08/07/2009

O Filósofo do Amor Infinito


“Deus separa para melhor unir”[1]

1. Introdução

Neste trabalho de investigação decidimos estudar a filosofia de Leonardo Coimbra, nomeadamente a temática específica do “amor”. Para a concretização desta procura decidimos trabalhar os seguintes livros de Leonardo Coimbra: “O Criacionismo”, “A Alegria, a Dor e a Graça”, e “Do Amor e da Morte”.

Deste modo, decidimos expor em primeiro lugar uma das obras principais de Leonardo Coimbra “O Criacionismo”, averiguando já elementos de uma filosofia que tem como “palavra-chave” o amor.

Na segunda parte, esclarecemos o tríptico Alegria, Dor, e Graça, relacionando-os com concepções e fases do amor.

Por último, desenvolvemos um comentário da obra “Do Amor e da Morte” onde Leonardo Coimbra trata especificamente a temática do amor.

Este trabalho enquadra-se no âmbito da disciplina de “Pensamento Filosófico Português”, sendo um elemento para avaliação final.

2. Criacionismo

Leonardo Coimbra, em 1912, publicou o primeiro marco da sua produção filosófica: “O Criacionismo”. Leonardo Coimbra caracteriza a sua filosofia como essencialmente criacionista, isto porque considera a filosofia um órgão da liberdade, “a qual, pertence-lhe construir a consciência da superioridade sobre as sensações e a coordenação do seu fluxo caótico para as subordinar a fins ideais. Nesta subordinação consiste a verídica liberdade e esta é a tarefa da filosofia”[2]. É uma filosofia da liberdade, porque concebe um universo como uma sociedade de consciências (pessoas), que é actividade livre e criadora. Por isso o nome de criacionismo; não no sentido da teoria da criação do mundo por Deus, mas sim da afirmação da pessoa, como último e supremo grau da realidade em si e por si, como actividade livre inteligente e amorosa, e desta forma criadora[3].

O criacionismo é sobretudo um processo dialéctico, um atributo do pensamento que constrói a realidade. A realidade é construída e não dada, é de noções e não de cousas (imobilismo fixista)[4]. Através do criacionismo se elabora noções, a partir da matéria que não é física, mas um irracional, inatingível em si, o coordenável ou intuição. Assim, a realidade é sempre um sistema de noções ou de relações de pensamento. Nunca conhecemos um facto bruto ou uma ideia pura: nem materialismo, nem formalismo; mas sim criacionismo ou actividade criadora do pensamento[5]. Como afirma Leonardo Coimbra: “Pela dialéctica filosófica, vai dar-se a plena liberdade, a plena posse dos determinismos e prolongar, num heróico esforço, a sua vida até ao absoluto; pôr no quotidiano, o valor e o significado do eterno; unir ao beijo, o coração; ao amor a própria eterna fonte de amor; à lágrima, a alegria da promessa, da bondade e da íntima compreensão de tudo”[6].

Deste modo, esta actividade criadora ou elaboração do pensamento é dialéctica, resultando de sínteses, e de um processo ascensional. “Sobe em círculos cada vez mais fechados e, por isso, é espiralada, fechando-se no horizonte do Universo ou da Unidade total, onde encontra a fonte originária do Ser, um Infinito de Bem e de Amor, que é Deus”[7]. Constatamos, assim que a dialéctica chega até Deus (Amor), como Leonardo exprime: “eis a máxima realidade que podemos atingir: as mónadas[8] mergulhando raízes sôfregas no oceano fremente do infinito amor. Deus seria esse Infinito em que vive, floresce e frutifica a mónada religiosa”[9].

O sistema filosófico desenvolvido por Leonardo Coimbra na obra “Criacionismo” apresenta-nos um método dialéctico e construtivo em dois momentos:

O primeiro (análise científica), abrange o verificável e verificado na experiência quotidiana; momento a que poderemos chamar positivista. Estamos no âmbito da matéria visível, do que é observável, quantificável, medível, etc…

O segundo (síntese filosófica), refere-se aos espíritos mais inquietos que não se ficam pelo primeiro momento provisório, mas que prosseguem na construção dialéctica até à síntese final. Aparece o metafísico insondável, inexaurível, infinito; sendo em si actividade, amor e criação. É o próprio pensamento encerrando-se nas suas fecundas entranhas, para se apreender como infinito, eterno, criador. Esta dialéctica é “um progressivo esforço, ergue-se ao céu, sem deixar o contacto com a terra; chega a Deus, mas sem abandonar o mundo e o homem. Não ignorando que a vida das alturas é difícil e pródiga em desvairamentos, sabendo quanto há de vago e hesitante nas últimas hipóteses, é humilde e heróico”[10]. Neste momento a pessoa apreende-se em Deus como mónada.

Em Deus (Amor Infinito) temos a máxima realidade que poderemos atingir. “Deus é o ponto de encontro de todas as almas ansiosas, indagadoras da vida. Realiza-se pelo amor, que é a linguagem pura das atracções cósmicas”[11]. A vida nasce, pois, do Amor, o Amor cósmico, perfeito, sem egoísmo nem exclusões.

Do mesmo modo, Deus é a fonte inesgotável da beleza moral. Deus é o infinito moral que se apresenta como termo da acção amorosa e como fonte originária, donde procede todo o esforço de vida moral[12]. Assim, a finalidade moral do Universo é um esforço para Deus, “no sentido moral, só o infinito Amor pode ser razão intrínseca da ascensão moral, porque só ele é o verdadeiro amor”[13]. Desta forma, no homem a moral é esforço e não acto, aspiração e não quietude, excesso continuado do eu criador, pois, “todo o Universo é suspenso da palavra de Deus, que é essa finalidade de amor que o ergue e sublima”[14].

Leonardo Coimbra opondo-se ao céptico, superficial, egoísta, indiferente, positivista, contrapõe o perfil de um homem verdadeiramente livre, ou seja, aquele que é sincero e bom, e se deixa guiar pelo amor universal[15]. Assim, ao homem cabe viver no Todo, no dar-se em acções de ilimitada generosidade, indo ao encontro da eterna beleza moral, Amor, para assim viver no infinito. “Infinito que não é o do espaço ou o do tempo, em si existentes, mas que é o Infinito do Amor envolvendo, purificando, atravessando tudo, e, por isso mesmo, manifestando-se no espaço, em novos luares de fraternidade e dando a imensidade sem limites da sua ilimitada acção. O espaço é Infinito, porque nele freme, vive e actua o Amor infinito”[16].

3. A Alegria, a Dor e a Graça

Leonardo Coimbra, em 1916, publica a obra “A Alegria, a Dor e a Graça”, concebida em forma de um tríptico, não sendo “pontos” estáticos ou sem intercomunicação, mas sim têm entre si uma relação dialéctica. Esta tríade dinâmica (alegria, dor, graça) significa respectivamente: a afirmação – é a comunhão com a Natureza; a negação – é a solidão da alma frente ao Universo material; e a negação da negação ou super-afirmação – é a Unidade reencontrada, ao nível da pessoa moral e religiosa, é a comunhão com Deus[17].

As primeiras afirmações desta obra revelam uma intencionalidade metafísica e um carácter existencial: “As almas verídicas (porque há aparências, esboços de alma) nutrem-se dum único alimento – o absoluto. Procurar a substância, as relações totais das coisas, o que é para além do que aparece, eia a ansiosa tarefa das almas”[18].

Leonardo Coimbra encara o primeiro ponto dialéctico por Alegria (como afirmação), concebendo que “toda a Alegria do Universo é a plena posse da sua harmonia, a integral memória do seu Ser. A Alegria é infinita e, da triunfal ascensão do sol levante, ao meditativo sorriso do pensamento, espraia-se em contentes e ondulantes vitórias. Sem princípio e sem fim, porque o Tempo e Espaço são obras suas; em cada ponto e em cada instante encontra uma nova direcção em que aprofunda, e, no ponto e no instante, freme o infinito do seu poder”[19]. Deste modo, o homem tem uma forma peculiar de comunhão com a natureza e de interpretação do Universo, apresentando-se assim uma nova face da Unidade criadora que é a Alegria.

Os termos “Alegria” e “Amor” (comunhão) estão intimamente relacionados. Leonardo Coimbra ao abordar a Alegria não deixa de frisar a alegria do Amor[20]. Concebe que a inquietação amorosa arranca o indivíduo de si, e lhe mostra seres complementares que acabam a plenitude da sua existência. Assim, define que Amar “é ter, na imediata unidade, a consciência do fraccionamento, o desejo da verdadeira unidade transcendente; é desejar e pressentir a palavra, que prolongue cada criatura até à intimidade de outra criatura; é ser praia remota, que, no beijo da vaga que chega, recebe o estremecimento das terras de além do mar”[21]. Deste modo, cada criatura tende para outra criatura, existe uma infinita necessidade de comunicação, para haver uma unidade de amor. O amor é a vontade originária, a Unidade envolvente. Contudo, todo o pecado contra o Amor é um pecado contra a Alegria, transformando-se numa perda real e irreparável[22]. Assim, existe um pecado contra o amor (e contra a alegria) quando se toma para si uma pessoa como simplesmente “um objecto de prazer, e aquilo que começou por ser um generoso impulso além de si toma o aspecto de simples gozo seu, como o dum bom prato, por exemplo”[23]. Esta violência, caricatura e falsificação do amor, é pura carnalidade animal, em que se vive o prazer acessório tomado como essência, o meio de unificação tomado como fim, e deste modo, tornado egoísta e separador. Pelo contrário, o amor não se pode desligar de uma sólida Alegria criadora, e da presença (encontro), no Espaço, duma força interior de Unidade, que leva duas parcelas soltas a se fundirem numa maravilhosa síntese[24]. Portanto, o Homem não se reduz ao desejo de um prazer, mas é sobretudo “a própria Alegria impelindo-o numa totalidade arquejante para um além que o complete. Nenhum cálculo estranho à pura fome de Unidade em que todo o seu ser, corpo e alma, se empenha. Atingiu de pronto um amor de corpo e alma, que, quando perfeito, seria apenas a consciência humana, de acordo com os fins do Universo, repondo a identidade fundamental do corpo e do espírito”[25]. Amor é, assim, impulso para além de si, sacrificando o egoísmo, é a Alegria da Unidade.

Em segundo lugar, trata da dor (como negação), que exprime a solidão da alma perante um Universo mudo, ou seja, incapaz de responder às ânsias de companhia e voz do coração humano. Essencialmente é o sentimento de fragilidade, insubsistência, perante as forças da natureza; da inquietação perante o destino das almas; da dúvida e tentação nihilista perante a experiencia do mal e da morte; e/ou da frustração perante a busca de um Mistério que se pressente e não se alcança. Desta forma “o mundo é opaco para a luz que se vai espalhando; e o homem sofre, teima, vê-se isolado e possivelmente iludido. Cavaleiro de triste figura vai, na humildade do planeta, afirmando o absoluto da consciência, da lealdade, da conservação espiritual”[26]. Mas, a palavra final não podia ser senão a de um optimismo e de uma esperança: “quixotes abrasados de sonho, o mal, a dor e a morte são o nosso alimento, os ingredientes com que a nossa alquimia fabrica o amor, a esperança, a vida”[27].

A “Dor” e “Amor” também são termos que se podem relacionar. Pois, “o homem ama no meio duma natureza insensível, e os frutos do seu amor e o próprio coração, onde floriam, vão arrastados na torrente dos mundos, rolando para o obscuro abismo do Nada”[28]; o amor inicial pode ser num determinado momento posterior influenciado pela sua oposição (egoísmo), e daí haver dor. Esta dor poderá ser um momento de desencantamento, face a um encantamento inicial. Por um lado, se o amor ficar apenas pela dor (ou seja, não a ultrapassar, ou não lhe dar um significado profundo), poderá acontecer então o aniquilamento do amor. Mas, por outro lado, podemos fazer uma hermenêutica da dor como caminho de redenção[29]; a dor pode ser um caminho para um bem maior, por exemplo: “a primeira promessa de lealdade e o primeiro beijo de amor foram feitos do primeiro sofrimento duma alma, que se viu incompleta e procurou além”[30]. Assim, “A Dor é incessante pergunta, uma humildade contemplativa e amorosa, um andar de companhia com o mais recatado sentido das almas, é o maravilhoso cristal através do qual se recompõe a unidade da luz para se nos mostrar o Universo em nova claridade”[31]. O homem só é grande pela dor, é algo que inquieta e dinamiza, e que leva os olhos ao fundo do abismo, para paradoxalmente encontrar uma nova luz. Cristo é o exemplo claro disso, Ele é aquele que “sondou a Dor até àquele ponto onde ela se transfigura em imortal Alegria. (…) Cristo sabe que Deus fica para além dos areais da Dor, que é preciso atravessar o Deserto para alcançar o nemoroso oásis de água viva e perene; o seu passo é seguro desde o princípio, ele leva, em si, a frescura da fonte original. (…) A Dor há-de aparece-lhe como o melhor caminho para Deus, e as chagas de Cristo os buracos dolorosos por onde, e para sempre, os olhos do homem viram o Infinito”[32].

Por fim, a Graça é a sensação de Deus, é a sensação da liberdade, que “aparece em toda a parte onde uma força se liberte e ouse, sobre a tranquilidade da forma, o sorriso do seu excesso”[33]. É sensação de liberdade “porque é, em cada forma, a presença do Infinito que a criou e sustenta. É a vitória da unidade sobre a pluralidade, da qualidade sobre o número, da liberdade sobre a necessidade”[34]. Do mesmo modo, é sensação de Deus, pois, “Deus aparece ao homem na sensação de Graça; Deus é em amorosa comunicação com o homem, no sentimento da Graça; Deus é a própria realidade integral e plena no pensamento da concreta liberdade, ou universal ligação, que é o pensamento da Graça”[35]. Leonardo Coimbra considera mesmo que não é verdade que “o Ser, a plena Unidade, que é a consciência cósmica, ou Deus, seja inacessível e indemonstrável”[36]; mas, não pode ser uma demonstração particular do tipo lógico ou racional; pelo contrário, trata-se de um reconhecimento de uma presença, da revelação do já existente, ao nível da sensação, sentimento, e pensamento[37]. Este filósofo afirma, também, que de certo modo o Universo já atingiu a plena Graça: “uma vida houve, porém, que resumiu em si toda a beleza do Universo, todo o significado transcendente da qualidade, do movimento e do Ser, todo o heroísmo e astral pensamento da alma, toda a comunicabilidade espontânea e todo o amor atento. Foi Cristo. A Graça andou pelo mundo e, por caminhos de açucenas, lírios e boninas, levou os homens para a vida substancial e eterna”[38].

Graça é o Amor propriamente dito, é a presença daquele Amor Infinito que abraça tudo. Assim, “o estado de graça é o sentimento da presença universal. Estar em graça é olhar o Universo daquele invisível centro de amor, que é o seio de Deus. Estar em graça é parar suspenso no meio do ruído a ouvir vozes das bandas do silêncio. Estar em graça é ir devagar na Solidão a conversar com o invisível, a encher de humanas palavras amorosas todo o Espaço sem voz”[39]. Graça corresponde a um reencantamento, ultrapassando todas as dificuldades da dor, para contemplar a verdadeira realidade da Unidade, Amor.

Em suma: “a Alegria é a unidade concreta do universo: sociedade pronta e patente; é, pode dizer-se, a realidade do Ser planificada. A Dor é a nova direcção da Unidade, quebrada em mil destroços, fragmentada e dispersa, buscando para além. A Graça é, antes da Dor, o sorriso da Alegria; é, depois da Dor, Unidade reconquistada, boiando sobre os destroços, que, por ela, tomam um novo sentido de Alegria, um lúcido corpo de drama, um valor de relevo e exaltação. A Alegria atinge-se, é a nossa realidade imediata e é também a nossa conquista. A Graça é, no indivíduo, a presença dum Infinito de qualidade, que tudo abrange e excede. A Alegria é a vitória, em cada ser, do sentido do concreto universalismo sobre o absoluto individualismo. A Graça é o próprio universo que é presente, por dentro e em espírito, em cada parcela – átomo, mundo, ou criatura. A Alegria canta, a Dor procura e atende, a Graça é”[40].

4. Do Amor

Em 1922, Leonardo Coimbra, publica a obra “Do Amor e da Morte”. É um diálogo (parecido com estilo de Platão) no qual as personagens vão transmitindo as suas ideias e argumentos até se chegar a uma concepção clara e plausível do termo Amor.

“Do Amor e da Morte” é um diálogo com três personagens: Marcos, António, e Célio. Ao longo de toda a obra vê-se claramente um confronto de mundividências, principalmente Célio (efígie clara de Leonardo Coimbra) opondo-se ao pessimismo de Marcos. É Célio que apresenta a tese da obra, defendendo a ideia que amor não é uma simples realidade humana, mas a mais funda e levitante forma de substância cósmica. É a condição primeira do Ser[41].

Marcos, tendo uma visão pessimista do cosmos, interpreta o amor de um modo instintivo, não passando de uma satisfação dum impulso orgânico. É apologista do amor como um mero instrumento (egoísta) de prazer. Desta forma, concebe o amor como “uma simples ampliação do desejo sexual. É uma invasão psíquica, neste sentido naturalista dum desejo que parasita toda a vida da alma, assimilando-a aos seus fins. (…) Acção e reacção, eis a fenomenalidade. Ser a lâmina vibrando a todos os choques, a onda obedecendo a todos os ventos, a gravidade penetrando, sem perda nem lucro, em todas as direcções! Não há mais nada”[42]. Assim, o amor não passa de um ritmo, é “um choque brutal de ritmos, em que um quer absorver e apagar o outro. Da guerra sai um compromisso; eles matam-se pouco a pouco, vindo a morrer na resultante, no que em relação aos amantes, é um ritmo maior. Um filho é um ritmo de amor estremecendo por sobre o túmulo dos pais”[43]. Nesta concepção de amor, como invasão da consciência pelo desejo sexual, há claramente uma redução do outro a um objecto, a uma função utilitarista. Desta forma, “o amor é uma lei da vida, conhecemos muito bem as impulsões afectivas que lhe dão o movimento e as leis biológicas que lhe dão estabilidade, como função utilitarista da espécie. A psicologia acrescenta-o de sentimentos, que mais não são que o romance do desejo, os caminhos tortuosos por onde a afectividade orgânica, o sentimento do corpo, se conduz ao cérebro à busca de reacções apropriadas”[44]. E, a criação psicológica até dá origem à fidelidade, contudo “o desenvolvimento do dinamismo do processo psicológico do amor, deixa de coincidir com o mesmo objecto humano. O homem deseja outra mulher, e a mulher, embora com mais inibições, deseja outro homem”[45]; então, a fidelidade não passa de “uma criação psicológica demasiadamente absolutista para ter acção eficaz, para ser, em suma, uma realidade”. E, “quando o desejo se apazigua e não muda de objecto, é, então, o tédio, o mais negro aborrecimento, o mais comum e mais trágico calvário da vida”. Marcos apresenta-nos um enorme repúdio à miserável ilusão do Amor (fiel e leal), que morre estrangulado pelo tédio, “ali, no próprio leito conjugal e na mesma noite de núpcias” [46].

António refuta Marcos defendendo que o amor é uma atitude da alma. Considera que uma concepção errada de amor é aquela que assenta no egoísmo, na predominância do “eu” em relação ao “nós”. De facto, não há egoísmo sem “eu”, e o “eu” é uma criação posterior ao “nós” da colónia, da colmeia e do clã. O que interessa veemente para António é o amor enquanto Unidade, que “não é uma abstracção, como um golfo em que todas as águas se precipitem e desapareçam vaporizadas e intangíveis; é antes um amplo oceano onde todos os rios levam os seus líquidos corpos ao enleio e à fusão duma mais vasta e poderosa existência”[47]. E o desequilibro (patente na fracção e incompletude que é a pessoa) deu-se para que o ser, pleno de sofrimento e sacrifício (dor), regressasse aumentado ao estado unitário; assim, “nós somos a transitividade duma Unidade que se amplia: os seus limites são os dois homogéneos da Unidade que se não dispersou e da Unidade que se refaz pela fusão, em seu corpo, dos plurais separados”[48]. O nosso caminho é sobretudo a união, ou seja, o anseio para o nostálgico regaço da alma universal. Para atingir esta Unidade é necessário atravessar pela dor. Só passando por grandes experiências dolorosas é possível tomarmos o grande abraço reconfortante da Unidade; por exemplo, a experiência humana poderá transcender a dor por uma renovada Alegria triunfante; “O caminho de Cristo é uma toalha de lepras e vérminas; é depois o Calvário; mas ao fim não é a Ressurreição e o triunfo do Amor?”[49].

O amor verdadeiro não é egoísmo a dois (como nos tenta convencer Marcos), mas sim é abnegação, audácia, confiança mútua, que leva a uma fidelidade plena. A desilusão só existe se não se amar verdadeiramente, pois, “se o amor traz a desilusão, é porque se lhe deu como finalidade um prazer que não leva em si elementos de perpétuo renascimento”[50]. O tédio que defende Marcos é o sentimento do nada, existe quando não há amor real. Pelo contrário, num ambiente de verdadeiro amor (concreto e indestrutível), “os amantes são duas vontades benévolas e atentas ao germinar de renovadas sementes de beleza, dois jardineiros cuidadosos que cultivam novas flores ao calor de renovados beijos”[51]. Mesmo que alguém seja afirmador do tédio ou niilista do amor, esse alguém só vive pelo milagre de amor que o criou. Assim, António defende que “há amor, há lealdade, e a vida de família é ainda, para todos e nos juízos da nossa probabilidade, aquela onde há mais verdade, onde o entendimento se faz por meio de relações mais verídicas e diligentes”[52].

Por fim, Célio concebe o amor como um transcendente apelo à Unidade. Este Amor é o próprio Deus, ou seja, “um grande abraço fazendo-se na unificação de todos os plurais. Um Deus que aperta os mundos, em seus braços de força e de encontro ao seu seio de amor”[53]. O Amor é incriado, é o próprio sustentáculo dos mundos. Tudo repousa no Amor, “A terra assentava em magníficas colunas de marfim, de bronze, de tudo o que era sólido aos olhos do homem. Ficou depois suspensa no próprio pensamento de Newton, que, por sua vez, repousa e se sustenta na grande comunhão do amor divino. (…) O Amor, como a Luz, jorra directamente do centro criador dos mundos, do Inominado invisível que é o seio onde nos encontramos”[54].

Este Amor faz-nos unidade, sendo algo mais sólido do que a pluralidade. Pois, o nós esboça a superior unidade do eu; “unidade, que, para não morrer à míngua de amor, de novo há-de acender o eu na chama dum mais livre, harmonioso e consciente nós”[55]. Tudo é uma interactiva reciprocidade, relação, convívio, desde a matéria à consciência. É importante salientar que a primeira forma de existência é a coexistência dos singulares, isto é, a relação da pluralidade com a Unidade. E o Amor é a própria relação com Deus, um abraço fechado (que torna possível a Unidade) através do amor de todos os seres[56].

Esta unidade de amor dá-se de forma sublime nos seres humanos no encontro; pois, “se o encontro de duas rochas é luz e calor, como o encontro de duas almas não há-de ser o acordar de todo o fogo da sua chama, o apelo a toda a beleza oculta para que rebrilhe?”[57]. Encontro de amor que renasce da grande ansiedade de comunicar, de um anseio de completude. Assim, “o homem deu volta a um hemisfério da existência e a mulher ao outro: traz cada um consigo, para o Milagre do Encontro, a metade diferentemente luminosa dum mesmo mistério. (…) É que dos longes da existência se aproximam para o Milagre do Encontro e cada um traz a meia-metade do mistério, metade da CONCHA DOIRADA onde dorme a eterna semente dos mundos. (…) E o Universo mudo perante a interrogação humana, surdo aos cânticos e queixumes, começa a penetrar-se de entendimento na aproximação de dois seres, falando cada um a meia-palavra, que falta na linguagem do outro. (…) O Mistério da comunicação, que é também o mistério da unidade – ser um e compreender o outro – abre as suas portas secretas no entendimento do homem e da mulher, no ajustamento das duas metades da sua revelação”[58]. Compreendemos, deste modo, com Célio que o homem e a mulher são duas diversidades, mas cujo entendimento só pode fazer-se pela compreensão de uma Unidade concreta que é o Amor. A pessoa pode ser um meio de prazer (como defendia Marcos); mas, se tornamos a pessoa como fim em si, é então que nasces a sabedoria do prazer, a flor de beleza e encanto cujo contacto brota fogo do Amor incriado.

Pelo contrário, se formos adeptos da objectualização do outro e da tirania (inimiga da fidelidade e essência das vontades inferiores), então somos seduzidos pelo separatismo que aniquila o bem da Unidade; pois, “o tirano é o homem que se isola não para procurar a Unidade em que as relações se atam, mas para suprimir ou deformar todas essas relações”[59]. Contudo, a fidelidade não é um absoluto morto; de absoluto tem o aspecto de ser promessa, e atitude de apenas procurar e receber relações verídicas[60]. “Um coração namorado só ama sem remorsos de mentira, sem tristeza da deslealdade, quando toma, nos braços e ao colo do seu amor, tudo o que existe”[61]; só na fidelidade poderemos encontrar o caminho para Deus, e a vivência da plena felicidade.

Só tem sentido existir o universo porque a diversidade tende para a Unidade; de certa forma Deus separa para melhor unir[62]; união de seres de modo mais consciente e livre. Mas, é relevante salientar que o encontro de amor não fica na imanência; no amor humano também existe o sentimento puro da presença do infinito amor cósmico, pois, “o coração não pulsa no peito, encerrado dentro de grades, mas é onda alargando-se e vivendo no tempo e no espaço, sem praias que lhe marquem o limite onde desfaleça exangue”[63].

Assim, “sejamos obedientes ao magnetismo que nos polariza, e, pelos olhos da [pessoa] amada, poderemos descobrir o caminho que nos conduza a Deus!”[64].

5. Conclusão

Como podemos constatar, a temática do “amor” é algo que está patente em grande parte da filosofia de Leonardo Coimbra, daí o nome deste trabalho ser “O Filósofo do Amor Infinito”.

No criacionismo verificamos que o processo dialéctico chega até Deus, ao qual Leonardo Coimbra identifica de “Amor Infinito”, sendo a máxima realidade que poderemos atingir. Sendo a finalidade do Universo um esforço para Deus no sentido moral, pois só o Infinito Amor é a razão intrínseca de ascensão moral; Deus é o verdadeiro amor.

Por conseguinte, na segunda parte constatamos que os “pontos” dialécticos alegria, dor, e graça correspondiam a dinâmicas de amor. Vemos, assim, que o amor não se pode desligar de uma sólida alegria criadora; sendo o Homem a própria alegria que o impele para um além que o complete. Porém, o amor tem que passar pela dor; neste contexto, Leonardo Coimbra interpreta a dor como caminho de redenção, onde o Homem só é grande quando passa pela dor. No cume dialéctico temos a graça que é o amor propriamente dito, sendo a presença do Amor Infinito que tudo abraça.

Por fim, na obra (Do Amor e da Morte) em que Leonardo Coimbra trata mais especificamente a temática do amor, verificamos uma purificação importante do termo amor. Deste modo, amor não pode ser egoísmo, objectualização do outro, redução do outro, função utilitarista, infidelidade, tédio; mas sim unidade (sendo necessário atravessar pela dor), abnegação, audácia, confiança mútua, fidelidade plena, encontro-presença, completude (de duas metades), felicidade, caminho para Deus.

Na sociedade contemporânea, onde vigoram muitos valores como o individualismo e egoísmo, consideramos que Leonardo Coimbra ainda se mantém totalmente actual, no sentido de nos apelar para uma verdadeira concepção de “amor”, que não se reduz a um mero sentimento ou interesses individuais, mas sim refere-se a uma vivência do dom gratuito de si, que não ficando só no outro abre caminho para a transcendência. Talvez com uma vivência efectiva do amor verdadeiro muitos problemas poderiam desaparecer, dando lugar a uma felicidade transbordante.

Bibliografia

AA. VV. – Logos – Enc. Luso-Brasileira de Filos. Vol. 1-5. Lisboa: Verbo, 1989-1992.

ALVES, Ângelo – Leonardo Coimbra – Filósofo da liberdade e do amor infinito. Lisboa: Fundação Lusíada, 2003

COIMBRA, Leonardo – A Alegria, a Dor e a Graça. (Obras completas de Leonardo Coimbra – I Volume). Porto: Livraria Tavares Martins, 1956, pp. 17-280.

COIMBRA, Leonardo – Do Amor e da Morte. (Obras completas de Leonardo Coimbra – I Volume). Porto: Livraria Tavares Martins, 1956, pp. 281-353.

COIMBRA, Leonardo – O Criacionismo (Síntese Filosófica). (Obras completas de Leonardo Coimbra – II Volume). Porto: Livraria Tavares Martins, 1958.



[1] COIMBRA, Leonardo – Do Amor e da Morte. (Obras completas de Leonardo Coimbra – I Volume). Porto: Livraria Tavares Martins, 1956, p. 348.

[2] ALVES, Ângelo – Leonardo Coimbra – Filósofo da liberdade e do amor infinito. Lisboa: Fundação Lusíada, 2003, p. 56.

[3] Cf. ALVES, Ângelo, Op. Cit., p. 82.

[4] “… a filosofia de L.C. se caracteriza pelo seu anticousismo, o mesmo é dizer pela sua oposição ao imobilismo no dado, no já feito ou adquirido, pelo seu pluralismo e equilíbrio social permanente reinventado pelo poder criador do pensamento, pela realidade metafísica da pessoa moral e pela sua evolução e conservação na memória Infinita ou Deus”. Logos: Enciclopédia Luso-Brasileira de Filosofia.

[5] Cf. ALVES, Ângelo, Op. Cit., p. 214.

[6] ALVES, Ângelo, Op. Cit., p. 28.

[7] ALVES, Ângelo, Op. Cit., p. 215.

[8] “Mónada” é o nome dado a todo o direccionismo de matéria, desde o mais ligeiro afloramento de vida até à mais ampla e profunda consciência.

[9] ALVES, Ângelo, Op. Cit., p.29.

[10] ALVES, Ângelo, Op. Cit., p. 56.

[11] ALVES, Ângelo, Op. Cit., p.62.

[12] Cf. ALVES, Ângelo, Op. Cit., p. 85.

[13] ALVES, Ângelo, Op. Cit., p. 77.

[14] Idem.

[15] Cf. ALVES, Ângelo, Op. Cit., p. 62.

[16] ALVES, Ângelo, Op. Cit., p. 90.

[17] Cf. ALVES, Ângelo, Op. Cit., p. 30.

[18] COIMBRA, Leonardo – A Alegria, a Dor e a Graça. (Obras completas de Leonardo Coimbra – I Volume). Porto: Livraria Tavares Martins, 1956, p. 19.

[19] COIMBRA, Leonardo, Op. Cit., pp. 112-113.

[20] “Que fome de Unidade não é o vosso amor?! E, que infinita Alegria, o encontro de Duas fomes que se devoram”. COIMBRA, Leonardo, Op. Cit., p. 55.

[21] COIMBRA, Leonardo, Op. Cit., p. 57.

[22] Cf. COIMBRA, Leonardo, Op. Cit., p. 59.

[23] COIMBRA, Leonardo, Op. Cit., p. 62.

[24] Cf. COIMBRA, Leonardo, Op. Cit., p. 63.

[25] COIMBRA, Leonardo, Op. Cit., p. 61.

[26] COIMBRA, Leonardo, Op. Cit., pp. 164-165.

[27] COIMBRA, Leonardo, Op. Cit., p. 168.

[28] COIMBRA, Leonardo, Op. Cit., p. 156.

[29] Cf. COIMBRA, Leonardo, Op. Cit., p. 174.

[30] COIMBRA, Leonardo, Op. Cit., p. 173.

[31] Idem.

[32] COIMBRA, Leonardo, Op. Cit., pp. 175-176, 179.

[33] COIMBRA, Leonardo, Op. Cit., p. 181.

[34] COIMBRA, Leonardo, Op. Cit., p. 183.

[35] COIMBRA, Leonardo, Op. Cit., p. 252.

[36] COIMBRA, Leonardo, Op. Cit., p. 242.

[37] Leonardo Coimbra utiliza uma interessante analogia para representar esta ideia: “O matemático que dispensa a hipótese Deus, é como o homem, que, junto ao lume do carvão, dispensa o calor do sol”. COIMBRA, Leonardo, Op. Cit., p. 218.

[38] COIMBRA, Leonardo, Op. Cit., p. 254-255.

[39] COIMBRA, Leonardo, Op. Cit., p. 278.

[40] COIMBRA, Leonardo, Op. Cit., pp. 184-185.

[41] DIONÍSIO, Sant’Anna – “Duas Palavras”. In: Obras completas de Leonardo Coimbra – Volume I. Porto: Livraria Tavares Martins, 1956, p.11.

[42] COIMBRA, Leonardo – Do Amor e da Morte. (Obras completas de Leonardo Coimbra – I Volume). Porto: Livraria Tavares Martins, 1956, p. 286.

[43] COIMBRA, Leonardo, Op. Cit., p. 289.

[44] COIMBRA, Leonardo, Op. Cit., p. 316.

[45] COIMBRA, Leonardo, Op. Cit., p. 327.

[46] COIMBRA, Leonardo, Op. Cit., pp. 328-329.

[47] COIMBRA, Leonardo, Op. Cit., p. 296.

[48] COIMBRA, Leonardo, Op. Cit., p. 298.

[49] COIMBRA, Leonardo, Op. Cit., p. 301.

[50] COIMBRA, Leonardo, Op. Cit., p. 333.

[51] COIMBRA, Leonardo, Op. Cit., p. 334.

[52] COIMBRA, Leonardo, Op. Cit., p. 336.

[53] COIMBRA, Leonardo, Op. Cit., p. 295.

[54] COIMBRA, Leonardo, Op. Cit., p. 315.

[55] COIMBRA, Leonardo, Op. Cit., p. 338.

[56] Cf. COIMBRA, Leonardo, Op. Cit., p. 330.

[57] COIMBRA, Leonardo, Op. Cit., p. 343.

[58] COIMBRA, Leonardo, Op. Cit., pp. 348-349.

[59] COIMBRA, Leonardo, Op. Cit., p. 326.

[60] Cf. COIMBRA, Leonardo, Op. Cit., p. 328.

[61] COIMBRA, Leonardo, Op. Cit., p. 345.

[62] Cf. COIMBRA, Leonardo, Op. Cit., p. 348.

[63] COIMBRA, Leonardo, Op. Cit., p. 348.

[64] COIMBRA, Leonardo, Op. Cit., p. 352.



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