08/07/2009

Mente Cósmica


Contemplo a natureza e questiono: “é supérfluo ou desnecessário o apelo directo a uma inteligência anterior para explicar a origem do cosmos?”. Considero ser uma questão relevante, pois, penso que todo o ser humano pensante tem este desejo primitivo de saber donde veio, ou seja, de saber a causa eficiente que originou tudo quanto existe. Em relação a este tema muitos autores, como Keith Ward, consideram que apenas por meio de uma Mente Cósmica poderá ser explicado o cosmos e a sua inteligibilidade, por outro lado existem outros, como Richard Dawkins, que têm postulado a hipótese da Mente Cósmica como desnecessária, e mesmo irracional.

Eu considero que não é supérfluo, nem desnecessário atender à existência de uma Mente Cósmica, a qual penso que é a melhor hipótese para explicar a origem do cosmos. Para alicerçar esta tese vou fixar-me na complexidade inerente no universo. Constato, então, o ser humano, a sua fisionomia, cada órgão, a consciência. Do mesmo modo, visualizo ecossistemas, leis da natureza, a imensidão do universo, e deparo-me perante uma complexidade tal, que num primeiro instante irreflectido percepciono que somente outro ser (uma Mente Cósmica) poderia realizar elementos desta complexidade.

O teólogo William Paley, há três séculos atrás, toma um relógio e vislumbra a sua complexidade. Pois, ao ser montado com determinada ordem pelas molas e engrenagens dá origem a um todo organizado. Mas, para isso tem que ter um construtor (um relojoeiro). Paley prossegue afirmando que a natureza também demonstra indícios de concepção, uma vez que a natureza é como um relógio, onde há ordem e complexidade. Logo, a natureza tem que ter um criador, e esse criador é uma Mente Cósmica[1].

Contudo, existem autores que defendem que a complexidade só é explicável pela selecção natural e evolução, a qual não precisa de recorrer a uma inteligência cósmica, a um relojoeiro. Neste caso a causa eficiente é cega. Desta forma, os organismos complexos devem-se a “transformações graduais, passo a passo, a partir de começos simples, de entidades primordiais suficientemente simples para terem passado a existir por acaso”[2]. Concomitantemente, esta complexidade resulta da necessidade de sobrevivência do ADN. A sobrevivência é um meio para atingir um fim – a propagação dos genes – onde só os mais fortes sobreviverão. Daí a necessidade de organismos complexos para possibilitarem uma melhor sobrevivência e propagação genética. Neste panorama a Mente Cósmica não tem qualquer utilidade[3].

A teoria da selecção natural explica a complexidade da vida animal. Mas, não acho que entre em conflito com as crenças religiosas, uma vez que é uma teoria científica. E penso que a postulação de uma Mente Cósmica é mais vantajoso, pois, ajuda a fundamentar e a complementar a selecção natural, revendo e corrigindo alguns aspectos.

Entro no “Visual Basic” e começo a digitar ao acaso. A possibilidade de efectuar uma aplicação informática é praticamente nula. Se quero fazer um “software” tenho que ter uma intenção e ver a finalidade que quero atingir. Não crio “software” de modo instantâneo; mas, vou digitando linhas de código simples, básicas, para fundamentar códigos mais complexos. É provável que o programa tenha “bugs”, mas não quer dizer que não cumpriu a sua missão, (ou teve objectivos de mérito). Um vírus pode danificar totalmente o “software”, mas a intenção que tenho é que os objectivos sejam cumpridos.

Considero que a Mente Cósmica dá mais liberdade às linhas de código (cosmos) do que eu, mas segue a mesma lógica. Ela é o ser necessário para que as primeiras linhas de código, as substâncias mais simples surjam, para que estas evoluam para sistemas mais complexos. Pois, Ela conhece todos os possíveis e pode criar todos os seres possíveis[4], por um acto livre de vontade. As linhas de código digitadas não podem vir do nada, tornam-se reais ao serem digitadas por mim (que sou real). O universo é realmente algo, tudo o que é real tem que ser causado por algo real. Logo, o universo tem que ter algo real que o possa causar, ou seja, uma Mente Cósmica[5], que constitua a base de todas as possibilidades não podendo ser causada por nada; pois, Ela é aquele que é; é o ser subsistente em si mesmo.

Pela selecção natural em si mesma era muito improvável que existisse este cosmos em que vivemos. Assim, segundo as minhas crenças de controle é mais vantajoso o apelo a uma Mente Cósmica, que para além de explicar a complexidade do cosmos, explica a sua origem, de um modo simples e provável, com intencionalidade, altruísmo e amor.


Bibliografia

AA.VV. – Bíblia Sagrada – Para o Terceiro Milénio da Encarnação. Coord. de Herculano Alves. Fátima: Difusora Bíblica, 2000.

DAWKINS, Richard – “O Rio que Saía do Éden”. In: Ateus.net - http://www.ateus.net/ebooks/downloads/dawkins_o_rio_que_saia_do_eden.zip .

DAWKINS, Richard – O Relojoeiro Cego. Trad. de Isabel Arez. Lisboa: Edições 70, 1988.

PALEY, William – “Natural Theology”. In: The book page. http://home.att.net/~p.caimi/Paley-Chap1.doc .

WARD, Keith – Deus, o Acaso e a Necessidade. Mem Martins: Publ. Europa-América, 1998.



[1] Cf. PALEY, William – “Natural Theology”. In: The book page. http://home.att.net/~p.caimi/Paley-Chap1.doc - 14/05/07.

[2] DAWKINS, Richard – O Relojoeiro Cego. Trad. de Isabel Arez. Lisboa: Edições 70, 1988, p. 63.

[3] Cf. DAWKINS, Richard – “O Rio que Saía do Éden”. In: Ateus.net - http://www.ateus.net/ebooks/downloads/dawkins_o_rio_que_saia_do_eden.zip - 14/05/07 - pp. 52-70.

[4] Cf. WARD, Keith – Deus, o Acaso e a Necessidade. Mem Martins: Publ. Europa-América, 1998, p. 60.

[5] Cf. WARD, Keith, op. cit., p. 49.



Gostou deste artigo? Receba outros por e-mail, assine a nossa newsletter. Digite aqui o seu e-mail:

Este artigo, com comentários, encontra-se no seguinte tema:
5 Domingos Faria: Mente Cósmica Contemplo a natureza e questiono: “é supérfluo ou desnecessário o apelo directo a uma inteligência anterior para explicar a origem do cosmo...
< >