25/08/2009

Comentário ao “Anticristo”


No livro “O Anticristo” Nietzsche refere que só é bom aquilo que dá poder (vontade de poder). Poderemos ver aqui uma espécie de selecção natural, onde o bom (o mais forte) prospera e o mau (o mais fraco) é aniquilado. Apresenta do mesmo modo dois tipos de homem: o de valor superior (super-homem) e o doente (cristão). Nota-se claramente desde o inicio que Nietzsche despreza completamente o cristão, em favor do homem de alto valor (que tem vontade de poder).
Vê no cristianismo um cárcere da liberdade, um ódio aos que pensam de outra forma, onde se toma conta apenas do que é falhado, fraco, baixo, onde se faz uma oposição aos instintos de conservação da vida, sendo uma disposição de corrupção da razão. Pelo contrário Nietzsche apela ao super-homem que é afirmação da vida enquanto instinto de crescimento, de acumulação de forças, de instinto de poder (individualista e interesseiro).
Nietzsche olha para o cristianismo sobretudo como a religião da compaixão, e que por isso mesmo, nega a vida, torna a vida mais digna de ser negada, contradizendo os instintos de conservação e valorização da vida.
No entanto, o que negará mais a vida: a vontade de poder (nietzschiana) ou a compaixão (cristã)? O poder pelo poder enquanto sistema interesseiro e individualista preocupa-se apenas com o “eu” e com a vontade de enriquecimento solipsista do “eu”. Mas se tirarmos todos os outros e a relação com o outro, centrando-nos apenas em nós próprios, o que restará? Certamente nada. O que seria de uma sociedade a viver o niilismo, um sistema a-moral, sem regras nem obrigações, apenas com a vontade interesseira e egoísta do poder? Não seria uma anarquia e uma confusão total?! Parece que, segundo a filosofia buberiana, Nietzsche com a sua reflexão pretende que a humanidade viva apenas o “EU-ISSO”; porém viver apenas o outro como objecto desta ânsia interesseira e individualista de poder certamente seria a maior negação da vida que poderia existir. Pelo contrário a compaixão cristã tem outro prisma, não o interesse individual, mas sim a doação de si. Só com a relação e nesta dádiva de eu próprio para o outro que poderemos afirmar a vida, e construir uma humanidade que viva a paz, harmonia, amor.
Nietzsche, de igual modo, olha para a fé como fechar os olhos perante si mesmo, sendo uma óptica falseada acerca de todas as coisas, exigindo que nenhuma outra óptica possa ter valor.
Pergunto-me a mim mesmo: que Cristianismo Nietzsche está a falar? Não será que está apenas a apresentar e criticar caricaturas do cristianismo e da fé? A fé não pode ser vista como uma fantasia, construção, ficção; mas, fé é um salto, uma adesão a Deus. Mas, se levarmos a fé enquanto uma ficção em vez de adesão, certamente será, como Nietzsche afirma, um fechar os olhos perante si mesmo. No entanto, se formos pelo salto e pela adesão, não se segue que tenhamos uma óptica falseada acerca de todas as coisas, mas pelo contrário. Como afirma Joseph Ratzinger em “Introdução ao Cristianismo”: “Hoje estamos de antemão inclinados a considerar como realidade propriamente dita apenas aquilo que temos diante de nós e que podemos tocar e «comprovar». Mas ser-nos-á permitido proceder assim? Não será caso de perguntar com mais cuidado o que vem a ser essa «realidade» de facto? Será somente aquilo que é comprovado e comprovável? Não será a comprovação apenas uma das maneiras de nos relacionarmos com a realidade, uma maneira, aliás, que não consegue de todo abarcá-la inteiramente, podendo inclusive levar a uma falsificação da verdade e do ser humano, se for vista como o único critério?”[1]. Considero também que o cristão autêntico tem que respeitar as outras visões de mundo; mas com base em argumentos e diálogo poderemos purificar a própria visão do cristianismo, aprendendo com outras ópticas de mundo e concomitantemente ajudando outras mundividências.
Do mesmo modo, Nietzsche critica tudo o que é moral e que submete o homem à moral, sobretudo tece várias críticas a Kant e ao imperativo categórico. Afirma que o imperativo categórico de Kant é uma ameaça contra a vida, contra a natureza e o instinto. Pelo contrário, admite que uma acção que impele o instinto da vida (vontade de poder) tem no prazer a prova de ser uma acção correcta.
Mas, se seguirmos esta recomendação, o que seria de uma sociedade e humanidade em que todos seguiam os seus “caprichos” individuais sem olhar a meios? Por mais que tentarmos refutar a moral e os imperativos nunca se conseguirá realmente eliminar isso; pois, a sociedade não vive sem regras. Qualquer organização de pessoas para ser minimamente organizada tem que ter um mínimo de regras para assegurar a estabilidade. Uma sociedade a-moral, sem qualquer regra, numa ânsia de poder interesseiro e individualista, não seria a origem de uma guerra de todos contra todos, negando assim definitivamente a vida?
Em várias partes da obra “O Anticristo” Nietzsche trata da temática: cristianismo e ciência. Este filósofo alega sempre que existe uma relação de oposição entre cristianismo e ciência. Chega mesmo a dizer que o cristianismo tem um profundo desprezo pela ciência, sendo esta um inimigo de Deus e desprezador da verdade.
Se atendermos ao contexto em que esta obra foi escrita, constataremos que de facto existia uma certa repulsa com algumas novidades da ciência por parte do cristianismo. Não poderemos deixar de salientar que a própria obra de Nietzsche faz de certo modo repensar alguns alicerces do cristianismo. E o cristianismo pode também aprender com algumas críticas.
Mas, se olharmos à concepção actual do cristianismo vemos que esta posição de Nietzsche já não é adquada. Considero que a carta[2] de João Paulo II dirigida ao Pe. George V. Coyne, Diretor do Observatório Astronômico Vaticano, em 1988, poderá talvez ajudar-nos a esclarecer a relação que deve existir entre ciência e religião. Nesta carta João Paulo II propõe uma união em complementaridade entre a ciência e a religião. Ou seja, a relação entre ciência e religião deve ser de diálogo. Embora cada uma mantenha a sua especificidade, elas completam-se reciprocamente. Por isso, o Papa propõe uma aprendizagem mútua, uma busca comum, uma união de ambas sem perda de autonomia de cada uma. Assim, a ciência pode ajudar a religião a abandonar certas crenças que podem não passar de superstições ou de ideias erradas acerca da natureza. E, a religião pode ajudar a ciência a não se endeusar (ou seja, a não se converter em ideologia[3]) e a dar atenção à dimensão racional ética da actividade científica.
Do mesmo modo, o Papa defende que não é um bom modelo de relação entre ciência e religião o concordismo, o antagonismo, e o separatismo. No modelo do concordismo recorre-se aos dados e às teorias científicas para provar as crenças religiosas e a verdade da bíblia. O antagonismo defende que a Igreja é capaz de fazer boa ciência e rivalizar com outras instituições científicas. E o separatismo alega que a ciência e a religião estudam questões diferentes, e por conseguinte nada têm em comum. Estes são maus modelos de relação, os quais estão na origem de muitos desafios levantados ao cristianismo[4].
Portanto, o que deve existir é uma união e interacção mútua entre ciência e religião. Pois, ciência e religião precisam uma da outra: “a ciência pode libertar a teologia duma leitura ingénua, literal e fundamentalista da Escritura (como de facto aconteceu em consequência do evolucionismo). (…) A religião pode purificar a ciência da idolatria e falsos absolutos”[5] , isto é, purificar da ideologia. Percebemos, então, que o cristianismo não está contra as teorias científicas, mas antes quer aprender delas…
Nietzsche várias vezes apresenta o argumento da projecção. Concebe essencialmente a existência de Deus como projecção do homem perante si próprio, ou seja, “projecta o prazer que tem em si, o seu sentimento de poder, num ser a quem por isso pode dar graças” (§16). É uma projecção tal de Deus que a qualquer altura se poderá mudar de Deus consoante as necessidades.
Vemos aqui Nietzsche a denunciar, negar, e eliminar Deus. Ele próprio o diz: “Deus está morto!”. No entanto, concebemos que o que Nietzsche muito bem elimina é a concepção antropomórfica de Deus, ou seja, rejeita todas as concepções limitadas e finitas que são sempre uma projecção de qualidades humanas elevadas à suma potência. Portanto, pensamos que Nietzsche elimina o deus “super-mercado”, “bombeiro”, “tapa-buracos”, “polícia”, que são personificação do castigo, terror, perseguição, entre outros… Porém, pensamos que Nietzsche não elimina o ser mais perfeito da realidade (trans-espacial) e o qual nem sequer tem nome, nem é passível de ser projectado.
É relevante salientar que Nietzsche denuncia a mentira da “ordem moral do mundo”. Diz ele: “Que significa «ordem moral do mundo»? Que existe, de uma vez por todas, uma vontade de Deus, acerca do que o homem deve ou não fazer; que o valor de um povo, de um indivíduo, se avalia em conformidade com a sua maior ou menor obediência à vontade de Deus” (§26).
Poderemos ver aqui uma oposição entre “ordem moral do mundo” (cristianismo) e moral secular. Mas existirá na realidade tal oposição?
A religião cristã propõe um ideal de vida, uma moral. Contudo, o cristianismo não é primeiramente um sistema moral, mas um sistema religioso. Caracteriza-se sobretudo pela adesão a Cristo, que não sendo uma moral, inclui uma moral, ou seja, o amor ao próximo, e o amor a Deus.
Reflectindo ingenuamente pode-nos parecer incompatível a ética religiosa com a ética secular ou humana, uma vez que a lei não vem do homem, mas sim fora dele. Esta concepção é errada, pois, o criador apesar de ser outro, não é exterior ao homem, mas antes radicalmente imanente. Deus não é de alguma forma exterior ou rival. Assim, a Sua lei não é outra lei do mesmo nível. A lei moral natural é a participação formal da lei divina na criatura.
O cristianismo não quer de maneira nenhuma aniquilar a moral secular. O cristianismo deixa subsistir a moral humana, mas transfigura esta moral. Deste modo, o cristianismo assume a lei moral, funde a autonomia humana e põe-na no seu lugar quando esta tende a idolatrar-se.
A moral de uma acção não tem primariamente a ver com verdades da fé, mas com Direitos Humano. Pois, o sentido moral é anterior a qualquer revelação divina. E a moral religiosa pressupõe, como indispensável condição de possibilidade, a moral humana. Deste modo, qualquer norma moral que se possa considerar como presente na revelação, só o será para o crente se este em consciência a considerar como tal. Concomitantemente, é preciso atender que não podem ser objecto de definição dogmática opiniões morais operativas concretas.
Constamos, então, que a moral religiosa não invalidada a moral racional. Pois, mesmo uma ordem directamente recebida de Deus só se apresentará como vinculante para quem perceba que deve obedecer-lhe; isto é, perceber que isso é que é bem e o contrário mal, sendo o bem para se fazer e o mal para evitar.
Em suma, para além de Descartes (pelo animal como máquina) e de Pilatos (o que é a verdade?), Nietzsche apenas vê uma terrível maldade no cristianismo a começar por Paulo. Diz Nietzsche: “chamo ao cristianismo a última grande calamidade, a única grande depravação interior, o único grande instinto de vingança, para o qual nenhum meio é suficiente venenoso, sub-reptício, subterrâneo, baixo – chamo-lhe a única nódoa imortal da humanidade…”
Nietzsche influenciou plenamente a contemporaneidade. Por isso não é de estranhar ver pessoas como Richard Dawkins[6] e Daniel Dennett a verem só na religião maldade, atrocidades, negação da vida, até lhe chamam o “vírus” da humanidade. Mas, na realidade é preciso estar completamente cego para não ver na religião nada mais que maldade! Pelo contrário religião não é maldade, mas relação entre todos os seres em Deus. A religião é o estabelecer de novo a ligação entre todos os seres humanos em Deus. Se é um estabelecimento de uma ligação entre todos, a religião não pode então desfavorecer essa mesma ligação. Assim, religião não pode estar conotada com guerra, violência, sofrimento, egoísmo, crueldade, pois, são atitudes que comprometem negativamente a ligação entre todos. Para se estabelecer a ligação entre todos, e o que se manifesta verdadeiramente como religião, é o altruísmo, o dar-se aos outros, o ser com o outro e no outro, a entrega, a alegria, a vida, e sobretudo o amor – o amor a todos os seres humanos e a Deus. Só assim poderá se efectuar uma verdadeira ligação (relação, re-ligação, religião) entre todos em Deus. E Deus não pode ser associado à vingança ou mesmo ao ódio e à violência. Isso não é Deus. Pelo contrário “Deus é amor, e quem permanece no amor permanece em Deus e Deus nele”[7].

[1] P.40
[2] Cf. http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/letters/1988/documents/hf_jp-ii_let_19880601_padre-coyne_en.html
[3] Ideologia é, por exemplo, cair no cientificismo. Ou seja, excluir todas as outras visões do mundo para além da ciência. Ver a ciência como único e absoluto conhecimento válido.
[4] Cf. ACHER, Luís – “Ciência e Religião – Uma nova perspectiva”. In: Brotéria 135 (1992), pp. 34-45.
[5] ACHER, Luís, op. cit., p. 41.
[6] Cf. http://filedu.com/rdawkinsaimprobabilidadededeus.html
[7] 1 Jo 4, 16.


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