08/07/2009

Da Ontologia à Ética


1. O mal-estar do ser

Emmanuel Lévinas considera que a “filosofia ocidental foi, na maioria da vezes, uma ontologia: uma redução do Outro ao Mesmo. (…) O primado do Mesmo foi a lição de Sócrates: nada receber de Outrem a não ser o que já está em mim, como se deste toda a eternidade, eu já possuísse o que me vem de fora. (…) O ideal da verdade socrática assenta, portanto, na suficiência essencial do Mesmo, na sua identificação de ipseidade, no seu egoísmo. (…) Conhecer equivale a captar o ser a partir do nada ou a reduzi-lo a nada, arrebatar-lhe a sua alteridade”[1]. Com estas pequenas citações de “Totalidade e Infinito” verificamos que para Lévinas a filosofia ocidental (ontologia) foi sempre uma filosofia de poder, totalitária e geradora de violência que coloca a liberdade antes da justiça, o Eu antes do Outro[2].

Do mesmo modo, este filósofo olha negativamente para o “Il y a”, o Ser-Neutro de Heidegger, isto é, um ser sem essentes que se pode imaginar a partir da diferença ontológica a que Lévinas caracteriza por uma espécie de sentimento de impotência, de neutralidade horrível. Trata-se de uma existência sem existentes[3]. Mas, “afirmar a prioridade do ser em relação ao ente é já pronunciar-se sobre a essência da filosofia, subordinar a relação com alguém que é um ente (relação ética) a uma relação com o ser do ente que, impessoal como é, permite o sequestro, a dominação do ente (a uma relação de saber)”[4]. Assim, a filosofia ocidental foi um arauto da mesmidade, sendo essencialmente um processo de redução ao Mesmo, neutralização do outro, irremissível fechamento na imanência, perda do sentido da diferença não-indiferente. Pois, para Lévinas o problema maior de filosofia não está, como para Heidegger, no esquecimento do Ser, mas sim no esquecimento do outro[5]. Assim, para Lévinas “o ser puro é o mal puro, porque pura indeterminação, impessoalidade, neutralidade, vizinhança do ser com o nada, e assim falta de sentido”[6].

Lévinas detecta o mal como o acontecimento da situação-limite do ser enquanto ser. O mal é a própria afirmação suficientemente absoluta do ser, sem referência a mais nada. Assim, o mal está precisamente em nada mais poder acrescentar-se à afirmação de que o “ser é”. O mal é, deste modo, o mal-estar do ser como afirmação absoluta. O ser é mal-estar, pois, a sua “perfeição” de ser é precisamente a brutalidade do “Il y a”[7].

2. “Eis-me aqui!”

Face ao “mal-estar do ser”, Lévinas, propõe a ética (responsabilidade pelo outro – verdadeira alteridade, com Outrem irredutível a mim, aos meus pensamentos e poderes) como filosofia primeira, antes da ontologia. Deste modo, “o ser liberta-se do seu mal na existência ética, quando o Eu desperta para a diferença do Outro que não é ontológica, mas ética, acessível no Rosto unicamente pela sua palavra inaugural «Não matarás». A partir daí o ser se produz, na subjetividade, como bondade, verdade e multiplicidade de unicidades unidas na paz”[8].

Assim, abre-se caminho para uma filosofia da heteronomia, fundada na experiência do encontro com o radicalmente Outro, que escapa à questão do “ser ou não ser” da filosofia Ocidental. A relação com o Outro (sem que seja ou possa ser integrado no mesmo) permite, também, quebrar a imanência da totalidade. É, portanto, necessário que o eu se encontre face a face com o Outro, isto é, com a alteridade que, ao contrário do ser, ele não possa neutralizar. A relação eu-Outro consegue libertar definitivamente a inumanidade do Ser-Neutro. A Assim, Humanidade aparece como responsabilidade pelo outro; pois, sou eu apenas na medida em que sou relação com o outro e responsável por ele. A relação com o outro não é uma questão de delicadeza, nem se trata de uma relação de simpatia ou empatia; mas, é uma relação assimétrica, relação de respeito pela sua alteridade, de responsabilidade pela sua diferença, que eu não tenho o direito de matar e que introduz na ordem do ser a significação absoluta de ser-para-o-outro, a que se devem submeter todas as relações no ser. Lévinas ensina-nos, desta forma, a força criadora da relação com outrem, dirigida essencialmente pelo dom de si ao outro[9].

“Ao chamamento do outro, a resposta é um simples «eis-me aqui!» que, em última instância, é amor”[10].

3. Morrer pelo outro

Lévinas reflecte sobre o problema da morte, não só devido à certeza da morte, mas fundamentalmente a um acontecimento marcante na biografia do autor, isto é, a Segunda Guerra Mundial. Lévinas viveu intensamente a experiência do Holocauto[11]. É neste contexto que poderemos compreender a sua filosofia, por exemplo: “existindo no mundo, não ocupo o lugar de alguém?”.

Em primeiro lugar, Lévinas apresenta-nos a morte como experiência da alteridade. Lévinas encara a morte como uma realidade “inexorável” e “irreversível”. Necessariamente o ser humano confronta-se com ela, “…a morte apresenta-se-nos com uma alteridade radical que ultrapassa a ontologia e a diferença ontológica de Heidegger”[12]. Diante da morte «poderíamos dizer que [o sujeito] está em relação com o mistério» que é distinto da experiência do nada; a morte é algo inacessível, nunca me aposso dela como de um objecto porque ela nunca está presente; constatamos, assim, que “a alteridade da morte é radical porque nunca tenho experiência da minha morte e, da morte do outro, tenho apenas acesso pelo que vejo e, portanto, acedo a ele sempre através de mediações”[13].

Em segundo lugar, Lévinas esclarece o sentido ou não da morte. Para Heidegger a morte do outro é um factor neutro. Lévinas questiona seriamente se encontra sentido para a morte no ser, acabando por concluir que se tudo se esgotasse no ser, a morte do eu não teria sentido. Lévinas considera que se a afirmação «o ser é o não ser não é» tudo esgotasse, fosse inultrapassável, a morte do eu seria insignificante, a menos que a morte do eu arrastasse a totalidade do ser. Lévinas defende que só há sentido no ser na aproximação eu-outro; e na medida em que essa aproximação é sacrifício, ela confere sentido à morte. A morte, por um lado, desmente o prazer; mas, por outro, sendo ela uma calamidade, permite o encontro com o outro. Assim, para Lévinas, morrer é morrer pelo outro; «a inquietude pela morte de outrem está antes do cuidado por si. Humano do morrer pelo outro que seria o próprio sentido do amor na sua responsabilidade pelo próximo e, talvez, a inflexão primordial do afectivo enquanto tal». Desta forma, é na relação eu-outro (ética) que tudo tem sentido, até mesmo a morte[14].

Por fim, trata do sentido que a morte do outro faz surgir. “A morte do outro exige resposta da minha parte e «não deixar o outrem na solidão». O outro no seu rosto é próximo e a exigência primeira é não o deixar morrer sozinho. (…) É a partir desta responsabilidade pela morte do outro, que não permite ao eu deixá-lo morrer sozinho, que fará sentido morrer pelo outro, morrer por amor ao outro, por amor ao próximo”[15].

Infelizmente, nos dias de hoje, esconde-se a morte; a morte aparece a cada um sem sentido; e o individualismo reinante não permite o aparecimento de contextos em que com a morte surgem algum sentido[16]. No entanto, talvez seja melhor mudarmos para uma mentalidade que nos impulsiona para o Outro e para o Absolutamente Outro; em que o eu, sujeito usurpador, violento e egoísta, se faça coração, sensibilidade e mãos que dão; fazendo, assim, da filosofia uma sabedoria ao serviço do amor.


[1] LEVINAS, Emmanuel – Totalidade e Infinito. Lisboa: Ed. 70, 1988, p. 31.

[2] Cf. PACHECO, Maria Imaculada da Rocha – Ser e Alteridade – A «Evasão» do ser na filosofia de Emmanuel Lévinas. Tese de Mestrado. Funchal: UCP FacFil (extensão Funchal), 1996, p. 7.

[3] Cf. PACHECO, Maria, Ibidem, p. 130.

[4] LEVINAS, Emmanuel, Ibidem, p. 32.

[5] Cf. MATA, José Pedro Nunes da – Emmanuel Lévinas: A inquietação ética perante o discurso ontológico. Tese de Mestrado. Lisboa: Uni. Nova de Lisboa – Fac. Ciências Sociais e Humanas, 1992, p. 290.

[6] KORELC, Martina – O problema do ser na obra de E. Levinas. In: http://tede.pucrs.br/tde_busca/arquivo.php?codArquivo=22. Tese de Doutoramento. Porto Alegre: Uni. Católica do Rio Grande do Sul, 2006, p. 350.

[7] Cf. MATA, José Pedro Nunes da Mata, Ibidem, pp. 219-221.

[8] KORELC, Martina, Ibidem, p. 352.

[9] Cf. PACHECO, Maria, Ibidem, pp. 130-134.

[10]BRITO, José Henrique Silveira de – “O sentido da morte em Lévinas. Da Ontologia à Ética”. In: Lévinas entre nós. Lisboa: Centro de Filosofia da Universidade Lisboa, 2006, p. 35.

[11] Lévinas pertencia ao povo objecto da “solução final” decretada pelo regime nazi. Esteve num campo de concentração. A esposa e filha foram salvas pelas irmãs de São Vicente de Paula. A sua família que vivia na Lituânia foi quase totalmente dizimada durante a guerra.

[12] Cf. BRITO, José Henrique Silveira de, Ibidem, p. 27-28.

[13] BRITO, José Henrique Silveira de, Ibidem, p. 29.

[14] Cf. BRITO, José Henrique Silveira de, Ibidem, pp. 31-34.

[15] BRITO, José Henrique Silveira de, Ibidem, p. 34.

[16] Cf. BRITO, José Henrique Silveira de, Ibidem, pp. 37-38.



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