08/07/2009

O objectivo da ciência é a verdade?


Para onde se dirige a ciência? Será que a verdade é o objectivo a ser almejado? Qual é o critério de progresso? A procura de eficácia ou a verdade? É possível a ciência ter um objectivo funcional/utilitário sem uma aproximação da verdade?

Pode ser comum ver a ciência como sendo detentora de uma verdade comprovada, irrefutável e infalível. Dar a algo a qualidade de “científico” parece que equivale a atestar a sua veracidade inquestionável. Mas, será que a ciência progride para certezas inquestionáveis e de racionalidade pura?

Vários autores, como Popper e Kuhn, trataram esta problemática. Pessoalmente considero que o progresso científico é caracterizado por um maior conhecimento da realidade, que será sempre provisório, e poderá ser fruto da eficácia.

Para Popper o progresso faz-se por conjecturas e refutações numa aproximação sucessiva à verdade. Popper defende que o progresso é em direcção a um conhecimento, cada vez mais perfeito da natureza. Analogicamente podemos afirmar que a tarefa do cientista é como a de um alpinista que quando escala uma montanha pode ter dificuldade a chegar ao cume (verdade) quando o cimo da montanha está repleto de nuvens. Pode ser difícil distinguir qual é afinal o cume principal, mas isso não elimina a existência real de um cume principal (verdade) ao qual ele pretende chegar[1]. Porém, Popper (criticando o verificacionismo) defende que a ciência não é um sistema de enunciados certos, pois, é impossível proclamar que atingimos a verdade[2].

Este progresso na ciência faz-se por tentativas de falsificações constantes, isto é, pondo-se à prova as teorias através de testes[3] “na esperança de descobrir nossos erros, aprender com eles e, com um pouco de sorte, desenvolver teorias melhores”[4]. Quando resiste às falsificações a teoria em prova é “corroborada” (torna-se uma verdade provisória).

Deste modo, o progresso significa construir teorias científicas (verosímeis) que melhor procurem corresponder ao que a “realidade” do mundo é “em-si-mesma”. E o cientista surge como aquele que, observando ou conjecturando, anda sempre à procura de novas teorias que correspondam aos factos, ou seja, que possuam “maior capacidade explicatória e poder de precisão”[5]. Constatamos, assim, que o progresso científico tem como fim: representar da forma mais fiel possível o mundo.

Contrariamente à teoria duma melhor representação do mundo, Kuhn defende que a ciência não tem acesso ao “mundo-em-si-mesmo”, como defendeu Kant. O mundo da ciência é um mundo fenoménico, construído por uma comunidade de linguagem, onde é possível construir várias interpretações que configuram diversas representações do mundo; e, assim, “vários mundos”[6].

Kuhn sugeriu o abandono do modelo tradicional de progresso racional e teleológico (de tipo representativo) em favor de um modelo evolucionista de tipo darwinista. Pode-se constatar, então, um paralelismo entre a selecção natural e o progresso científico. “A aquisição de estruturas adaptadas ao meio corresponde à fase de aquisição de um paradigma e marca o início de um período de ciência normal caracterizado pelo compromisso da comunidade científica com um paradigma, desenvolvendo-se, deste modo, um progresso continuado; a fase de desadaptação duma espécie provocada pelas alterações do meio, assemelha-se ao período de crise paradigmática resultante do facto do paradigma não resolver problemas imprevistos, o que corresponde à modalidade do desenvolvimento da ciência extraordinária; a transformação da espécie pelo princípio da adaptabilidade consiste no seguinte: uma teoria melhor é a que se adapta melhor às necessidades de resposta para os problemas levantados com a crise”[7].

O esquema kuhniano (ciência normal, crise e invenção de um novo paradigma) “pode ter ocorrido, como no caso da evolução biológica, sem o benefício de um objectivo preestabelecido, sem uma verdade científica permanentemente fixada”[8]. O ponto principal do progresso não está na “verdade”[9], mas na crise que obrigam a construir novos horizontes de interpretação configurados por “modelos” ou paradigmas.

Segundo as minhas crenças de controlo, penso que os cientistas têm geralmente por objectivo a descoberta de verdades acerca da realidade; considero que é o fim mais importante da tarefa de muitos cientistas. Mas, não posso negar o facto de uma pessoa poder ser cientista só para ganhar dinheiro, ou por outra razão qualquer. Porém, parece claro que cientistas como Einstein ou Galileu tem por objectivo descobrir verdades. Deste modo, penso que o que caracteriza o progresso científico é um maior conhecimento da realidade.

Assim, parece-me que os cientistas caminham para uma compreensão do que é o mundo em-si-mesmo. Contudo, nunca se atingirá uma compreensão total da realidade (nunca se atingirá a verdade); pois, a actividade do cientista não é uma acção a-histórica e isolada de outros níveis de vida cultural. Assim, o mundo real pode ser entendido (e acessível a nós) como um mundo interpretado por conceitos, fórmulas matemáticas, emoções, imagens, e metáforas. Portanto, não é possível uma “verdade absoluta” que seja independente da interpretação que é feita dos factos. Uma verdade e objectividade total não podem ser alcançadas, pois são relativos a determinados sistemas de interpretação do ser humano.

Podem-me objectar que o cientista apenas pretende a eficácia, a utilidade que resulta do progresso científico. Mas, será que a ciência poderá ser eficaz se existir um enorme hiato com a realidade? Não será que a maior eficácia conduz a uma maior aproximação da realidade em si, e assim leva-nos a uma aproximação da verdade?

Pessoalmente não vejo uma dissociação entre um maior conhecimento da realidade e maior eficácia; pois, a ciência só pode ser eficaz na exacta medida em que for aproximadamente verdadeira. Por isso, não me parece possível que a ciência possa ser eficaz se não for uma boa aproximação à realidade. Por exemplo, num avião as suas asas foram de tal modo projectadas que (de acordo com a equação de Bernoulli[10]) a pressão na parte inferior da asa é superior à pressão na parte superior. Penso que o avião sustenta-se no ar porque a equação de Bernoulli corresponde (aproximadamente) à realidade. Se houvesse uma realidade diferente talvez fosse necessária uma teoria diferente para o avião voar. Assim, pela eficácia de querermos um avião, levou-nos indirectamente a uma compreensão aproximada da realidade.

Assim, considero que a eficácia existe porque se aproxima da realidade. E, do mesmo modo, a compreensão aproximada da realidade poderá levar a uma maior eficácia.

Bibliografia

KUHN, Thomas S. – A estrutura das revoluções científicas. São Paulo: Perspectiva, 1989.

LIMA, Everton – “Equação de Bernoulli”. In: http://www.portalimpacto.com.br/docs/00000Everton2ANOAula14EquacaodeBernoulli.pdf - Acedido em 15/05/08.

MAGALHÃES, João Baptista Vasconcelos Miranda – A ideia de progresso em Thomas Kuhn: no contexto da "Nova filosofia da Ciênca". Dissertação de Mestrado em Epistemologia e Filosofia do Conhecimento. Braga: Universidade Católica Portuguesa. Faculdade de Filosofia, 1995.

POPPER, Karl Raimund – Conjecturas e refutações: pensamento científico. Brasília: Editora Universidade, 1982.



[1] Cf. POPPER, Karl Raimund – Conjecturas e refutações: pensamento científico. Brasília: Editora Universidade, 1982, p. 252.

[2] Para Popper nunca se atingirá a verdade devido à nossa infinita ignorância. E também “não dispomos de um critério para reconhecê-la”. Ibidem, p. 251.

[3] Testes nos quais se tentam procurar enunciados observacionais que falsifiquem a teoria. É este o caminho para a verdade, “se tivermos sorte poderemos descobrir a falsidade de algumas das nossas teorias”. Ibidem, p. 252.

[4] Ibidem, 254.

[5] Ibidem, 243.

[6] MAGALHÃES, João Baptista Vasconcelos Miranda – A ideia de progresso em Thomas Kuhn: no contexto da "Nova filosofia da Ciênca". Dissertação de Mestrado em Epistemologia e Filosofia do Conhecimento. Braga: Universidade Católica Portuguesa. Faculdade de Filosofia, 1995, p. 65.

[7] Ibidem, pp. 98-99.

[8] KUHN, Thomas S. – A estrutura das revoluções científicas. São Paulo: Perspectiva, 1989, pp. 215-216. Podemos falar em “mutações” teóricas, mas não podemos dizer que com tais mudanças estamos mais próximos da verdade.

[9] “Para ser mais preciso, talvez tenhamos que abandonar a noção, explícita ou implícita, segundo a qual as mudanças de paradigma levam os cientistas e os que com eles aprendem a uma proximidade sempre maior da verdade”. Ibidem, 213.

[10] Cf. LIMA, Everton – “Equação de Bernoulli”. In: http://www.portalimpacto.com.br/docs/00000Everton2ANOAula14EquacaodeBernoulli.pdf - Acedido em 15/05/08.



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