08/07/2009

UM CRISTIANISMO ARISTOTÉLICO - Análise de “O Ente e a Essência”


“Eu Sou Aquele que Sou”[1]

1. Introdução

No final da Idade Média, ainda numa mundividência claramente cristã, alguns autores adoptaram o pensamento aristotélico como base dos seus sistemas de pensamento. Vamos estudar uma obra de Tomás de Aquino, a qual foi o exemplo mais relevante neste contexto.

Ao constatarmos este panorama surgiu-nos uma questão: será que este pensamento aristotélico ajudou ou não na compreensão e clarificação do cristianismo?

Como forma de resposta a este problema decidimos analisar a obra “O Ente e a Essência” de Tomás de Aquino, a fim de averiguarmos elementos da filosofia aristotélica aplicados à teologia; vendo, assim, se contribuiu ou não para uma melhor compreensão do cristianismo.

Começaremos pela explicação dos termos “ente e essência” para entrarmos com mais facilidade no seu pensamento. Trataremos, do mesmo modo, a relação dos termos explicados, os quais possibilitam uma variedade de substâncias. Por fim, vamos identificar ser e essência plenamente com Deus.

2. Significado de Ente e Essência[2]

Como todos os filósofos, também Tomás de Aquino tem uma terminologia própria, afim de alcançar uma melhor explicação da realidade. Na obra que estamos a analisar existem dois termos que são indispensáveis para a compreensão de toda a filosofia tomista: o “ente” e a “essência”.

Segundo Tomás de Aquino “o sentido estrito de ente é afirmado de dois modo: do primeiro modo é o que se divide pelas dez categorias; do segundo, o que significa a verdade das proposições”[3].

Portanto, o primeiro modo de dizer “ente” corresponde ao modo real, isto é, a algo que existe realmente, exprime o acto de ser; existe por si realmente, não é uma definição do real[4]. Este acto de existir realmente comporta também três modos de ser: “o essencial, aquele que faz de uma coisa aquilo que ela é e sem o qual ela deixa de ser o que substancialmente é; o acidental, aquele que uma coisa pode dispensar sem deixar por esse facto de ser o que é; e o real, no sentido da substância ou substante (o indivíduo existente)”[5].

O segundo modo de dizer “ente” corresponde ao modo lógico. Ou seja, é tudo aquilo de que é possível formar uma proposição afirmativa, mesmo que isso não corresponda à verdade. Deste modo, não significa uma realidade existente, mas sim uma forma de pensamento[6]. Por exemplo: “a cegueira é na vista”[7].

Vamos tomar apenas a acepção de “ente” no primeiro modo, pois, é a única que nos interessa para o esclarecimento da filosofia tomista.

Do mesmo modo, temos o termo “essência”. Concebida unicamente significa uma potência ou a capacidade de ser. Essência relaciona-se com o conceito, o qual não tem obrigatoriedade de existência. Assim, consigo perceber a essência de sereia sem saber se ela existe. Podemos dizer que essência é aquilo que caracteriza. Tomás de Aquino afirma que é “o que faz com que uma coisa seja aquilo que é”[8], portanto, é o que se exprime quando definimos algo. O autor utiliza também algumas formas de designar essência: quididade, forma, e natureza. A “quididade” é o que faz que uma coisa seja aquilo que é. Pela “forma” se significa a verdade de cada coisa. E a “natureza” que é tudo o que de qualquer maneira o intelecto pode captar[9].

Verificamos, deste modo, que essência e existência são termos diferentes.

3. Relação de Ente e Essência[10]

Pelo facto de ente e essência terem significados diferentes não significa que não possa existir uma relação entre eles.

O que nos interessa agora explicar é como se relacionam ente e essência, e o que resulta dessa relação. Deste modo, a relação e união de ente e essência origina a passagem da potência ao acto, o que significa que um determinado conceito é tornado em existência real, isto é, possibilita as substâncias. Pois, “é em sentido absoluto e primordial que o ente se afirma das substâncias, e (…), é que a essência, própria e verdadeira, se encontra nas substâncias”[11].

Portando, essência é uma potência de ser, e o ser é a actuação da essência. A essência determina o ser, define-o, configura-o, limita-o, segundo o modo por que o acto é determinado pela potência. O ser actua a essência: põe a essência em acção; assim, qualquer forma concreta não se entende em acto senão enquanto é posta a ser. Pela essência o ente é tal ente, pelo ser o ente é o ente. Essência é o princípio que divide e multiplica; ente é o princípio que une entre si todos os entes. Portanto, “é sendo que tudo se une”[12].

E pela união dos dois possibilitam as substâncias, pois, “ser e essência são dois princípios constitutivos de todo o ente finito e fundamentam metafisicamente a distinção entre o finito e o infinito”[13].

4. Ente e Essências nas Substâncias[14]

Como vimos no ponto anterior a união de ente e essência possibilitam as substâncias. De um modo geral substância significa o que verdadeiramente é, o ser concreto, individual. Tomás de Aquino dá um significado próprio à substância, retomando e aperfeiçoando os ensinamentos aristotélicos. Assim, substância é em si, subsiste em si e por si e é sujeito em relação aos acidentes[15].

Na obra em análise, Tomás de Aquino faz uma distinção entre substâncias compostas e simples, e examina o modo como nelas a essência se dá.

4.1 Substâncias compostas[16]

A essência das substâncias compostas compreende simultaneamente a matéria e a forma. “Não se pode, porém, dizer que apenas um ou outro desse compostos é que é a essência”[17]. Portanto, nas substâncias compostas a essência é a matéria e a forma, e é segundo a essência que se diz que uma realidade existe, é pela ou numa essência que o ente recebe o existir; por isso, é necessário que essência diga respeito a ambos os elementos[18].

Nas substâncias compostas, matéria é “aquilo pelo qual uma realidade está em acto”[19]. Do mesmo modo, é o princípio de individuação, “não é a matéria considerada de qualquer modo, mas unicamente a matéria delimitada”[20], ou seja, aquela matéria que tem uma determinada dimensão. Por outro lado, temos a matéria não-delimitada, a qual se refere ao mais abstracto e universal. Assim, por exemplo, Sócrates refere-se à matéria delimitada, enquanto que homem se refere à matéria não delimitada[21].

Também, no âmbito da matéria podemos constatar conceitos relacionados com género, diferença e espécie, os quais poderão delimitar mais ou menos a matéria consoante o grau de abstracção ou de individuação. Por exemplo, vamos considerar a essência de “homem” que é “animal racional”. “Animal” é o género, o qual significa tudo aquilo que está na espécie. Mais concretamente é tomado da matéria, e exprime a natureza de uma realidade sem determinação de uma forma especial. “Racional” é a diferença, é tomado da forma, e é a determinação de uma forma especial. Género e diferença são o que constitui a espécie[22].

A forma é o outro elemento das substâncias compostas. É o acto da matéria, princípio de ser, que dá a perfeição a uma coisa. Forma é o que é todo, mas exclui os elementos pelos quais a matéria se encontra delimitada[23].

Em suma, existir das substâncias compostas é recebido e finito (recebem o existir a partir de outro). A sua essência é recebida na matéria delimitada. São substâncias totalmente finitas. Mas, a multiplicação de indivíduos é possível numa mesma espécie (devido à matéria delimitada)[24].

4.2 Substâncias simples[25]

As substâncias simples são formas que são inteligíveis em acto, enquanto se separam da matéria e dos seus condicionamentos. Portanto, numa substância intelectiva tem que haver imunidade absoluta de matéria[26], são substâncias incorpóreas, não quantificadas ou materialmente delimitadas.

Assim, na alma, como na inteligência, há composição de forma (essência) e de existência. Ao contrário das substâncias compostas, a essência das substâncias simples é apenas forma; e esta realidade simples só se pode significar como um todo. Do mesmo modo, “a essência do ser simples não é recebida na matéria, não pode haver nela tal multiplicação”. Por conseguinte, “não se encontram vários indivíduos de uma mesma espécie, mas quantos indivíduos nelas houver tantas serão as espécies”[27].

Estas substâncias têm uma mistura de potência. Pois, não são uma simplicidade absoluta, nem um acto puro. Assim, “é necessário que toda a realidade cujo existir é diverso da sua natureza exista a partir de outro”, é portanto “necessário que haja uma realidade que seja a causa do existir de todas as outras”. Pois, toda a realidade existente não tem uma existência substancial, mas a partir de outro. E é por isso que nas inteligências se encontram a potência e o acto. Potência quanto ao existir que recebe; está em potência em relação a esse outro. Esse existir da inteligência é recebido à maneira de acto; aquilo que é recebido nele é o seu acto[28].

Em suma, o existir distingue-se da essência. O seu existir não é absoluto, mas recebido, limitado e finito. Mas, a sua essência é absoluta, pois, as suas formas não se limitam à capacidade de qualquer matéria que as receba[29].

5. Identificação de Ente e Essência com Deus[30]

Como podemos ver nos tópicos anteriores, a realidade diversa existe através da diferenciação e união de ente e essência. Não é uma existência em si mesma subsistente, mas causada a partir de outro. Esse outro é Deus.

Em Deus não existe qualquer composição, pois, a essência é o seu próprio existir, nem entra em nenhum género, porque tudo o que entra num género tem de ter quididade[31]. Deus é um ser incriado. O único ser no qual essência e existência se identificam. Nas criaturas essência e existência são diferentes; em Deus não há essa diferença, pois, n’Ele a essência obriga a existência. Ele é tão-somente existir, não podendo receber qualquer adição. Deste modo, pela sua própria pureza, Deus é um existir que se distingue de todo o demais existir. Deus existe em plenitude, “tem todas as perfeições que se encontram em todos os géneros chamando-lhe por isso o absolutamente perfeito”. É por isso que Deus revelou o seu nome em termos de “Eu Sou Aquele que sou”. Portanto, Deus é o ser subsistente em si mesmo[32].

Assim, constatamos a necessidade de existir nas criaturas a diferença entre ente e essência, para distinguir as criaturas e Deus. Como já foi referido anteriormente as criaturas adquirem existência real quando se dá a união de ente e essência, que é a passagem da potência ao acto, e a qual requer a intervenção criadora de Deus. Ele é o ser que dá existência, só Deus dá o ser. E como o ser é o que está no mais íntimo em todas as coisas, resulta que todas as coisas participam de determinada forma no ser de Deus[33].

Esta concepção origina uma hierarquia do mundo (dos seres). E quanto mais participamos de Deus, mais elevado estaremos na hierarquia[34]. Por exemplo, a inteligência superior, que está mais próxima do primeiro ser, tem mais acto e menos potência[35]. Deus é o princípio e o fim da hierarquia.

6. Comentário Pessoal

Após a análise da filosofia tomista na obra “O Ente e a Essência” retomamos a questão: “será que pensamento aristotélico ajudou na compreensão e clarificação do cristianismo?”

Sim, de facto ajudou numa melhor compreensão de Deus e das criaturas, bem como do cosmos que nos envolve. Pareceu-nos que o esquema do pensamento aristotélico é similar e não contradiz o cristianismo. Deste modo, Tomás de Aquino não teve muita dificuldade em cristianizar o aristotelismo; pois, este é um sistema com lógica, onde tudo está no ser lugar, cada coisa tem que cumprir o seu papel específico, o cosmos tem sentido e finalidade. Características que não comprometem em nada o cristianismo. Do mesmo modo, a terminologia aristotélica, como: potência, acto, matéria, forma, ser, essência, substância, acidentes, género, espécie, entre outros… ajudaram na compreensão e clarificação racional de algumas dimensões da fé. Por exemplo, “o ser, entendido nesta absolutidade inultrapassável e infinita na sua exclusiva actualidade actuante, oferece, ao universo cristão, o momento supremo de inteligibilização, precisamente ao ser tomado como nome de Deus”[36].

Tomás de Aquino apenas teve que corrigir alguns pormenores. Por exemplo, se seguisse literalmente o pensamento aristotélico não se fazia a diferença entre forma (essência) e existência, o que colocava em causa o acto de criação, pois, as formas (essências) tinham que existir desde sempre. Contudo, Tomás de Aquino fez a distinção entre essência e existência, para que a constituição das substâncias finitas exige-se a criação divina.

Contudo, também penso que o aristotelismo ajudou na desvirtuação do cristianismo, de fazer dogma aquilo que talvez não seja dogma[37]. Apesar de tudo é preciso atender à mundividência da época.

7. Conclusão

Pensamos que foi uma boa metodologia iniciar pela significação dos termos “ente” e “essência”. Ao percebermos que “ente” refere-se ao acto de ser, e “essência” à potência ou capacidade de ser, ajudou-nos a entrar mais facilmente nesta obra e a compreender o pensamento tomista. Por conseguinte, analisamos a relação e união de “ente” e “essência” que possibilita as substâncias (a realidade diversa). Esta pode-se dividir em substâncias compostas e simples. As compostas referem-se ao composto de matéria e forma, por outro lado, as simples possuem simplesmente forma. Mas, para as substâncias existirem realmente têm que receber a existência de outro. Esse outro é Deus, que existe em plenitude, é o ser subsistente em si mesmo, onde “ente” e “essência” se identificam completamente.

O objectivo central foi cumprido. De facto, com esta obra, facilmente nos apercebemos que o pensamento aristotélico (com as suas características e terminologias) ajudou na compreensão e clarificação do cristianismo.

Foi um trabalho proveitoso, por nos ajudar a resolver o problema inicial, mas também por nos dar uma visão global do tomismo que predominou no final da Idade Média.

No futuro gostaríamos de procurar melhor aquilo em que o aristotelismo não favoreceu, e mesmo contribuiu para a desvirtuação do cristianismo.

Bibliografia

AA. VV. – Logos – Enc. Luso-Brasileira de Filos. Vol. 1-5. Lisboa: Verbo, 1989-1992.

AQUINO, Tomás de – O ente e a essência. Trad. do latim e introd. de Mário A. Santiago de Carvalho. Porto: Contraponto, 1995.

CAYETANO, Tomas – Del ente y de la esencia – Comentarios. Caracas: Ediciones de la Biblioteca, 1974.

LALLEMENT, D. J. – Comentaire du De Ente et Essentia. Préf. Robert Lahaye. Paris: Pierre Téqui, 2001.



[1] Bíblia Sagrada - Ex 3, 14

[2] Ver anexo 1.

[3] AQUINO, Tomás de – O ente e a essência. Trad. do latim e introd. de Mário A. Santiago de Carvalho. Porto: Contraponto, 1995, p. 71.

[4] Cf. LALLEMENT, D. J. – Comentaire du De Ente et Essentia. Préf. Robert Lahaye. Paris: Pierre Téqui, 2001, p. 124.

[5] AQUINO, Tomás de, op. cit., p.22.

[6] Cf. LALLEMENT, D. J., op. cit., p. 126.

[7] AQUINO, Tomás de, op. cit., p. 71.

[8] AQUINO, Tomás de, op. cit., p. 72.

[9] AQUINO, Tomás de, op. cit., p. 72.

[10] Ver anexo 2.

[11] AQUINO, Tomás de, op. cit., p. 72.

[12] Cf. AA.VV. – “Ser”. In: Logos – Enc. Luso-Brasileira de Filos. Vol. 4. Lisboa: Verbo, col. 1052-1059.

[13] PIRES, Celestino – “Essência”. In: Logos – Enc. Luso-Brasileira de Filos. Vol. 2. Lisboa: Verbo, col. 256-259.

[14] Ver anexo 3.

[15] Cf. PIRES, Celestino – “Substância”. In: Logos – Enc. Luso-Brasileira de Filos. Vol. 4. Lisboa: Verbo, col. 1329-1333.

[16] Ver anexo 4.

[17] AQUINO, Tomás de, op. cit., p. 73.

[18] AQUINO, Tomás de, op. cit., pp. 73-74.

[19] AQUINO, Tomás de, op. cit., p. 73.

[20] AQUINO, Tomás de, op. cit., p. 75.

[21] AQUINO, Tomás de, op. cit., pp. 75-76.

[22] AQUINO, Tomás de, op. cit., pp. 75-80.

[23] AQUINO, Tomás de, op. cit., p. 81.

[24] AQUINO, Tomás de, op. cit., p. 96.

[25] Ver anexo 5.

[26] AQUINO, Tomás de, op. cit., p. 86.

[27] AQUINO, Tomás de, op. cit., pp. 88-89.

[28] AQUINO, Tomás de, op. cit., pp. 90-92.

[29] AQUINO, Tomás de, op. cit., p. 94.

[30] Ver anexo 6.

[31] AQUINO, Tomás de, op. cit., p. 52.

[32] AQUINO, Tomás de, op. cit., p. 92-93.

[33] Cf. AA.VV. – “Ser”. In: Logos – Enc. Luso-Brasileira de Filos. Vol. 4. Lisboa: Verbo, col. 1052-1059.

[34] Ver anexo 7.

[35] AQUINO, Tomás de, op. cit., p. 91.

[36] AA.VV. – “Ser”. In: Logos – Enc. Luso-Brasileira de Filos. Vol. 4. Lisboa: Verbo, col. 1052-1059.

[37] Por exemplo: hierarquia dos seres muito rígida; o cosmos muito organizado, onde tudo tem o ser lugar, no qual a terra está no centro.



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