20/08/2009

Deus: Problema ou Mistério?


Apresento aqui, para todos os interessados, a síntese de um interessante texto de filosofia da religião de Manuel Fraijó: “Deus: Problema ou Mistério?”. In: FRAIJÓ, Manuel – Dios, el mal y otros ensayos. Madrid: Ed. Trotta, 2006 (2ªed.), pp. 181-206.


1.Introdução
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- Em pleno iluminismo -» Deus era evidente; não precisava de demonstração, não era problema… Mas, era problemático encontrar a sua misericórdia (cf. Lutero).
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- Nicolau de Cusa -» Deus é evidente, o problema é conhecê-lo. Teologia Negativa. Sobre Deus só possuímos uma douta ignorância; só sabemos que Ele é a coincidência dos contrários; apenas poderemos afirmar generalidades; destaca a absoluta transcendência.
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- Actualmente Deus não parece ser um dado seguro (pelo menos na filosofia).
- Desde Kant -» Deus torna-se um postulado. Nada nem ninguém pode assegurar a existência de Deus. É inútil aplicar o verbo demonstrar à sua existência ou inexistência.
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- Heidegger aconselhou a silenciar o tema “Deus” no âmbito do pensamento. A sua filosofia era “um estar à espera de Deus”. Há que saber esperar. Há que aprender a viver em estado de insegurança.
- Teólogo P. Tillinch -» a teologia deveria presentear a Deus com o silêncio (pode ser curativo). Mas, a teologia não seguiu o seu conselho.
- A filosofia, desde que morreram os grandes críticos de Deus do século XIX (Feuerbach, Marx, Nietzsche, Freud), cala-se sobre Ele (i.e., não é molestado nem requerido). No entanto, existem excepções; mas que só oferecem discursos interrompidos sobre Deus.

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- Tese de Manuel Fraijó -» Falar de Deus como problema. Mas, também dá espaço para o mistério. A opção pelo problemático é pessoal e não aspira a qualquer normatividade.



2.A luta entre problema e mistério

- Termo “mistério” é mais abarcável e universal que a palavra “Deus”.
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- Difícil determinar o conteúdo da palavra mistério. Mas, há a coincidência de dois traços:
[1] Absoluta transcendência – movimento de travessia e subida; radical alteridade; o “totalmente outro”; mistério é declarado inefável, inacessível ao entendimento humano; etimologia “mu”.
[2] Radical Imanência – o mistério é para o sujeito religioso o mais próximo, a mais íntima imanência; “interior intimo meo” (Santo Agostinho).



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- A teologia sente-se bem com o mistério, muito melhor do que com o problema. Porém, algumas filosofias sentiram-se incomodadas diante o termo “mistério”.

- Para Ortega y Gasset -» A filosofia é fala, é logos; não pode afeiçoar-se com o mistério.
- Em Kant e Hegel -» não aparece o termo mistério. O cristianismo é religião sem mistérios.
- Existem outras filosofias mais receptivas ao mistério – Wittgenstein (Tratactus) – “Existe no entanto o inexprimível. É o que se revela, é o místico” [6.552]. Importância do místico na filosofia de Wittgenstein. Mas, é correcta a identificação que a teologia faz de “místico” em Wittgenstein com “mistério”?
- Mas, de modo geral, a filosofia não costuma apelar abertamente ao mistério. Para alguns, mistério coincide com o final da filosofia (o seu insucesso, reconhecimento dos seus limites).
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- Manuel Fraijó -» inclina-se por aplicar a Deus o termo “problema” (atendendo à aparente incompatibilidade entre filosofia e mistério, e reflecte no âmbito da filosofia da religião).
- A contradição nas religiões – têm a sua preferência e evocam a Deus como mistério, mas acrescentam em seguida que omnipotente, omnisciente, bom, providente, etc…
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- Algumas religiões (como judaísmo e islamismo) recusam-se a falar de Deus como um problema. São religiões assertivas que respiram segurança e certeza.
- Mas, a rejeição destas instâncias críticas pode ser grave (convida ao fundamentalismo, fanatismo e intolerância).

- Numa cultura que o cristianismo tem gerado, é possível terminar a viagem numa estação anterior e admitir o mistério sem dar-lhe nome. Peregrinação em três etapas:
[1ª] – Consideram que as opacidades que nos afectam iram perdendo agressividade à medida que a ciência e a coragem humana vão ganhando terreno.
[2ª] – Andam sempre inquietos. Torturam-se com perguntas que carecem de resposta. Caminham entre o mistério e o problema. Vazio interior. Preocupação com o tema do mal. Esperança na escatologia. Mas Deus, se existe, é tão discreto…
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[3ª] – Cristão explícito. Atreve-se a afirmar Deus. Se é lúcido, verá detalhes que falam contra a sua fé. O cristianismo não impede a “queixa vacilante”, a teologia da pergunta.



3.Apontando Razões

a) Um curriculum precário

- Escasseiam os dados sobre Deus.
- A história de Deus é o grande relato das percepções que outros fizeram d’Ele; mas, Deus mesmo guarda silêncio.
- Deus revela-se sempre indirectamente, mas só algo de si mesmo (no cristianismo) – pelo seu amor, sua ira, misericórdia, justiça… No entanto, nunca se revela a si mesmo.
- Pannenberg -» o Homem detecta a presença de Deus através das suas obras na história.
*Dificuldade (1) – Como avaliar quais são as obras de Deus?
R.: No momento em que um acontecimento nos ilumina (Iluminar significa dar sentido – K. Jaspers) a realidade total em que vivemos estamos interessados tal acontecimento revela a actuação de Deus.
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*Dificuldade (2.1) – O que fazer com o sem sentido e com o mal?
*Dificuldade (2.2) – O que é que se entende por realidade total?
R.(2.2): Só temos acesso a verdades parciais e relativas. A história universal não existe, é algo aberto e inconclusivo. A revelação não tem lugar no começo, mas no fim da história da revelação.
*Dificuldade (3) – Tudo fica dependente de um misterioso final.
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R.: O fim da história é um acontecimento. Que é a ressurreição dos mortos. A ressurreição de Jesus é uma forma de decifrar o final da história e minimizar a precariedade de entender Deus. Através da ressurreição a revelação de Deus alcança a máxima expressão.
* Dificuldade (4) – Há que demonstrar a historicidade da ressurreição de Jesus.
R.: Pannenberg passou do Deus evidente para o Deus como problema/hipótese. Se houver um convencimento que Deus existe este não se deve expressar de forma dogmática.
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b) Uma recepção problemática.

- Falar de Deus como problema não é descartar por completo a surpresa de que exista.
*Recepção problemática (A) – contexto de descobrimento.
*Recepção problemática (B) – contexto de fundamentação.
(A) – âmbito da experiência religiosa directa, previa a qualquer reflexão filosófica ou teológica. Imediatez perceptiva.
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(B) – âmbito da articulação conceptual da experiência religiosa. Espaço para a filosofia e teologia. Âmbito onde é possível falar de Deus como problema.
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- A recepção de um discurso problemático sobre Deus varia entre a filosofia e a teologia. Com maiores responsabilidades para a teologia.
* Filosofia – o acesso a Deus na filosofia é sempre interrogativo e problemático. A filosofia não se pode apartar por completo do tema Deus. A categoria principal do pensamento filosófico é a razão; ela é que pode marcar as etapas e possibilidades de acesso a Deus.
* Teologia – pode ser mais directa e firme. A teologia concede maior protagonismo a faculdades menos severas do que a razão: como a imaginação, os sentimentos, os afectos.
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- Já não é possível elaborar um conceito único e unívoco da razão e proclamar que Deus não existe porque não se ajusta a ele.
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c) Da teologia revelada à teologia da religião

- O cristianismo primitivo recorreu à filosofia, e esta aceitou a matriz cristã e durante séculos filosofou-se a partir da teologia revelada.
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- Com a teologia natural o domínio deixou de ser a fé e autoridade da Igreja para ser as possibilidades do conhecimento humano (deu-se eco à razão). Mas, a teologia natural viveu sempre tutelada à teologia revelada.
- A teologia natural fracassou quando Deus deixou de ser tema para se converter em problema.

- A filosofia da religião nasceu por Deus ter sido pensado e vivido como problema. A atenção virou-se para o outro pólo da relação religiosa –» o Homem. Viragem antropológica.
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- A filosofia da religião considerou que não devia vincular a sua identidade a um catálogo de temas; mas, a um estilo de filosofar: crítico, rigoroso, aberto, livre. Deus enquanto tema cabe na filosofia da religião, somente enquanto problema. Na teologia o caminho de acesso a Deus é mais flexível; na filosofia da religião há maior severidade argumentativa.
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- A Bíblia não possui para a filosofia da religião o carácter normativo que teve para a teologia revelada e natural.
- O discurso seguro e dogmático da teologia revelada, passando pelo esforço argumentativo da teologia natural, desembocou na filosofia da religião. A partir da filosofia da religião, Deus vive-se como problema e pergunta aberta.
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4.Apontamento Final

- O homem ocidental – compreensão autónoma – faz desnecessária a hipótese de Deus.
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- O mal é o grande responsável dos discursos quebrados e problemáticos sobre Deus.
- O grande tema do sentido último da realidade contínua pendente – “É inútil querer salvar, sem Deus, um sentido incondicional”; o pior é que “nada podemos afirmar sobre Deus” (Horkheimer).
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