25/08/2009

Acerca da Verdade e da Mentira no Sentido Extramoral



Referências ao texto: “Acerca da Verdade e da Mentira no Sentido Extramoral”

Para Nietzsche, a linguagem é uma estrutura de dissimulação, uma estrutura que cria ilusões sobre a humanidade que não diz nada sobre a realidade. A origem da verdade deve-se a interesses de sobrevivência (não podemos viver todos contra todos), é algo que permite ter uma vida social estável.
Não está interessado com a verdade em si, pois, trata-se de uma convenção. Mas porque se dá a passagem para os conceitos fixos? Nietzsche refere que a linguagem, como é mecanismo de dissimulação, esquece o impulso básico da metáfora, da dimensão criativa. Mas, o humano não consegue captar as coisas em si, a língua é uma convenção; não aprendemos as coisas em si. É chamado arrogante que julgar que conhece as coisas em si. Portanto, o homem fixa conceitos porque quer aprender as coisas em si, esquecendo-se de si enquanto sujeito criador e artista. Porém, nos conceitos universais eliminamos as diferenças, o conceito é um eliminador dos particulares.
Portanto, o intelecto é pura fantasia, dissimulador do homem criador. O homem intuitivo tem que enfrentar isso, pois, a arte diz-nos mais do que a ciência. Então, o impulso básico do homem é ser um criador de metáforas; no entanto, o investigador da verdade esquece-se do homem enquanto criador de metáforas. Mas, a verdade é uma metáfora, ou seja, intuições originárias que cada um constrói, que pode ir contra as convenções sociais.
Assim, a linguagem conceptual é esquecimento do homem, e a abordagem científica constitui uma morte do homem intuitivo. Deste modo, é importante a origem convencional da linguagem e conhecimento.
Nietzsche refere, então, o papel da linguagem como uma forma de mascarar, ilusão, engano, como nossa conceptualização da realidade. A linguagem é uma máscara, pois, procura o universal; uma vez que a dimensão conceptual é enganadora. Pois, o universal permite-nos falar de tudo o que entra num determinado contexto, mas elimina o concreto e intuitivo. Assim, o homem como ser racional mascara o que é o homem. Os conceitos são uma simplificação da realidade que não nos deixam ver a realidade como ela é.
Existe o confronto entre duas pulsões que se contrapõe: por um lado, é a força da conceptualização (Sócrates), com a busca de conceitos universais, que mata o impulso da individualidade, numa dicotomia da realidade (bem/mal). Por outro lado, a força do apolínio e dionisíaco simbolizam aquilo que é vida (bem e mal, etc). Assim, o homem socrático (conceptual) nega a vida. Cria um mundo conceptual de fuga à vida. No entanto, assumir a realidade na sua plenitude, para Nietzsche, é apolínio e dionisíaco (ou seja, enfrentar a vida de frente, sem dicotomias), procurando um sentido extramoral (pois, moralizar já é dicotomizar a realidade). Então, a verdade extramoral está para além dos dualizadores. Portanto, a verdade é uma construção metafórica e antropomórfica e nem é boa, nem é má.
Em suma, a linguagem para Nietzsche tem uma cariz dissimulador, permite uma apropriação do real, mas que em grande parte é uma ilusão (porque na realidade, é uma realidade construída por nós). O ser humano é um ser poético (criador de metáforas) que nem é boa, nem má. O problema está na linguagem que vai camuflando a poética.
Algumas passagens mais relevantes do texto[1]:
clip_image001 “De onde (...) vem nesta constelação o impulso da verdade?”
clip_image001[1] “Na medida em que o indivíduo se quer conservar (...)”.
clip_image001[2] “Julgamos saber algo das próprias coisas quando falamos de árvores, cores, neve, flores e, no entanto, não dispomos senão de metáforas das coisas que não correspondem de forma alguma às essencialidades primordiais”.
clip_image001[3] “Todo o conceito emerge da igualização do não igual (...) o descurar do individual e do real dá-nos o conceito”.
clip_image001[4] “Que é então a verdade? Uma exercício móvel de metáforas, de metonímias, de antropomorfismos, numa palavra, uma soma de relações humanas que foram poética e retóricamente intensificadas, transportadas e adornadas e que depois de um longo uso parecem a um povo fixas, canónicas e vinculativas: as verdades são ilusões que foram esquecidas enquanto tais, metáforas que foram gastas e que ficaram esvaziadas do seu sentido, moedas que perderam o seu cunho e que agora são consideradas, não já como moedas, mas como metal”.
clip_image001[5] “Ser verdadeiro, isto é, utilizar as metáforas usuais, portanto, expresso de uma maneira moral, da obrigação de mentir segundo uma convenção estabelecida, de mentir de um modo gregário, num estilo vinculativo para todos. Ora, é certo que o homem esquece que isso se passa com ele”.
clip_image001[6] “(...) cada metáfora da intuição é individual e ímpar e, assim, sabe escapar a toda a classificação, o grande edifício dos conceitos”.
clip_image001[7] “Pode-se admirar aqui o homem como um imenso génio construtor, o qual consegue, sobre fundações movediças e como sobre água corrente, a edificação de uma catedral de conceitos infinitamente complicada”.
clip_image001[8] “Verdade (...) ela é do princípio ao fim antropomórfica e que não contém um único que seja 'verdade em si', real e universalmente válido, a não ser para o homem”.
clip_image001[9] “O seu procedimento é tomar o homem como medida de todas as coisas: desse modo, no entanto, ele parte do erro de acreditar que tem essas coisas imediatamente perante si, como puros objectos. Esquece pois as metáforas intuitivas originais enquanto metáforas e toma-as pelas próprias coisas”.

[1] Nietzsche, F. - “Acerca da Verdade e da Mentira no Sentido Extramoral”. In: Obras Escolhidas de Nietzsche. Vol. 1. Lisboa: Círculo de Leitores, 1996, pp. 215-232.

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