08/07/2009

Problema da Natureza Dessacralizada


“A experiência de uma Natureza radicalmente dessacralizada é uma descoberta recente”[1].

Até que ponto será proveitoso desrespeitar a natureza? Será licito dominar a natureza? “A promessa da dominação da natureza para a pôr ao serviço do homem redundou numa exploração excessiva dos recursos naturais e no consequente perigo, cada vez mais iminente, de uma catástrofe ecológica”[2]. Portanto, tendo em conta os malefícios do domínio da natureza, não será melhor voltar a um respeito, que se pode adquirir, por exemplo, através da sacralização?

Deste modo, constatando a relevância deste problema, penso que é necessário voltar a sacralizar a natureza, ou seja, ter um maior respeito por ela.

O homem primitivo tinha um enorme respeito pela natureza, considerava-a sagrada. Assim, ele procurava ir ao encontro do cosmos, o mundo ordenado, que é obra dos deuses e é onde o sagrado se manifestou desde sempre, afim de se sentir em paz e em segurança no mundo. Então, o homem primitivo sente-se em dívida para com os deuses; é aos deuses que o homem deve aquilo que é[3]. Portanto, o homem primitivo achava que não podia dominar a natureza para não voltar ao caos originário. Pois, todo o ataque exterior ameaça transformar o cosmos em caos[4].

Do mesmo modo, o homem primitivo considera o cosmos como um “organismo real, vivo e sagrado”[5], o qual deve ser respeitado e não dominado. Também Platão concebe o cosmos como “um ser vivo, provido de alma e de pensamento”[6]. Visualizamos, assim, um cosmos repleto de sentido.

Contudo, todo este esquema idealizado pelo homem primitivo não é uma ilusão, uma vez que está suportado pelo mito? O cosmos é necessariamente um ser vivo? Não poderá ser de uma outra substância?

De facto, muitos autores consideram que o mito tem um suporte frágil. O mito é mesmo comparado com as “atitudes mentais da criança”, assim, “as primeiras ideias que os homens forjam em relação à natureza assemelham-se a estas imagens da criança”[7]. Ao elaborarmos concepções em fundamentos míticos podemos estar no reino da magia, da ficção, e não no reino da realidade. Por isso, todas as concepções do homem primitivo em relação à sacralidade da natureza poderão estar erradas, e talvez não exista um cosmos ordenado pelos deuses. Assim, é-nos permitido dominar a natureza, uma vez que não existe a possibilidade dos deuses nos castigarem, nem de voltarmos ao caos originário.

O mesmo se passa com a concepção de cosmos enquanto ser vivo. “Em vez de constituir um organismo, o mundo natural é para a Renascença uma máquina”[8]. A partir do século XVI o cosmos é visto como uma máquina, sem qualquer significado, sendo um mero instrumento nas mãos do homem. Portanto, o homem pode dominar a natureza sem qualquer problema.

Mas, o mito não significa um relato literal do como e do porquê do surgimento de determinada essência. Não é algo irreal ou fantasioso. Existe claramente uma realização racional, uma projecção das necessidades humanas na natureza, para se divulgar, por conseguinte, regras sociais, ideias de socialização. Pretende-se transmitir uma mensagem de respeito para com a natureza, onde se poderá usufruir dela, mas não a dominar.

Devido à visão moderna sobre o cosmos, surgiu a ideia de evolução, a qual é incompatível com a ideia de máquina formulada pela Renascença. Pois, “Algo que está em desenvolvimento pode criar máquinas mas não pode ser uma máquina”[9]. Desenvolvimento significa “vir a ser aquilo que ainda não é”, por exemplo, “um gato pequeno luta para chegar a ser um gato adulto”. Portanto, o cosmos está em mudança, em desenvolvimento. Assim, surge de novo a ideia de teleologia[10].

Segundo as minhas crenças de controle, é mais vantajoso sacralizar a natureza. Sacralização não deve ser entendida à maneira dos gregos, nem do homem primitivo, constituindo, por conseguinte um retrocesso no conhecimento. Mas, deve ser entendida como respeito e pertença à natureza, que nos permite usufruir e não dominar a natureza.

Ora, se o que o mito defende é bom. Se o cosmos tem um desenvolvimento próprio. Se o desrespeito e domínio pela natureza traz malefícios. Logo, existe a necessidade de voltar a sacralizar a natureza.

Bibliografia

COLLINGWOOD, R. G. – Ciência e Filosofia. 5ª ed. Lisboa: Presença, 1986.

ELIADE, Mircea – O Sagrado e o Profano. Trad. de Rogério Fernandes. Lisboa: Livros do Brasil, s. d.

FARIA, Domingos“A Religião Primitiva e a Origem do Estado”. In: IDEM – DomingosFaria.net..http://domingosfaria.vimacopia.com/Relig_Prim_e_Orig_Est.pdf .

LENOBLE, Robert – História da Ideia de Natureza. Lisboa: Edições 70, 1990.

LOGOS – Enc. Luso-Brasileira de Filos. Vol. 1-5. Lisboa: Verbo, 1989-1992.

PLATÃO – Timeu. Trad. de Maria José Figueiredo. Lisboa: Instituto Piaget, 2003.

SANTOS, B. – "Ciência". In: CARRILHO, M. M. (Dir.) – Dicionário do Pensamento Contemporâneo. Lisboa: Dom Quixote, 1991.



[1] ELIADE, Mircea – O Sagrado e o Profano. Trad. de Rogério Fernandes. Lisboa: Livros do Brasil, s. d.,

p. 121.

[2] SANTOS, B. – "Ciência". In: CARRILHO, M. M. (Dir.) – Dicionário do Pensamento Contemporâneo. Lisboa: Dom Quixote, 1991, p. 25.

[3] Cf. FARIA, Domingos – “A Religião Primitiva e a Origem do Estado”. In: IDEM – DomingosFaria.net. http://domingosfaria.vimacopia.com/Relig_Prim_e_Orig_Est.pdf – Acedido em 14 de Maio de 2007.

[4] Cf. ELIADE, Mircea, op. cit., pp. 46-47.

[5] Cf. ELIADE, Mircea, op. cit., pp. 95.

[6] PLATÃO – Timeu. Trad. de Maria José Figueiredo. Lisboa: Instituto Piaget, 2003, p. 68.

[7] LENOBLE, Robert – História da Ideia de Natureza. Lisboa: Edições 70, 1990, p. 40.

[8] COLLINGWOOD, R. G. – Ciência e Filosofia. 5ª ed. Lisboa: Presença, 1986, p. 11.

[9] COLLINGWOOD, R. G. – Ciência e Filosofia. 5ª ed. Lisboa: Presença, 1986, p. 20.

[10] Cf. COLLINGWOOD, R. G. – Ciência e Filosofia. 5ª ed. Lisboa: Presença, 1986, pp. 21-22.



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