08/07/2009

Ateísmo – um primeiro passo para a Fé


Comummente os crentes podem ter possivelmente uma certa aversão pelo ateísmo, talvez pelo medo de serem questionados ou incomodados por outros desafios e perspectivas. No entanto, o crente e filósofo judaico Emmanuel Lévinas menciona de forma interessante que “referir-se ao absoluto como ateu é acolher o absoluto depurado da violência do sagrado”[1]. Atendendo a esta afirmação, perspectivamos algumas questões que nos podem auxiliar no nosso caminho reflexivo: Como é que a forma de vida de ateu pode contribuir na purificação de alguma concepção do absoluto[2]? De que forma, como alude Roger Garaudy, a situação de ateu pode ser um primeiro passo para a fé? E de que modo partindo da condição ateia pode existir um melhor acolhimento e desvelar do absoluto?
Sondando a realidade parece-nos que ainda existem muitos seres humanos que se acham possuidores de uma visão total, definitiva e última de Deus ou do mistério, sem qualquer margem para a mínima dúvida, acreditando muitas vezes em «dogmas» inflexivelmente formulados sem hipótese de serem discutidos de forma crítica. Chega-se até a conceber Deus como ditador, empresário, polícia, bombeiro, entre outros… que no fundo é apenas uma projecção de certas relações humanas. Na realidade, pensamos que muitas concepções de Deus ou do mistério não passam de um mero sentimento antropomórfico em que o absoluto dá apenas leis opressoras, proibições absurdas (até diabolizando o prazer), vigiando tudo para castigar quem sair da linha; em que as pessoas metem cunhas, como sacrifícios, para subirem na hierarquia; e em que as relações com Ele são uma espécie de supermercado, negociando promessas, algo parecido com trocas mercantis; em suma, castra a vida.
Num ponto de vista pessoal, consideramos que toda esta panóplia de factos que destacamos obriga ao ateísmo. De facto, só nos poderemos considerar ateus perante um deus ridículo que impede uma efectiva realização e felicidade humanas. Deste modo, concebemos que o ateísmo é fundamental para denunciar o que não é senão uma forma de aviltamento do mistério ou, numa linguagem buberiana, uma degradação do totalmente outro do mistério num mero Isso, enclaustrando-se indevidamente este numa forma limitada e contingente. Perante tal objectualização em vez do mistério ser fonte de revelação e encontro dialogal que plasma o humano de sentido, é uma mera coisa entre coisas, uma forma reificada, que é apenas mais um «Baal», ídolo, ou fantasma.
É preciso admitir, sem medo, que um ateísmo sério pode ajudar a purgar todos estes ídolos e caricaturas que muitas vezes acabamos por venerar. Pelo facto do ateísmo proceder a uma crítica rigorosa possibilita, assim, a aniquilação de todas estas antropomorfizações do divino, ou seja, a eliminação das formas e atributos sempre degradantes que o Homem projecta no absoluto e que não atendem à dignidade humana. Verdadeiramente uma crítica sustentada, como por vezes é apresentada pelo ateísmo, é necessariamente benéfica para qualquer crente não cair no fundamentalismo[3]. Aliás, o ateísmo faz um favor aos crentes por lutar pela eliminação todos os ídolos que impedem o Homem de viver e de ser. Pois, desafia perspectivas que são por vezes tomadas como dogmaticamente seguras e totalmente certas, obrigando a um re-ver das nossas crenças – para ver se afinal cremos num Deus Vivo ou num deus morto.
Do mesmo modo, consideramos que notificações desafiantes, como “There's probably no God. Now stop worring and enjoy your life” (da recente campanha publicitária nos autocarros de Londres)[4], incitam também as pessoas a re-pensarem doutrinas e a sua concepção de Deus ou do mistério, de modo a eliminar tudo aquilo que é apenas uma mera caricatura da fé. Portanto, tais desafios devem ser acolhidos para uma notável purificação do absoluto, para uma fé mais madura e consciente, em vez de serem rejeitados em bloco como normalmente fazem os crentes.
De facto, pensamos que não podemos tomar o ateísmo como algo ameaçador ou competitivo, mas devemos atender que o ateísmo «provoca» nas pessoas o pensar e o interrogar sobre a questão de absoluto, denunciando questões de idolatria e desumanidade, contribuindo assim, mesmo sem o saber, na depuração da concepção do absoluto. Certamente, muito pior seria toda uma ausência de pensamento e interrogação que é um grande convite à criação de mais ídolos e caricaturas. Ademais a atitude ateia é um habituar a desabituar-se, lembrando-nos que não há uma última palavra, que não temos a verdade completa, que não há uma leitura unívoca, mas sim que somos seres finitos, contingentes, com uma linguagem espacio-temporal, que apreendemos a verdade num contexto sempre limitado e, portanto, temos sempre uma leitura penúltima da realidade. Desta forma, consideramos que pelo facto da forma de vida de ateu denunciar situações de idolatria e caricatura, bem como por alertar para assumimos uma espécie de atitude de douta ignorância, pode ser um primeiro grande passo para uma fé mais autêntica, sincera e real, que aponte para um efectivo referencial último de sentido e realização, e em que a glória de Deus seja o Homem vivo (plenamente realizado), como salienta Santo Ireneu. Perante isto certamente se dá um melhor acolhimento e desvelar do absoluto, em que não fabricamos um deus, mas O adoramos “em espírito e verdade” (Jo 4, 23).


[1] E. Lévinas, Totalité et infini, La Haye, 1965, p. 49.
[2] Neste texto, para tentarmos ser claros conceptualmente, concebemos pessoalmente o termo “absoluto” como alusão ao “mistério”, i.e., uma realidade que realiza as funções da divindade, mas mais ampla que esta figura da divindade presente nas religiões do livro. Parece haver congruência entre diferentes tradições ao acentuar a concomitante absoluta transcendência e radical imanência do “mistério”.
[3] Consideramos que a fé do crente para ser uma experiência humana relevante tem que acatar também o espírito crítico. Quando se recusa as instâncias críticas isso pode ser sinónimo de fundamentalismo, fanatismo e intolerância.
[4] Esta campanha ateísta insurgiu-se contra outra campanha que afirmava que os não-cristãos iriam arder por toda a eternidade no inferno. Logo se vê que se trata de mais uma caricatura que seria preciso eliminar.


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