25/08/2009

A cultura e a Palavra


Hans-Georg Gadamer no texto “A Cultura e a Palavra” trata de forma eloquente o conceito de cultura. No entanto, apesar de cultura ser algo que nos sustenta, “nenhum de nós saberia o suficiente para poder dizer o que é a cultura”[1], pois, parece-nos ser uma área de tão grande vastidão que talvez seria difícil ser preciso no que realmente concerne a todo o horizonte cultural. É relevante salientar que o Iluminismo dá um primeiro passo na tentativa de inteligibilidade da cultura, sobretudo quando a Igreja Cristã foi questionada começando, portanto, a cultura enquanto tarefa.
Mas, segundo Gadamer para se contribuir para este reflexão “terá de recuar até às origens da cultura, quer dizer, até aos dados elementares, como são a palavra e a linguagem”[2]. É interessante constatar, do mesmo modo, em Gadamer o carácter relacional do ser humano assente na própria palavra e na linguagem; em várias passagens refere o vocábulo “diálogo” como algo que caracteriza profundamente o ser humano e a humanidade (até mesmo o divino): “desde que somos diálogo, e podemos ouvir uns dos outros (…) O diálogo da humanidade consigo e o diálogo do homem com o divino soam como uma única conversa (…) Desde que somos diálogo, somos a história una da humanidade”[3]. Verificamos, assim, a palavra e a linguagem como fonte dialogal e concomitantemente fonte cultural da humanidade, sendo de facto algo que nos une.
Gadamer não deixa de reflectir sobre esta importância da palavra originária, ou sendo mais preciso, do “Logos”. Este “Logos” não se refere ao “serôdio orgulho da razão” (homem como animal racional) que atravessou vários séculos até à actualidade. Porém, “Logos” “não é «razão», mas «discurso» - precisamente a palavra que se diz a outrem”[4]. Portanto, é algo que aponta para o âmbito da relação, da correspondência… Evidencia-se claramente que é pela linguagem (enquanto “Logos”) que se dá a forma da vida humana; e é precisamente na essência da linguagem que “podemos tornar audível e comunicável a outrem, no mais volátil, no sopro da nossa voz, tudo o que nos ocorre”[5]. Assim, cultura e partilha têm uma relação muito próxima.
É interessante reflectir com Gadamer que de facto numa “comunidade idílica” não seria de qualquer forma necessário a cultura. Pois, Gadamer entende cultura essencialmente como “paideia”, ou seja, a essência da cultura (a “paideia”) refere-se essencialmente à formação para o humano. Desta forma, “a pulsão agressiva arreigada no homem só pode ser ultrapassada mediante a «paideia», pela educação, é a grande doutrina da filosofia platónica (…) [esperança] de que alguma vez consiga se consiga ser bem sucedido em dominar em nós esta pulsão agressiva e se possa tornar real o mandamento cristão do amor”[6]. Deste modo, constatamos que cultura “é o que consegue impedir os homens de se precipitarem uns sobre os outros e de serem piores do que qualquer animal”, sendo a palavra “a mais alta configuração do seu mundo e do seu destino, cuja grande sílaba final se chama morte e cuja esperança é Deus”[7]. Daqui se deduz que é a palavra o verdadeiro fundamento da tradição da cultura humana.
Por fim, Gadamer salienta as três formas de palavra que cunharam a nossa tradição: (1) palavra pergunta; (2) palavra saga; (3) palavra da reconciliação e da promessa.
A (1) palavra pergunta é a “palavra desassossegada que vai desde o prazer de perguntar dos Gregos até à sede da investigação que ilimitadamente progride (…) É o perguntar que admite a nossa condicionalidade finita, a limitação do nosso conhecer da nossa interpretação e previsão, em suma, a situação do homem no mundo”[8]. A (2) palavra saga é a antiga rival da tradição religiosa e filosófica dos gregos, a saga, a poesia… A saga “assinala aqui o todo da pretensão peculiar às palavras de se realizarem a si mesmas, de nada deixarem sobressair que só o dito confirma ou corrobora, mas de serem certas no próprio dizer-se do seu dito”[9]. A (3) divide-se em (a) palavra perdão e (b) palavra reconciliação. A (a) salienta uma palavra que já não tem de ser dita, pois, “já abriu o caminho que conduz de um ao outro, porque já superou, através do gesto da palavra, a desavença, a injustiça, isto é, tudo o que nos dissociava”[10]. Em (b) salienta-se o segredo da reconciliação, ou seja, “onde quer que exista desunião, a desavença e a cisão, onde entre nós estivemos divididos, onde a nossa convivência se desfez, que se trate de um Eu ou Tu, ou de uma pessoa e a sociedade, ou eventualmente do pecador e da Igreja”[11], com a reconciliação, que permite superar a alteridade, uma mais entra no mundo.
Como síntese do artigo será interessante também reflectir sobre o último parágrafo do texto: “Missão da nossa própria tradição cultural e penhor da sua subsistência parece-me ser o cultivo entre nós de formas de palavras assinaladas: a palavra da pergunta, que a si mesmo supera, a palavra da saga, que de si mesma dá testemunho, e a palavra da reconciliação, que é como que a primeira e última palavra”. Interessa-nos sobretudo reflectir sobre a reconciliação como primeira e última palavra, parece-nos aqui uma grande aproximação à escritura joanina: “No princípio existia o Verbo”[12]; ou mesmo no apocalipse: “Eu sou o Alfa e o Omega”[13]; afirmações bíblicas que de certo modo implicitamente Gadamer salienta: “não pode haver uma primeira palavra, só existe o poder falar, só existe «a» palavra”[14].

[1] P. 9.
[2] P. 11.
[3] Idem
[4] P. 12.
[5] P. 13.
[6] P. 16.
[7] P. 17.
[8] Pp. 18-19.
[9] P. 19.
[10] P. 20.
[11] P. 21.
[12] Jo 1, 1.
[13] Ap 1, 8.
[14] P. 14.


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