Nós vivemos forçosamente ou não uma república. Mas apesar disso tudo ainda hoje a heráldica é associada apenas ao factor social de uma determinada elite (vista erradamente. Mas, há elite em todos os campos. A elite é inata a determinado grupo). Mas não é essa a preocupação que me leva. Com a heráldica pretendo o outro lado, o lado simbólico. Pois através dos brasões nós temos lição que nos vem do passado. Pensa-se que a heráldica terá nascido entre os romanos, ou acredita-se também que entre as tribos célticas. A heráldica prende-se essencialmente com a questão simbólica, com a questão dos ensinamentos. Estamos a falar de símbolos. Os símbolos encerram em si uma sabedoria, um conselho, que são um farol para o futuro. Quem recebe um símbolo recebe a maior herança que poderia receber. Na idade média quando se entregava uma espada a um cavaleiro entregava-se um símbolo; ele ficava preso a um juramento e a um símbolo até ao fim da vida; ele ficava preso a uma responsabilidade, não a uma vaidade; com aquela espada, com aquele símbolo, vinha um ensinamento, um compromisso, um laço com o passado. Estes símbolos união pessoas com os mesmos valores. A heráldica pretende dar cumprimento a um ensinamento…

Acha que a nobreza foi importante para o desenvolvimento do norte?
Foi fundamental. O norte de Portugal é o primeiro grande reino suevo, são depois os nossos avós visigodos, depois vem as evasões barbaras (são tempos terríveis). É a partir do norte que voltam com uma capacidade de luta (ex. Viriato). A “volta” foi feita e bem sucedida até ao douro. E foi com essa nobreza (guerreiros, monges, colonizadores, etc…) que vão reconstituir o que restava do reino visigodo, e criaram um conceito novo e revolucionário, esse conceito belíssimo chamado Portugal. Coisa bela!


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