24/08/2009

Angústia e Desespero


KIERKEGAARD E O MAL
(Angústia e Desespero)
a) Pensamento de Kierkegaard relativamente ao mal
Paul Ricoeur em “A Região dos Filósofos” apresenta um texto intitulado de “Kierkegaard e o mal” [1], onde nos expõe o pensamento de Kierkegaard e a sua concepção de mal.
A questão apresentada é a seguinte: porquê o mal? Reflecte-se sobre o mal, pois, este representa uma incomparável “pedra de toque” no debate entre Kierkegaard e o sistema (Hegel). Do mesmo modo, o mal é também a ocasião para surpreender a qualidade do cristianismo de Kierkegaard (ou seja, o cristianismo da cruz). É de salientar também o facto de Kierkegaard falar e pensar sobre o mal, ou seja, sobre aquilo que há de mais oposto ao sistema.
Para compreendermos melhor esta questão Ricoeur aconselha-nos a ver dois tratados de Kierkegaard: “O conceito de angústia” (1844), e “A enfermidade mortal” (1849). Ricoeur considera que estes dois tratados têm em comum o facto de serem edificados sobre a base de does sentimentos (negativos): a angústia e o desespero. Então deve-se partir do que nos pode ser ensinado por esses dois sentimentos[2], tendo por objectivo descobrir uma qualidade e dimensão do pecado. É relevante sublinhar que a determinação do mal faz-se inteiramente na órbita desses dois sentimentos, sendo o conceito de mal diferente em cada um dos tratados.
b) Angústia
A angústia desemboca no conceito do pecado-evento ou surgimento; é uma espécie de deslocamento, de fascinação na qual o mal se encontra circunscrito. Portanto, é anti-hegeliana: salto, surgimento, evento; rompendo-se a mistura equivoca da ética e da lógica. Deste modo, o conceito de pecado não encontra lugar em nenhum conhecimento, só a segunda ética (que segue a dogmática, que conhece o real do pecado) pode tratar as suas manifestações, não as suas origens.
Existe o paradoxo do começo. Como é que o pecado entra no mundo? Por um salto que se pressupõe a si mesmo na tentação. Então, a angústia é esse intermediário entre a inocência que se perde e um salto que procede.
Do mesmo modo, a angústia é a realidade da liberdade, pois, é a sua possibilidade… (nada, possibilidade, liberdade). Assim, o “interdito” inquieta Adão, pois, desperta nele a possibilidade da liberdade, (o nada se torna possibilidade de poder).
É importante referir que Kierkegaard é o dialéctico da antidialéctica, ou dialéctica rompida, ou paradoxos… Homem como síntese de corpo e alma, reunidos no terceiro termo (espírito). Esse espírito que é “poder inimigo” e “potência amiga”… Angústia que desce do espírito à sexualidade, do sonho à carne… sendo assim que o pecado entra no mundo, faz-se no mundo.
Em suma, a angústia “ex-siste”, ou seja, tende para... falando do mal como de um evento, de um salto.
c) Desespero
Vemos o conceito de desespero n’ “A enfermidade mortal”. Ao contrário da angústia, o desespero estabelece-se no núcleo do pecado, não mais como um salto, mas como um estado de coisas; ou seja, é o mal do mal, o pecado do pecado. Deste modo, o desespero ao falar do mal como de um estado de coisas saliente que o desespero “in-siste”, ou seja, reside em… Situando, do mesmo modo, a significação da fé e do pecado além da esfera ética. Pois, Kierkegaard considera que pecado não é contrário da virtude, mas da fé (que é uma categoria teológica). Kierkegaard entende fé como a maneira de ser diante de Deus.
Como podemos constatar no texto de Ricoeur, o filosofo Kierkegaard constrói e descobre o pecado no desespero. Portanto, pecado não é mais um salto, mas um estado estagnante, uma maneira insistente de ser. Deste modo, desespero é pecado; pecado que não é uma negação, mas uma posição.
Kierkegaard também defende que a possibilidade do desespero reside na possibilidade do desacordo (na fragilidade dessa relação que se reposta a si). Então o desespero existe, pois, insiste nas figuras da não-relaçao. Assim, o desespero é o desacordo no seio de uma síntese que se reporta a si mesma.
Mas, de onde vem o desespero? Da relação na qual a própria síntese se reporta quando Deus, tendo feito do homem a relação, a síntese que ele é, deixou-o por assim dizer escapar da sua mão (quando a relação se reporta a si mesma). A derrelição é o aspecto reflexivo desse abandono por Deus, que deixa a relação se desenvolver como se escapasse de suas mãos. Deste modo, a falta de infinitude, a estreiteza de uma vida medíocre, a perda de horizonte são possibilidades muito concretas descobertas por qualquer um que ressinta a sua própria existência como a de uma pedra solta sobre a margem ou de um número perdido na multidão.
É importante salientar que Kierkegaard considera que o pior desespero é o desespero que ignora ser desespero. Desespero de não querer ser ajudado.
d) Questão do pecado
Para Kierkegaard pecado não é uma realidade ética, mas uma realidade religiosa. Assim, enquanto a angústia é movimento para… o desespero é pecado. Pois, para a existência poética, o pecado é um estado, uma condição, uma maneira de ser, uma posição.
Neste contexto, o conceito de pecado é definitivamente transportado da esfera ética da transgressão à esfera religiosa da não-fé. Portanto, pecado é o poder da fraqueza, e a fraqueza da não-fé. Concebe-se, assim, o pecado não como contrário da virtude, mas da fé. Deste modo, Kierkegaard defende que o pecado é a nossa maneira ordinária de ser diante de Deus… (sendo uma possibilidade ôntica do homem).

[1] Cf. RICOEUR, Paul – “Kierkegaard e o mal”. In: A Região dos Filósofos. São Paulo: Loyola, 1992, pp. 15-27.
[2] Pois, como afirma o texto: “partir do mal conhecido seria partir de uma definição puramente moral da culpabilidade, como transgressão da lei, como infracção”.


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