08/07/2009

A impossibilidade de aniquilar a Metafísica


“Agora vou-te contar o tal segredo. É muito simples: só se vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos”[1].

A metafísica será algo supérfluo e desnecessário para a nossa existência? É possível aniquilar a metafísica? Não precisaremos da metafísica para conhecermos a realidade que nos envolve? Ou a metafísica não passa de uma ilusão? Parecem-me problemas relevantes, uma vez que estamos numa sociedade que tende a subvalorizar o metafísico, dando apenas importância ao que é empiricamente observado, ou cientificamente provado.

Considero que por mais que se tente suprimir a metafísica será sempre impossível a sua eliminação. Aliás, pretendo defender que a pessoa consciente não vive sem metafísica, sendo portanto algo intrínseco à natureza da pessoa.

Entendo por metafísica tudo aquilo que não se reduz ao empiricamente observado, e/ou que está para além do empírico. Não se reduz ao empírico, pois, embora possa ter algum elemento empírico não se esgota nele, e necessariamente o extravasa. Para além do empírico, porque pode englobar algo independente (autónomo) da realidade empírica.

Contemplo uma viola e decido tocar nas suas cordas. Em certas condições, poderá surgir uma melodia. Poderei dizer que a melodia é uma ilusão apenas pelo facto de não a observar empiricamente? O que posso ver[2] são apenas manifestações da melodia (através da viola, das cordas, e dos meus dedos a tocar nas cordas); contudo, não vejo a melodia, só a posso viver[3], experienciar… Ora, a melodia é algo que se apresenta a alguém como não se reduzindo de um modo extensivo ao empírico, transcendendo o verificável. Do mesmo modo, a pessoa não é apenas viola, que pode ser apenas empiricamente observador e observado, mas tem potencialidades (como a vibração das cordas) que possibilitam capacidades que transcendem o simplesmente biológico ou físico (como a melodia).

Se considerarmos que a ultimidade do ser é ser relação, o qual se manifesta de modo mais excelente na relação de amor[4] entre pessoas desde a concepção; logo, a pessoa é sempre metafísica (desde que ame ou seja amada). Pois, não se pode simplesmente provar[5] o amor, mas viver o amor[6]… Perguntar ao amor sobre o amor é impossível, pois negaria o amor, uma vez que o amor é a resposta última e mais plena[7]. Mas, a pessoa consciente é metafísica, pelo menos, como questão[8]; assim, é um ser insatisfeito, “um mistério de perguntas por responder: quem somos nós? De onde vimos? Para onde vamos?”[9]… são questões, que embora possam partir do empírico, transcendem o domínio do meramente observável.

Contudo, por exemplo, os Neopositivistas rejeitam a metafísica, defendendo “que nenhum enunciado referente a uma «realidade» que transcenda os limites de toda a experiência sensorial possível poderá ter qualquer significado literal”[10], logo, serão afirmações sem sentido, não podendo haver verdades ou falsidades que transcendam a experiência empírica. Assim, só pode ser verdadeiro e com sentido o que for verificável empiricamente. A objecção à minha tese poderá resumir-se no seguinte: uma proposição é dotada de sentido se, e somente se cumpre os requisitos do “princípio verificacionista”, ou seja, se um indivíduo “souber como verificar a proposição que a dita frase parece exprimir”[11]. Ora, as proposições metafísicas não satisfazem os requisitos do “princípio verificacionista”. Logo, as proposições metafísicas são sem sentido.

Ayer até defende que o “princípio da verificacionista” poderá ser “em princípio” e em “sentido fraco”[12], abrangendo assim proposições sobre o passado e futuro. Deste modo, segundo o “princípio verificacionista” nenhuma verdade ou falsidade parece poder transcender os meios de verificação. Logo, é possível aniquilar a metafísica.

No entanto, penso que os Neopositivistas deram um salto indevido ao tentarem eliminar a metafísica. Por exemplo: considero a ideia de uma experiência meramente possível, mas não concretizada na prática, necessariamente uma abertura do “princípio verificacionista” para a metafísica. Isto porque ao conceber uma observação que me permita determinar que “em princípio” determinada coisa existe ou não, é estar a especular e a imaginar[13], o que por sua vez é algo que transcende o empírico, sendo portanto metafísica. O “princípio verificacionista” pode implicar uma verificação que envolve metafísica; assim, não é possível eliminar a metafísica.

Mas, o próprio “princípio verificacionista” é metafísico. Os Neopositivistas não conseguem justificar o seu próprio princípio pelo “princípio verificacionista”, pois este refuta-se a si mesmo[14]. Ora, se aceitarmos o “princípio verificacionista”, devemos analisar se este princípio satisfaz as condições impostas por ele próprio, de haver um conjunto de observações que o confirmam. Mas, não é possível ter observações empíricas que confirmam o “princípio verificacionista”, tanto “em princípio”, como em “sentido fraco”. Logo, o “princípio verificacionista” refuta-se a si mesmo, sendo ele próprio metafísico. Assim, a tentativa de eliminar a metafísica é ela mesma metafísica[15].

No entanto, por um lado, o positivismo lógico tem também aspectos positivos que em muito contribuíram para a nossa compreensão do cosmos partindo da observação. Contudo, penso que falhou completamente ao tentar eliminar aquilo que não é possível eliminar. Aniquilar a metafísica implicaria eliminar cultura, pensamento, linguagem, axiomas, ciência, religião, amor,… Mesmo que fosse possível uma linguagem “verificacionista” não seria adequada para falarmos de todas as dimensões da nossa existência.

Por outro lado, não estou a defender uma metafísica ingénua, mas uma metafísica que não pode estar alheia às observações empíricas e às críticas da razão[16]. A metafísica necessita de espírito crítico para não cair em superstição e não se tornar inadequada e irrelevante numa cultura em constante mudança[17].

Deste modo, segundo as minhas crenças de controlo, acredito que a pessoa que tenta abandonar a metafísica: ou pensa que eliminou a metafísica, mas não sabe que na realidade vive a metafísica; ou se porventura “conseguiu” eliminar a metafísica da sua vida, acaba por se asfixiar psiquicamente, num esvaziamento de sentido; pois, para a pessoa sobreviver não pode estar apenas obcecada pelo empírico, a pessoa vive sobretudo do gratuito… Ainda que eu conheça tudo o que é verificável empiricamente, “se não tiver amor, nada sou”[18], e só aí se pode ser feliz.


Bibliografia

AA. VV. – Blog De Rerum Natura. http://dererummundi.blogspot.com/ .

AA.VV. – Bíblia Sagrada – Para o Terceiro Milénio da Encarnação. Coord. de Herculano Alves. Fátima: Difusora Bíblica, 2000.

AYER, A. J. – Linguagem, Verdade e Lógica. Lisboa: Editorial Presença, 1991.

BRANQUINHO, João – “Objecto e Método da Metafísica”. In: Q.E.D. - Website of João Branquinho. http://pwp.netcabo.pt/0154943702/objectoemetodo.pdf.

Filme “Corre Lola Corre”.

PASQUINELLI, Alberto – Carnap e o Positivismo Lógico. Lisboa: Ed. 70, 1983.

PINTO, J. R. Costa – “Amor e Morte: Meditação antropológica”. In: Rev. Port. Filos. 1-4 (1996), pp. 691-694.

POPPER, Karl – “A lógica da Pesquisa Científica”. In: GALVÃO, Artur – Guia da disciplina de Filosofia da Ciência (2007/2008) – (3) O Falsificacionismo de Popper.

SAINT-EXUPÉRY, Antoine de – O Principezinho, Lisboa: Editorial Presença, 2001.



[1] SAINT-EXUPÉRY, Antoine de – O Principezinho, Lisboa: Editorial Presença, 2001, p. 74.

[2] “Ver” entendido como uma constatação pela observação empírica.

[3] A melodia poderá ser quantificável, medível; mas transcende isso pela vivência (experiências subjectivas) de cada pessoa.

[4] Entendo por “Amor” o fazer feliz o outro na sua diferença (concepção que transcende o que é empírico).

[5] “Provar” entendido como uma constatação pela observação empírica.

[6] “Viver o amor” com todas as suas manifestações empíricas, mas não se reduzindo apenas ao que se observa pela experiência. É verdade que quando amo o cérebro produz reacções químicas específicas, mas o amor não se reduz apenas a esse componente biológico. Será que apenas pelo análise biológica saberei exactamente quais os estados subjectivos de quem ama? Que intenções tem (oblação ou possessão)? Qual o projecto da amor (eterno ou ocasional)? Que tipo de amor (filia, ágape, eros)? Penso que certa parte do amor não é quantificável.

[7] Baseei-me nas ideias de PINTO, J. R. Costa – “Amor e Morte: Meditação antropológica”. In: Rev. Port. Filos. 1-4 (1996), p. 692.

[8] Questões, pensamentos, partem do empírico, mas não estão reduzidos à observação do cérebro. Questões que poderão ajudar a revelar Deus como entidade para além do empírico.

[9] Introdução do filme “Corre Lola Corre”.

[10] AYER, A. J. – Linguagem, Verdade e Lógica. Lisboa: Editorial Presença, 1991, p. 10.

[11]“Isto é, se ele souber quais são as observações que o levariam, sob determinadas condições, a aceitar a proposição como verdadeira, ou a rejeitá-la como falsa”. Ibidem, pp. 11-12.

[12] Ibidem, pp. 12. 150.

[13] Tudo o que envolve a mente, consciência, pensamento (como a imaginação, a especulação, sonho), apesar de partir de um substrato empírico (cérebro), necessariamente o transcende (por exemplo: os qualia), sendo assim metafísica.

[14] Baseei-me nas ideias de BRANQUINHO, João – “Objecto e Método da Metafísica”. In: Q.E.D. - Website of João Branquinho. http://pwp.netcabo.pt/0154943702/objectoemetodo.pdf. Acedido em 03/04/08.

[15] Do mesmo modo, Popper defende que “os positivistas, na sua ânsia de aniquilar a metafísica, aniquilam com ela, a Ciência Natural. De facto, leis científicas também não podem ser logicamente reduzidas a enunciados elementares da experiência”. POPPER, Karl – “A lógica da Pesquisa Científica”. In: GALVÃO, Artur – Guia da disciplina de Filosofia da Ciência (2007/2008) – (3) O Falsificacionismo de Popper. P. 6, parágrafo 5.

[16] Uma relação de complementaridade entre metafísica e ciência (enquanto estudo e compreensão da realidade empírica) talvez será a melhor solução para as questões que levantei inicialmente. Uma metafísica sem ciência (e espírito crítico) possivelmente será ilusão. Uma ciência sem metafísica tende a “endeusar-se” ou em certo ponto não será ciência.

[17] Baseei-me nas ideias (comentários) do doutor Alfredo Dinis em resposta a Desidério Murcho. http://dererummundi.blogspot.com/2007/12/f-racionalidade-e-cientismo.html?showComment=1198195740000#c6649833962324215085.

[18] AA.VV. – Bíblia Sagrada – Para o Terceiro Milénio da Encarnação. Coord. de Herculano Alves. Fátima: Difusora Bíblica, 2000 – 1 Cor 13, 2.



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