16/08/2009

Cristianismo na escola, uma contribuição cultural


Registo escrito da Conferência, Cristianismo na escola, uma contribuição cultural, proferida por D. Manuel Clemente nas Jornadas Pedagógicas "Escola, sucesso e excelência", na Faculdade de Filosofia, em 21 de Novembro de 2008.


1 - Cristianismo pode aparecer em contraste e coincidência com "Escola, Sucesso e Excelência". No horizonte da cristandade vemos a pessoa do "Rabi" que tem uma escola de discípulos, onde se transmitia a sabedoria de Jesus (mestre). Constata-se com uma sabedoria quer da terra, quer em abertura à transcendência (última realidade das coisas). Jesus abre pistas de reflexão, as decisões que toma é sempre referente às últimas coisas (pascal).
Ao longo da história vemos várias escolas: Antioquia, Alexandria, Roma, etc... Em Roma a escola deve-se a S. Justino que vem da Samaria, e que se converte ao cristianismo, abrindo, por conseguinte, uma escola. A Patrística (padres da Igreja) era os homens de ensino deste ambiente escolar. Estas escolas cristãs tinham como principal função o ensino da iniciação, algo que comprometia a pessoa toda, sendo um novo modo de viver. Do mesmo modo, estavam ligadas ao catecumenado e ao catequético. É importante salientar que estas escolas foram o embrião das escolas ocidentais. D. Manuel Clemente refere igualmente as escolas monásticas (de base beneditina), as quais tinham como base a escritura, culminavam com a existência de Deus. Estas escolas medievais foram o centro cultural do século V ao século XV. Escola que não ficava pelos ensinamentos cristãos, mas também se transmitia toda a fonte cultural dos clássicos. Por exemplo, nos sermões de Santo António, no século XIII, constatamos com um pregador cristão exímio, que do mesmo modo tinha recolhido os ensinamentos clássicos. Outra figura de relevo é Pedro Espano (nos séculos XII e XIII). D. Manuel Clemente salienta que, de facto, eram escolas de sucesso onde não faltava a excelência; uma escola que sobrou durante a Idade Média.

2 - No final da Idade Média (século XV) até à Revolução Francesa algo diferente aconteceu: alguns conflitos (entre ciência e fé); epistemologia mais destrinçada; conflitos devido a novas observações; roturas da cristandade (p.e., luteranismo); autonomia na investigação; auto-afirmação individual; ideias muito mais difundidas graças à imprensa... Tudo isto parece vir contrastar com a época anterior. É importante salientar que o iluminismo e racionalismo (século XVIII) veio colocar em causa a fundamentação bíblica das coisas e a essencialidade religiosa da existência, nomeadamente com uma postura de contra-Igreja. Ao nível da contribuição cultural do cristianismo isto obrigou a revisões epistemológicas, mas nem sempre de maneira unívoca. Houve sucessos pouco advertidos da contribuição cultural do cristianismo, numa época marcada pelo progresso científico-tecnológico.

3 - A geografia europeia coincide com a difusão do cristianismo. A Europa não era do Império Romano; mas sim, fruto das várias campanhas missionárias (séc. V-X). Este movimento levou à conversão de vários chefes… Portanto, a passagem para a cristandade faz o continente europeu.
A distinção “criador – criatura”, a alteridade “Deus – Mundo” legitimou o estudo do mundo, não imediatamente sacral, sem risco de profanação imediata. É fundamental a distinção entre Deus e César, pois, dá espaço ao mundo.

4 - Há no entanto que acrescentar que o sucesso do cristianismo é final (carácter pascal), à custa do insucesso inicial. Pois, em termos imediatos Cristo fracassou; o “reino”1 acabou na tabuleta da cruz.
Dois mil anos depois, os cristãos vivem do terceiro dia de Cristo: morrer para nascer; viver é com-viver (dedicação constante) ao próximo… Isto é a marca personalista da relação (que acontece na entrega).

5 - A Doutrina Social da Igreja vê como verdade o consolidar a relação, (face a todo um contexto pós moderno [exemplo da novela “morangos com açúcar”] onde se transforma em verdades a verdade… numa ausência de espírito crítico). No entanto, é necessária a consistência da relação com o outro; a investigação da verdade, o procurar a verdade; numa busca do sentido, da questão dos porquês, do para quê: “do que vale a pena o homem conquistar o mundo inteiro se vai perder a sua alma”. Esta consistência constituiu uma excelência que se aproxima da totalidade; este é o maior desafio da educação e da escola. Vivemos imersos em consumismo, em “ver montras”… Daí a necessidade da filosofia, para pensar criticamente, e escolher o bem, numa humanização da economia. Pois, o homem não se pode reduzir a uma visão materialista. Mesmo a questão da família não pode ser nunca redutível ao económico. Portanto, é necessária uma formação de uma personalidade madura, ou seja, uma escola imbuída de humanismo (e humanismo cristão) que é luz para o mundo.
1 Reino que significa a relação profunda de Cristo com a Humanidade



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