08/07/2009

Nós as pessoas, que somos mais que meras máquinas


“Nenhum computador tem consciência do que faz, Mas, na maior parte do tempo, nós também não”. (Marvin Minsky)[1]

As máquinas podem ser pessoas? O que caracteriza uma pessoa? Podem as máquinas pensar, ter mente e consciência? É pelo facto da máquina poder ter características como pensamento, mente ou consciência que lhe permite adquirir pessoalidade? Estes são problemas relevantes presentes na nossa sociedade, pois pelo facto de distinguirmos pessoa de não-pessoa estamos a lidar com implicações éticas, jurídicas, sociais… Por exemplo: se considerarmos que ser pessoa é ter uma série de características específicas, e se essas condições forem preenchidas por uma máquina, então não seria legítimo atribuir pessoalidade a uma máquina, bem como todas as implicações que adviriam ao facto de se ser pessoa? E se por exemplo um embrião não tiver os requisitos necessários para ser pessoa, como talvez aconteça com as máquinas, será legitimo aniquilar o embrião do mesmo modo que se desagrega uma máquina? Estes problemas assentam sobretudo nesta questão: “o que é afinal ser pessoa?”

Pretendo defender que máquinas não são pessoas. Nem sequer muito provavelmente podem pensar, ter mente, ou estados conscientes iguais a uma pessoa.

Para percebermos bem estas problemáticas, convém definir precisamente o conceito pessoa e o conceito de máquina.

Por um lado, defendo uma identidade de vida humana (ser humano) com ser pessoa; toda a vida humana é uma realidade de pessoalidade. Portanto, entendo por pessoa todo o organismo biológico, fruto de uma relação (amorosa, acidental, ou violenta) ou de um processo artificial[2], e da singamia de um gâmeta maior (feminino) com um gâmeta menor (masculino) da espécie “Homo Sapiens”, em processo e mutação contínua, adquirindo progressivamente uma forma antropomórfica, com vários órgãos, membros, todo um sistema de percepção, e um cérebro que em determinadas condições pode revelar manifestações mentais e conscientes. O estatuto de pessoa não surge em determinada fase superior do progresso do organismo biológico concebido. Mas, o organismo biológico vai tornando-se uma realidade pessoal no decurso em que as duas células (masculina e feminina) perdem a sua identidade e unindo-se dão origem a um novo ADN, até à morte… Ou devido às relações estabelecidas com outras pessoas e/ou com Deus, mesmo com a morte biológica essa pessoa continua a ser pessoa memorialmente, quer na manifestações mentais de outras pessoas conscientes ou mesmo em Deus. A pessoa está desde início da sua concepção em relação (com o físico, biológico, e até pode estar em determinados momentos em relação com Deus). Assim, pessoa é progresso contínuo[3], e em mutação constante; não é algo pontual, mas um ser de evolução, uma realidade que se vai construindo. Ser pessoa é um realizar-se, um fazer-se; mas é diferente de todas as outras realidades espacio-temporais, é uma realidade mais excelente[4], porque é uma entidade que pode ser consciente, criativa, livre, entre outros… e que pode ter capacidade de relacionamento de amor[5]. Portanto, sendo uma realidade finita, a pessoa pode transcender relativamente a sua finitude. É necessário também esclarecer que pessoa não é um instrumento, mas qualquer pessoa deve tratar outra pessoa sempre como um fim em si[6]. Poderá objectar-se que vida humana (ser pessoa) é também uma espécie de máquina; posso aceitar relativamente isso; mas, ser pessoa não é ser reduzido ao ser máquina, pois como defendi em cima: pessoa é ser muito mais que uma mera máquina ou qualquer outra realidade espacio-temporal.

Por outro lado, entendo máquina como sendo essencialmente um produto da criação humana. É todo o sistema material, mecânico ou biológico, que uma pessoa ou até uma determinada máquina desenvolve (fabrica) em ordem a obter determinado efeito (instrumental). Normalmente as máquinas são uma estrutura técnica destinada a efectuar uma acção ou uma sequência de acções em vez de uma pessoa, ou para auxiliar uma pessoa. Mas, pelo facto da máquina substituir em algumas acções a pessoa, não significa que adquire pessoalidade. Mesmo que conseguíssemos fazer máquinas andróides como as do filme “Blade Runner” nunca seriam pessoas, poderiam parecer pessoas, mas não eram de facto pessoas atendendo ao conceito que sugeri de pessoa.

No entanto, existem autores (como Dennett[7]) que fazem uma distinção entre ser humano e ser pessoa. Ser humano refere-se principalmente à base material, biológica, ao organismo, como um “hardware”. Ser pessoa é possuir determinadas características, algo parecido com um tipo específico de “software”, que tem como características: ser racional, intencionalidade, atitude tomada pelos outros, capacidade de reciprocidade, comunicação verbal, auto-consciência… Este tipo de “software” poderia ser rodado em qualquer outro tipo de substrato físico (como qualquer sistema intencional); pois, se um substrato físico apresentar as características do “software” exactamente iguais a uma pessoa, não há porque não atribuir a ele pessoalidade. Assim, uma coisa é ser apenas ser humano, outra é ser pessoa; e podemos ter vários suportes físicos (ou sistemas intencionais) para a pessoalidade. Só a pessoalidade dá excelência e direitos. E caso se cumpram os “requisitos mínimos” para ser pessoa, nada impede uma máquina de o não ser. Para se saber se os substratos físicos cumprem os requisitos de ser pessoa têm de fazer um teste, que em princípio distingue pessoas de não-pessoas. Se passarem no teste são pessoas. Por exemplo no filme “Blade Runner” o teste Voight-kampff versa sobre a memória, emoção e expressões da linguagem para fazer uma distinção entre pessoa e não pessoa. Porém, considero que esta visão tem implicações graves. Assim, seres humanos que não são pessoas, são apenas um organismo físico (algo semelhante a um computador sem qualquer “software”) sem direitos, abrindo-se por conseguinte caminho para o aborto e a eutanásia. Portanto, a objecção principal à minha tese resume-se no seguinte: possuir todo um conjunto de características é ser pessoa; algumas máquinas podem ter esse conjunto de características; logo, algumas máquinas podem ser pessoas. Se um substrato físico (como o ser humano ou a máquina) não possuir certas características que lhe conferem pessoalidade, então será permitido de certa forma “afastá-los” se não os acharmos funcionais ou se estiverem a causar problemas.

Contudo, imagino o seguinte exemplo: tenho um amigo que toca guitarra, pois já o vi várias vezes a tocar guitarra quando estava na casa dele. Um dia por acaso passei junto da casa desse amigo e ouvi os sons da guitarra. Decidi entrar para elogiar a forma como estava a tocar. Abri a porta, mas o meu amigo não estava a tocar guitarra, apenas vi uma aparelhagem de música ligada. Contudo, os sons que saíam da aparelhagem de música eram indistinguíveis dos do meu amigo a tocar guitarra. Neste caso seria legitimo atribuir pessoalidade ao aparelho de música, pelo facto do meu amigo e do aparelho de música terem a mesma característica funcional de “tocar” guitarra? Com este exemplo posso concluir que ao existirem autores a defender que uma máquina pode ser considerada com aquilo que supostamente caracteriza uma pessoa, recai apenas sobre actividades específicas do conceito que inicialmente apresentei de pessoa, e nunca verá a pessoa como um todo. Portanto, a objecção à minha tese inicial cai na falácia de tomar a parte pelo todo. Pois, tomar apenas uma série de características da pessoa e não a ver como um todo único, e comparar com determinadas funções que uma máquina possa ter, é uma visão redutora de pessoa. Normalmente compara-se apenas algumas características isoladas do comportamento da pessoa com aquilo que algumas máquinas podem ou poderão fazer. Deste modo, não se toma o ser pessoa como um todo, mas facciona-se tomando-se apenas as características que interessam[8]. Para não ocorrer este erro seria, portanto, necessário comparar a pessoa e aquilo que ela poderá ser capaz de fazer como um todo, com aquilo que a máquina é e pode fazer.

Assim, como defendi inicialmente, constato que segundo as minhas crenças de controle a visão mais plausível (e a que funciona melhor) do ser pessoa deve ser abrangente, identificando-se com toda a vida humana. Portanto, a pessoa é um todo relacional desde a concepção[9], num processo sem fim, e repleto de momentos de mérito.

Segundo a definição que apresentei de pessoa, pensar é apenas uma característica que uma pessoa poderá ter ou não. O facto de uma máquina poder pensar não abrange o todo de ser pessoa. Mas, uma máquina poderá realmente pensar como uma pessoa, tendo mente e consciência?

Penso que não existe pensamento fora do âmbito das manifestações mentais e conscientes. Mas o que será a mente? Não posso negar que mente está intimamente relacionada com aquilo a que chamo “pessoa”; é algo que se manifesta a partir do substrato físico da pessoa, nomeadamente do cérebro. Pois, sei que se um pessoa tiver um acidente e danificar o seu cérebro, também afectará as suas actividades mentais. Ou mais simples, se eu for à discoteca e beber vários copos de “Vodka”, é muito provável que a minha mente fique alterada. Então, se alterar o meu corpo, altero a minha mente. Logo, a mente não poderá ser uma substância separada do corpo da pessoa[10].

Mas, se abro a caixa craniana de uma pessoa e observo o seu cérebro vejo apenas uma massa cinzenta composta por uma infinidade de neurónios. No entanto existem muitas coisas que não se vêm de modo imediato e directo. Por exemplo: namoro uma rapariga, sei que namoro com ela. Sinto que ela me quer fazer feliz na minha diferença e eu quero-a fazer feliz na sua diferença. Até tenho peluches que ela me ofereceu como sinal de carinho. Contudo, onde está, onde posso ver, o nosso namoro? Será que o namoro está no ramo de flores que lhe ofereci e na carta quando lhe pedi em namoro? Parece que não! Apenas tenho representações que manifestam o nosso namoro, mas não é o namoro[11]. Pois, é algo que se vive e experiencia para além do empiricamente observável. Do mesmo modo, se uma pessoa sonha com uma árvore toda florida, não vejo essa árvore no seu cérebro; o que poderei ver, se observar atentamente e com meios adequados, são as manifestações neuronais que fazem essa árvore aparecer subjectivamente (qualia) na consciência do sujeito. Mas, por mais que estude o cérebro dessa pessoa nunca saberei como é que essa pessoa experiencia uma árvore florida. Deste modo, apesar das manifestações mentais emergirem a partir do cérebro, não se reduzem ao cérebro.

Assim, considero que replicar propriedades físicas do cérebro numa máquina torna-se insuficiente para existir pensamento. Em primeiro lugar, porque a complexidade do cérebro humano pode realmente tornar-se um grande obstáculo à realização de um mapeamento total do cérebro para uma replicação. E em segundo lugar, mesmo que se consiga esse mapeamento, os problemas não serão todos resolvidos; pois, por exemplo, se eu replicar uma nota de 500€ não só não terá o valor de uma nota de 500€, e ainda por cima será uma falsificação[12]. Do mesmo modo, sendo o cérebro um fruto de um processo natural, ao tentarmos copiar o cérebro então muito possivelmente não será igual ao original, mas algo aproximado, e por conseguinte poderá não replicar as manifestações mentais. Mas, mesmo que se consiga copiar exaustivamente um cérebro original (natural) concreto, que consciência emergirá daquele cérebro cópia? Será uma consciência igual à do cérebro original? Significa que a mesma consciência estará compartilhada por dois cérebros? Como constato, a replicação de um cérebro original (natural) levanta imensos problemas. A emergência de manifestações mentais é um fenómeno complexo, certamente com muitas variáveis (como o contexto, a relação pessoal, entre outros), o que provavelmente tornará remota uma possível replicação do pensamento da pessoa numa máquina.

Em suma: por um lado, segundo as minhas crenças de controle máquinas não são pessoas. A pessoa é um todo muito mais abrangente que a máquina. Por outro lado, mesmo que “um deus da biomecânica” consiga replicar o cérebro humano, não conseguirá necessariamente emergir manifestações mentais e pensamentos, acredito que no máximo poderá acontecer uma “cópia falsificada” do pensamento da pessoa. Mas, esse pensamento nunca conferirá pessoalidade à máquina.

Bibliografia

DENNETT, D. – “Conditions of Personhood”. In: Brainstorms: Philosophical Essays on Mind and Psycology. London: Penguin Books, 1997.

SCOTT, Ridley – Filme Blade Runner. Ficção científica, 1982, 117m.

TEIXEIRA, João Fernandes – “O que é a Filosofia da Mente”. In: Filosofia da Mente no Brasil. http://www.filosofiadamente.org/images/stories/textos/filosofiadamente.doc .

TEIXEIRA, João Fernandes – Mente Cérebro e Cognição. Petrópolis: Vozes, 2000.

TEIXEIRA, João Fernandes – Mentes e Máquinas. Porto Alegre: Artes Médicas, 1998.



[1] TEIXEIRA, João Fernandes – Mentes e Máquinas. Porto Alegre: Artes Médicas, 1998, p. 5.

[2] Como a inseminação artificial ou a fecundação “in vitro”.

[3] A pessoa é ela mesma, não sendo a mesma. Estamos constantemente em mudança, a pessoa que sou hoje não é a mesma que será amanhã (certamente poderei perder algumas células e ganhar outras, pode-me cair cabelo, perder ou ganhar peso, etc…), mas não perco a minha identidade (mesmo estando inconsciente ou morto não perco a minha identidade. Somos seres de relação, e só sou aquilo que sou no encontro com o outro).

[4] Pessoa tem mais qualidade que, por exemplo, uma pedra, laranjeira, ou gato.

[5] Reconhece a alteridade da outra pessoa enquanto outro (inabarcável), mas que ajuda o outro a realizar-se (ser feliz) na sua diferença… mesmo que essa pessoa esteja em estado vegetativo ou inconsciente.

[6] Ou seja, deve respeitar o outro (a pessoa) enquanto outro (pessoa).

[7] Cf. DENNETT, D. – “Conditions of Personhood”. In: Brainstorms: Philosophical Essays on Mind and Psycology. London: Penguin Books, 1997, pp. 267-285.

[8] Baseei-me nas ideias e exemplo de TEIXEIRA, João Fernandes – “O que é a Filosofia da Mente”. In: Filosofia da Mente no Brasil. http://www.filosofiadamente.org/images/stories/textos/filosofiadamente.doc . Acedido a 29 de Março de 2008, p.10.

[9] Entre gâmetas “Homo Sapiens”.

[10] Cf. TEIXEIRA, João Fernandes – Mente Cérebro e Cognição. Petrópolis: Vozes, 2000, p. 17.

[11] Cf. Ibidem, p. 111.

[12] Cf. Ibidem, p. 83.



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