19/08/2009

Crenças e Opiniões das Massas



Factores Longíncuos
das Crenças e Opiniões das Massas
A grande massa humana nenhuma resistência opõe e segue as crenças, as opiniões e os preconceitos do seu grupo. Ela obedece-lhe sem ter mais consciência do que a folha seca arrastada pelo vento.”
Gustave Le Bon, in 'As Opiniões e as Crenças'
1. Introdução

Ao analisarmos o capítulo “Factores Longínquos das Crenças e Opiniões de Massas”, do livro “Psicologia das Massas” da autoria de Gustave Le Bom, ressalta-nos de imediato um problema ao qual pretendemos observar pormenorizadamente as suas correspondentes soluções, e do mesmo modo dar a nossa opinião crítica. A primordial questão que o autor nos induz é perguntarmo-nos “como nascem e se estabelecem as opiniões e as crenças das massas?”.
Face a este problema, Le Bom, oferece-nos duas respostas possíveis. Cada qual sendo necessária não é suficiente em si mesma. Ou seja, são duas respostas que estão intimamente relacionadas, que somente têm sentido enquanto correlação entre si, apesar de tratarem de âmbitos um pouco divergentes. Por um lado, temos os factores longínquos, que “tornam as massas capazes de adaptar determinadas convicções e inaptas para se deixarem influenciar por outras”1, preparam de certo modo o “terreno” para as ideias, as quais aparecem muito repentinamente. Por outro lado, temos os factores imediatos que surgem após o imenso trabalho dos factores longínquos, fazendo uma persuasão activa junto das massas, permitem com que a ideia ganhe forma2.
O autor, como exemplo da aplicação prática dos factores longínquos e imediatos, debruça-se sobre a Revolução Francesa. Mas existem os mais variados exemplos desta aplicação na nossa história. Por exemplo: na revolução de 1974, por um lado (factores longínquos), alguns anos antes, temos as críticas de escritores, políticos, filósofos, movimentos clandestinos que denunciam o regime ditatorial e opressor. Por outro lado (factores imediatos), uma vez preparada a alma das massas foi muito fácil conduzir-se a uma revolução.
Contudo, o que nos interessa aqui analisar em pormenor são os factores longínquos gerais, como: a raça, as tradições, o tempo, as instituições, a educação, os quais podemos encontrar na base de todas as crenças e opiniões das massas.


2. Factores longínquos gerais

O mais importante dos factores longínquos é a raça, uma vez que possui um imenso poder e influência. Como afirma o autor: “o poder da raça é tal que nenhum elemento passaria de um povo para outro sem sofrer as mais profundas transformações”3. Assim constatamos que a raça é algo de muito intrínseco a uma determinada sociedade.
Um outro factor é a tradição. Ela representa “as ideias, as necessidades, os sentimentos do passado”4. São uma síntese da raça, e é aquilo que verdadeiramente conduz um povo. Portanto, sem a tradição não era possível a civilização. Mas, um povo tem que encontrar um certo “meio-termo” no que se refere às tradições. Ou seja, tem que conseguir um equilíbrio entre o “criar uma rede de tradições e depois destruí-la quando os seus benéficos se esgotam”5. Caso um povo entre em desequilíbrio algo de errado provavelmente acontecerá, como é o exemplo da China, entre outros... Desta forma, a tarefa fundamental de um povo é “preservar as instituições do passado, modificando-as pouco a pouco”6.
O tempo, segundo Le Bom, representa o verdadeiro criador e o grande destruidor. Tudo precisa de tempo para se formar. É o tempo que faz evoluir e morrer todas as crenças. Sobretudo, “prepara as opiniões e as crenças das massas, ou melhor o terreno onde elas brotarão”7.
De uma forma generalizada existe a utopia que as instituições podem remediar todos os defeitos da sociedade. Contudo, não convém esquecer que as instituições são “filhas das ideias, dos sentimentos e dos costumes” da própria sociedade. É uma realidade que as instituições representam o produto da raça. Assim, “não é nas instituições que é preciso procurar a forma de agir em profundidade sobre as massas”8. Mas, as instituições engendram agitações na alma das massas, porém não possuem por si só nenhuma virtude. Pois, as instituições agitam as massas apenas enquanto “disfarce” e ilusão de criar felicidade.
A educação é o lugar das ideias dominantes. Contudo, esta mesma educação poderá ter perigos. O filósofo Herber Spencer defendeu que “a instrução não torna o homem nem mais moral nem mais feliz (…) pode, mal direccionada, tornar-se muito mais perniciosa do que útil”9. Um erro frequente é o facto de pensar-se que recitar manuais desenvolve a inteligência. Assim, “o jovem não faz mais nada senão engolir o conteúdo de livros, sem nunca exercer a sua capacidade de julgamento e a sua iniciativa”10. Mas, a educação é um factor longínquo importante, pois, é preciso saber como é que o terreno foi preparado numa sociedade. “O ensino que é ministrado num país permite prever um pouco os destinos desse mesmo país (…) é em parte com a educação que se melhora ou se altera a alma das massas”11.


3. Conclusão

Com este trabalho penso que ficamos bem elucidados no que concerne às características e certos pormenores no que se refere à psicologia das massas. Concretamente ajudou-nos a estudar pormenorizadamente os factores longínquos das crenças e opiniões das massas.
Le Bon concedeu-nos em oblação soluções concretas ao problema inicial de como nascem e se estabelecem as opiniões e as crenças das massas. Podemos dizer que o objectivo central foi cumprido. Chegamos à conclusão que de facto os factores longínquos são a base de todo o nascimento, movimentação, agitação, mudança das opiniões e crenças das massas.
Do mesmo modo, achamos que foi um trabalho proveitoso, principalmente por constatarmos que um texto escrito há cerca de um século ainda tem uma actualidade praticamente total.
Bibliografia

AA. VV. – Logos – Enc. Luso-Brasileira de Filos. Vol. 1-5. Lisboa: Verbo, 1989-1992.

LE BON, Gustave – Psicologia das Massas. Lisboa: Edições Esquilo, 2005
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1 LE BON, Gustave – Psicologia das Massas. Lisboa: Edições Esquilo, 2005, p. 87.
2 Cf. LE BON, Gustave, op. cit., p. 87.
3 Cf. LE BON, Gustave, op. cit., p. 88
4 Cf. LE BON, Gustave, op. cit., p. 89
5 Cf. LE BON, Gustave, op. cit., p. 90
6 Cf. LE BON, Gustave, op. cit., p. 90
7 Cf. LE BON, Gustave, op. cit., p. 92
8 Cf. LE BON, Gustave, op. cit., p. 95
9 Cf. LE BON, Gustave, op. cit., pp. 96-97.
10 Cf. LE BON, Gustave, op. cit., p. 98.
11 Cf. LE BON, Gustave, op. cit., p. 104.


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