24/08/2009

Desespero (em Kierkegaard)


Desespero – A doença mortal – Livro IV
O pecado de sonham em vez de ser, de não manter senão uma relação estética de imaginação com o bem e a verdade, em vez duma relação real, do esforço de a criar pela sua própria vida
clip_image001 Capítulo I – As gradações da consciência do eu
O eu assume, perante Deus, uma nova qualidade ou qualificação. Já não é apenas o eu humano mas o “eu teológico” – o eu em face de Deus. Só a consciência de estar perante Deus faz do nosso eu concreto, individual, um eu infinito; e é esse eu infinito que peca então perante Deus. O pagão e o homem natural só têm como medida o homem humano. Assim, é talvez lícito dizer, numa perspectiva superior, que o paganismo residia no pecado, embora esse pecado não fosse, no fundo, senão a ignorância desesperada de Deus, a ignorância de se estar perante Deus: “de se estar sem Deus no mundo”. Tudo o que não provém da fé é pecado. E uma das definições capitais do cristianismo é a de que o contrário do pecado não é a virtude, mas sim a fé (Rom 14, 23).
clip_image001[1] Apêndice – A definição de pecado implica a possibilidade do escândalo
Cristianismo escandalizava… se os homens se escandalizam é, no fundo, porque ele é demasiado elevado, porque não é a medida do homem, a quem pretende transformar num ser tão extraordinário, que ele já não pode compreender. A lição que o cristianismo dá é que esse indivíduo, como qualquer indivíduo, existe perante Deus. Esse homem está perante Deus, pode falar com Deus quando quiser, com a certeza de ser escutado e é a ele que propõem viver na intimidade de Deus. Foi por esse homem que Deus veio ao mundo, se deixou incarnar, sofreu e morreu; e é esse Deus de sofrimento que lhe roga e quase implora que aceite o socorro como um oferecimento. Quem quer que não o ouse crer escandaliza-se – porque a coisa é demasiado elevada para ele, porque não lhe pode entrar na cabeça… e eis porque lhe é necessário pô-la de parte, considerá-la nada, uma loucura… O cristianismo com um passo de gigante vai até ao absurdo; é daí que ele parte, e que parte o escândalo.
Advogar, sempre desacredita. Então o cristianismo? Kierkegaard declara incrédulo aquele que o defenda. Se crê, o entusiasmo da sua fé nunca é uma defesa: é sempre um ataque, uma vitória; um crente é um vencedor.
clip_image001[2] Capítulo II – A definição socrática de pecado
Pecar é ignorar. Que faltou então a Sócrates na sua determinação do pecado? – a vontade, o desejo! Kierkegaard critica a intelectualidade grega que era demasiado pecadora para conseguir compreender que alguém, possuindo o saber, conhecendo o justo, pudesse cometer o injusto. Mas em que falha a definição? O seu defeito é a ausência duma categoria dialéctica para passar da compreensão à acção. O cristianismo mostra o pecado na vontade. Critica, também, Hegel que na filosofia das ideias puras, que não considera o indivíduo real, a passagem é de absoluta necessidade, isto é, a passagem do compreender ao agir não tropeça em nenhum obstáculo.
Não é possível que um homem possa, sozinho e por si próprio, dizer o que é o pecado, visto que vive nele. É por isso que o cristianismo começa de outro modo, mostrando a necessidade duma revelação de Deus, que instrua o homem sobre o pecado, mostrando-lhe que este não está em não compreender o justo, mas em não querer compreendê-lo, em não querer ser justo. Se não se pratica o justo, explica Sócrates, é por incompreensão; mas o cristianismo vai um pouco mais longe, e diz: é pela recusa de compreender. Como cristianismo é preciso crer. Compreender está ao alcance do homem, é a relação do homem com o homem. Mas crer é a relação do homem com o divino. Para o cristão, o pecado está pois na vontade e não no conhecimento.
clip_image001[3] Capítulo III – Que o pecado não é uma negação, mas sim uma posição
O cristianismo só tem vida se for objecto de crença e não de compreensão – Não se tratará de arrogância e leviandade, ao querer compreender aquilo que não quer ser compreendido? Poder compreender o cristianismo – confessar que não temos o poder, nem tão pouco o dever de compreender. A necessidade provável é alguma ignorância socrática, no que toca ao cristianismo. O cristianismo ensina-nos que toda a existência outro fim não tem senão a fé.
clip_image001[4] Apêndice ao Livro IV – Não será então o pecado uma excepção? (a moral)
A vida da maior parte dos homens está tão afastada do bem (a fé), que é quase demasiado a-espiritual para se poder chamar-lhe pecado, para poder mesmo chamar desespero. Kierkegaard denuncia uma pretensa sociedade cristã (na qual, aos milhões, as pessoas são cristãs como se nada fosse – de modo que se contam, exactamente, tantos cristão quantos nascimentos há…) não é apenas uma mesquinha edição do cristianismo, crivada de gralhas extravagantes e de vazios ou acrescentos ineptos; ela constitui até um abuso em relação a ele: profana-o.
Crer é como amar… Quem, atribuindo ao apaixonado a ideia de defender a causa do seu amor, se recusaria a admitir que esse amor não fosse o seu absoluto, o Absoluto! Não estará nisto a prova concludente de que um verdadeiro apaixonado jamais passará pela cabeça a ideia de, em 3 pontos, provar o seu amor ou defendê-lo? Uma coisa há que vale mais que todos esses pontos juntos e do que qualquer defesa: ele ama. E quem prova e pleita não ama, limita-se a fingi-lo e, infelizmente – ou tanto melhor – tão disparatadamente o faz, que apenas revela a sua falta de amor.


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