29/07/2009

Admirável Mundo Novo



Será admirável o nosso novo mundo? A quem serve esta civilização que se diz moderna e funcional e, ao aparato das técnicas, sacrifica o espírito?... O espírito, considerado realidade menor, o espírito tolerado, quando não reprimido... Qual, o lugar do homem, numa sociedade dominada pela máquina? Qual, o caminho para o Indivíduo que reivindique a liberdade interior e o direito à sua... individualidade, à sua singularidade? Para o Indivíduo que queira caminhar pêlos próprios pés? Aldous Huxley, um dos maiores escritores contemporâneos, descreve, em «Admirável Mundo Novo», com fantasia e ironia implacável, a sociedade futura totalitarista. Simplesmente, o universo que o grande romancista inglês anima pertence, de certo modo, aos nossos dias. Quase já não pode considerar-se uma ameaça: tomou corpo. O que empresta à leitura desta obra uma força trágica invulgar. Mundo novo? Mundo intolerável? Mundo inabitável? Mundo de onde se deve fugir, de qualquer maneira? Ou, mundo a reconstruir- pedra por pedra? Com uma pureza reconquistada? Aldous Huxley deixa-lhe este montinho de problemas que o leitor poderá- se quiser e souber... - resolver...



"A sala na qual os três foram introduzidos era o gabinete do Administrador.
- Sua Forderia vai descer dentro de um momento. Depois o mordomo Gama deixou-os sós. Helmholtz
começou a rir muito alto.
- Isto parece mais uma reunião de amigos tomando uma solução deíafeína que um julgamento - disse,
deixando-se cair na mais luxuosa das poltronas pneumáticas. - Coração ao alto, Bernard! - acrescentou,
quando o seu'olhar pousou na face esverdeada e infeliz do amigo.
Mas Bernard não queria ser tranquilizado. Sem dar resposta, sem mesmo olhar Helmholtz, foi sentarse
na cadeira mais desconfortável da sala, cuidadosamente escolhida na esperança de conjurar de
qualquer maneira a cólera das potências superiores. Entretanto o Selvagem passeava ao redor da sala,
muito agitado, lançando olhares de uma curíosidade superficial sobre os livros das estantes, sobre os
cilindros de inscrições sonoras e as bobinas das máquinas de leitura nos seus compartimentos
numerados. Em cima da mesa, debaixo da janela, estava um grosso volume encadernado em macio
pseudocouro preto e marcado com grandes TT dourados. Pegou nele e abriu-o. A Minha Vida e a
Minha Obra, por Nosso Ford. O livro tinha sido editado em Detroit pela Sociedade para a Propaganda
do Conhecimento Fordiano. Com um gesto descuidado, folheou as páginas, leu uma frase aqui, um
parágrafo além. Chegara à conclusão de que o livro não lhe interessava, quando a porta se abriu e o
Administrador Mundial Residente da Europa Ocidental entrou com passo rápido na sala.
Mustafá Mond apertou a mão aos três homens. Mas foi ao Selvagem que se dirigiu.
- Assim, ao que parece, não gosta nada da civilização, senhor Selvagem!
O Selvagem olhou-o. Viera disposto a mentir, a fingir-se fanfarrão, a encerrar-se numa reserva sombria. Mas, tranquílizado pela inteligência benévola do rosto
do Administrador, resolveu dizer a verdade com absoluta franqueza.
- Não. - E abanou a cabeça. Bernard sobressaltou-se e mostrou-se horrorizado. Que pensaria o
Administrador? Ser catalogado como amigo de um homem que afirma não gostar da civilização, que o
diz abertamente, e ainda por cima ao próprio Administrador, era terrível.
- Ora essa, john... - começou a dizer. Um olhar de Mustafá Mond reduziu-o ao mais humilde Silêncio.
- Entenda-se desde já - não pôde deixar de reconhecer o Selvagem - que há coisas que são muito
agradáveis. Toda esta música aérea, por exemplo.
- Às vezes, mil instrumentos melodiosos cantarolam em meus ouvidos, e às vezes vozes.
A fisionomia do Selvagem inundou-se de uma súbita alegria.
- O senhor também o leu? Julgava que nunca ninguém tinha ouvido falar deste livro aqui na Inglaterra.
- Quase ninguém. Eu sou uma das raríssimas excepções. Sabe, está proibido. Mas como sou eu que
faço as leis, posso igualmente transgredi-las. Impunemente, senhor Marx - acrescentou, virando-se para
Bernard. - Coisa que, ao que me parece, o senhor não poderá fazer.
Bernard sentiu-se mergulhado num estado de miséria ainda mais desesperada.
- Mas porque está ele proibido? - perguntou o Selvagem. Emocionado por se encontrar em frente de um
homem que tinha lido Shakespeare, esquecera-se momentaneamente de todas as outras coisas.
O Administrador encolheu os ombros.
- Porque é velho, eis a razão principal. Aqui não temos o culto das coisas velhas.
- Mesmo quando são belas?
- Sobretudo quando são belas. A beleza atrai, e nós não queremos que as pessoas sejam atraídas pelas
coisas velhas. Queremos que amem as coisas novas.
- Mas as novas são tão estúpidas@ tão horrorosas! Estes espectáculos onde só há helicópteros a voar
por todos os lados e onde se sentem as pessoas que se beijam! - Fez uma careta. - Bodes e macacos! -
Só repetindo as palavras de Othello pôde manifestar convenientemente o seu desprezo e o seu ódio.
- Animais bem gentis e nada desagradáveis, no entanto - murmurou o Administrador, como num
parêntesis.
- Porque não lhes dá para apreciação o Othello?
- já lhe disse: é velho. E, por outro lado, eles não compreenderiam.
Sim, era verdade. Lembrou-se de como Helmholtz tinha rido de Romeu e julieta.
- Pois bem! Então - continuou depois de um silêncio - qualquer coisa nova semelhante ao Othello e que
eles sejam capazes de compreender. - Aí está o que todos nós há muito desejamos escrever - disse
Helmholtz, rompendo um silêncio prolongado.
- E é o que você nunca escreverá - disse o Administrador - porque, se a obra se parecesse realmente
com o Othello ninguém estaria em condições de a compreender. E, se fosse coisa nova, não se podia
parecer em nada com o Othello.
- Porque não?
- Sim, porque não? - repetiu Helmholtz. Esquecia também as realidades desagradáveis da situação.
Verde de terror e de apreensão, Bernard era o único que se lembrava. Mas os outros não reparavam
nele. - Porque não?
- Porque o nosso mundo não é o mesmo que o de Othello. Não se podem fazer calhambeques sem aço e
não se podem fazer tragédias sem instabilidade social. O mundo é estável, agora. As pessoas são
felizes, conseguem o que querem e nunca querem aquilo que não podem obter. Sentem-se bem, estão
em segurança, nunca estão doentes, não receiam a morte, vivem numa serena ignorância da paixão e da
velhice, não são sobrecarregadas com pais e mães, não têm mulheres, nem filhos, nem amantes, pelos quais poderiam sofrer emoções
violentas, estão de tal modo condicionadas que, praticamente, não podem deixar de se portar como
devem. E se por acaso alguma coisa correr mal, há o soma, que o senhor atira friamente pela janela em
nome da liberdade, senhor Selvagem. A liberdade! - Pôs-se a rir. - O senhor espera que os Deltas
saibam o que é a liberdade!
E agora espera que os Deltas sejam capazes de compreender Othello! Meu caro amigo!
- Apesar de tudo - insistiu obstinadamente o Selvagem, que se mantivera calado -, é belo, é melhor que
os filmes perceptíveis.
- Não há dúvida - assentiu o Administrador. - Mas esse é o preço que temos de pagar pela estabilidade.
É preciso escolher entre a felicidade e o que outrora se chamava a grande arte. Nós sacrificamos a
grande arte. Temos em seu lugar os filmes perceptíveis e os órgãos de perfumes.
- Mas são coisas sem sentido nenhum.
- Têm o seu sentido próprio. Representam para os espectadores uma porção de sensações agradáveis.
- Mas, contudo... são narrados por um idiota.
O Administrador pôs-se a rir.
- Você não está a ser muito delicado para o seu amigo senhor Watson. Um dos nossos mais distintos
engenheiros de emoção ...
- Mas ele tem razão - concordou Helmholtz com uma tristeza sombria. - É realmente idiota. Escrever
quando se não tem nada a dizer...
- Exactamente. Mas isso exige uma habilidade extraordinária. Fabricamos calhambeques com o
mínimo possível de aço, obras de arte utilizando apenas sensação pura.
O Selvagem abanou a cabeça.
- Tudo isso me parece absolutamente horrível.
- Sem dúvida. A felicidade real parece sempre bastante sórdida quando comparada com as largas
compensações que se encontram na miséria. E é evidente que a estabilidade, como espectáculo, não
chega aos calcanhares da instabilidade. E o facto de se estar satisfeito não tem nada do encanto mágico
de uma boa luta contra a desgraça, nada do pitoresco de um combate contra a tentação ou de uma
derrota fatal sob os golpes da paixão ou da dúvida. A felicidade nunca é grandiosa.
- É evidente - concordou o Selvagem, depois de um silêncio. - Mas será indispensável atingir o grau de
horror de todos estes gémeos? - Passou as mãos pelos olhos como se tentasse apagar a lembrança da
imagem daquelas longas fileiras de anões idênticos nos bancos de montagem, daquelas manadas de
gémeos em bicha na estação do monocarril de Brentford, daquelas larvas humanas invadindo o leito de
morte de Linda, do rosto indefinidamente repetido dos assaltantes. Olhou a mão esquerda coberta por
um penso e estremeceu. - Horrível!
- Mas tão útil! Estou a ver que não gosta dos nossos grupos Bokanovsky, mas, garanto-lhe, eles são os
alicerces sobre os quais está edificado o restante. São o giroscópio que estabiliza o avião-foguete do
Estado na sua marcha inflexível. - A voz profunda vibrava, fazendo-o palpitar, a mão gesticulante
representava implicitamente todo o espaço e o impulso da irresistivel máquina. O talento oratório de
Mustafá Mond estava quase ao nível dos modelos sintéticos.
- Pergunto a mim próprio - disse o Selvagem - como consegue tolerá-los no final de contas, dado poder
produzir aquilo que quiser nessas provetas. já que está entregue a essa função, porque não faz de cada
um deles um Alfa-Mais-Mais?
Mustafá riu novamente.
- Porque não temos vontade nenhuma de nos fazer estrangular - respondeu. - Acreditamos na felicidade
e na estabilidade. Uma sociedade composta de Alfas não poderia deixar de ser instável e miserável.
Imagine uma fábrica onde todo o pessoal fosse constituído por Alfas, quer dizer, por indivíduos
distintos, sem relações de parentesco, de boa hereditariedade e condicionados de forma a serem capazes (dentro de certos limites) de escolher livremente e de arcar com
responsabilidades. Imagine isso ! - repetiu.
O Selvagem tentou imaginar, mas sem grande sucesso.
- É um absurdo. Um homem decantado em Alfa, condicionado em Alfa, enlouqueceria se tivesse de
fazer o trabalho de um Epsilão semiaborto, enlouqueceria ou começaria a destruir tudo. Os Alfas
podem ser completamente socializados, mas com a condição de só os obrigarem a fazer trabalhos de
Alfas. Só a um Epsilão se pode pedir que faça os sacrifícios de um Epsilão, pela boa razão de que se
não trata de sacrifícios. É a linha ' da menor resistência. O seu condicionamento traçou a via que terá de
percorrer. Não tem outro remédio, está fatalmente predestinado. Mesmo depois da decantação, está
sempre dentro de uma proveta, de uma invisível proveta de fixações infantis e embrio nárias. Cada um
de nós, já se vê - prosseguiu meditativamente o Administrador -, atravessa a vida dentro de uma
proveta. Mas se acontece sermos Alfas, a nossa proveta, relativamente, é enorme. Sofreríamos
intensamente se estivéssemos condicionados num espaço mais limitado. Não se pode deitar
pseudochampanhe para castas superiores em provetas da casta inferior. É teoricamente evidente. Mas é
coisa que está igualmente demonstrada na vida real. O resultado da experiência de Chipre foi
convincente.
- Masque experiência foi essa? -perguntou o Selvagem. Mustafá Mond sorríu.
- Pode-se, sem dúvida e se o quisermos, designá-la como uma experiência de reemprovetamento. A
experiência começou no ano 473 de N. F. Os Administradores fizeram evacuar da ilha de Chipre os
habitantes existentes e recolonizaram-na com um lote especialmente preparado de vinte e dois mil
Alfas. Confiou-se-lhes um equipamento agrícola e industrial muito completo e deixou-se-lhes a
responsabilidade de gerirem os seus negócios. Os resultados estiveram em completo acordo com todas
as previsões teóricas. A terra não foi convenientemente trabalhada, houve greves em todas as fábricas,
as leis valiam menos que nada, desobedeciam às ordens dadas, todas as pessoas destacadas para
efectuar uma missão de categoria inferior passavam o tempo a fomentar intrigas, tentando obter
trabalho de categoria mais elevada, e todas as pessoas dos cargos superiores fomentavam contraintrigas
para poderem continuar, por qualquer preço, nos lugares que ocupavam. Em menos de seis
anos estavam embrulhados numa guerra civil de primeira ordem. Quando, dos vinte e dois mil, foram
mortos dezanove mil, os sobreviventes fizeram uma petição unânime aos Administradores Mundiais a
fim de estes retomarem o governo da ilha. Foi o que se fez. E assim terminou a única sociedade de
Alfas de que o mundo teve conhecimento.
O Selvagem soltou um profundo suspiro.
- A população óptima - continuou Mustafá Mond - deve obedecer ao modelo do iceberg: oito nonos
abaixo da linha de flutuação, um nono acima da linha.
- E os que estão abaixo da linha de flutuação sentem-se felizes?
Maisfelizes que os de cima. Mais felizes que os seus dois amigos que estão aqui, por exemplo. - E
apontou-os com o dedo.
- Apesar do trabalho horrível?
- Horrível? Mas essa não é a opinião deles. Pelo contrário, agrada-lhes. É leve e de uma simplicidade
infantil. Nenhum esforço excessivo nem para o espírito, nem para os músculos. Sete horas e meia de
um trabalho leve, nada esgotante, e depois a ração de soma, os desportos, a cópula sem restrições e o
cinema perceptível. Que mais podiam eles pedir? É certo - acrescentou - que poderiam pedir uma
jornada de trabalho mais curta. E, bem entendido, podíamos conceder-lha. Tecnicamente, seria
perfeitamente possível reduzir a três ou quatro horas a jornada de trabalho das castas inferiores. Mas
isso torná-las-ia mais felizes? Não, em nada. A experiência foi tentada há mais de século e meio. Toda
a Irlanda foi colocada no regime da jornada de quatro horas. E qual foi o resultado? Perturbações e um
acréscimo notável do consumo de soma. Mais nada. Estas três horas e meia de folga suplementar
estavam tão longe de ser uma fonte de felicidade que as pessoas se viam obrigadas a evadir-se pelo
soma. O Gabinete de Invenções regurgitava de planos de dispositivos destinados a poupar a mão-deobra.
Há milhares.
- Mustafá Mond fez um gesto largo. - E porque não os pomos em execução? Para bem dos
trabalhadores. Seria pura crueldade proporcionar-lhes folgas excessivas. E acontece o mesmo com a agricultura. Poderíamos fabricar por
síntese a mais ínfima parcela dos nossos alimentos, se o quiséssemos. Mas não o fazemos. Preferimos
conservar no trabalho da terra um terço da população. Para seu próprio bem, porque é preciso mais
tempo para obter os elementos a partir da terra do que utilizando as fábricas. Além de que precisamos
de pensar na nossa estabilidade. Não queremos mudar. Qualquer mudança é uma ameaça para a
estabilidade. Aqui está uma outra razão para que estejamos tão pouco inclinados a utilizar invenções
novas. Qualquer descoberta da ciência pura é potencialmente subversiva; qualquer ciência tem de ser,
às vezes, tratada como um possível inimigo. Sim, mesmo a ciência.
A ciência? O Selvagem franziu os sobrolhos. Conhecia a palavra. Mas o que realmente significava,
john não o sabia. Nem Shakespeare nem os velhos do pueblo tinham mencionado a ciência e de Linda
recebera apenas indicações muito vagas: a ciência é qualquer coisa com que se fazem os helicópteros,
qualquer coisa que faz que nós zombemos das Danças do Trigo, qualquer coisa que nos impede de criar
rugas e de perder os dentes. Fez um esforço desesperado para entender o que o Administrador queria
dizer.
- Sim - dizia Mustafá Mond -, esta é outra parcela no passivo da estabilidade. Não é apenas a arte que é
incompatível com a felicidade. Há também a ciência. A ciência é perigosa; somos obrigados a mantê-la
cuidadosamente acorrentada e amordaçada.
- Como? - interveio Helmholtz admiradíssimo. - Mas nós repetimos continuamente que a ciência é tudo
no mundo. É um truísmo hipnopédico.
- Três vezes por semana, dos treze aos dezassete anos - precisou Bernard.
- E toda a propaganda científica que efectuamos no colégio...
- Sim, mas que espécie de ciência? - perguntou sarcasticamente Mustafá Mond. - Você não recebeu
cultura científica, de maneira que não está em condições de julgar. Pela minha parte, era muito bom
físico, nos meus tempos. Muito bom, suficientemente bom para me aperceber de que toda a nossa
ciência não passa, afinal, de um livro de cozinha, com uma teoria ortodoxa da arte culinária de que
ninguém tem o direito de duvidar e uma lista de receitas às quais é preciso nada acrescentar, a não ser
com a autorização especial do Primeiro Chefe. Agora, sou eu o Primeiro Chefe. Mas houve tempo em
que não passava de um jovem bicho de cozinha, cheio de curiosidade. E comecei a cozinhar à minha
maneira. Cozinha heterodoxa, cozinha ilícita. Um pouco de ciência verdadeira, em suma. - Calou-se.
- E que lhe aconteceu? - perguntou Helmholtz Watson.
O Administrador suspirou.
- Mais ou menos o que lhes vai acontecer, meus jovens amigos. Estive quase a ser enviado para uma
ilha.
Estas palavras galvanizaram Bernard, provocando nele uma actividade violenta e fora do vulgar.
- Enviar-me para uma ilha, a mim? - Levantou-se num salto, atravessou a sala a correr e parou,
gesticulando, diante do Administrador. - O senhor não me poderá mandar. Não fiz nada. Foram os
outros. juro que foram os outros. - E apontava com dedo acusador Helmholtz e o Selvagem. - Oh!,
peço-lhe, não me mande para a Islândia. Prometo fazer tudo o que devo fazer. Dê-me ainda outra
oportunidade de me emendar. Peço-lhe, dê-me uma oportunidade! - Começaram a correr-lhe as
lágrimas. - É culpa deles, já lhe disse - soluçou. - E não para a Islândia. Oh! Suplico-lhe, Sua Forderia,
suplico-lhe... - E, num paroxismo de baixa humildade, atirou-se de joelhos aos pés do Administrador.
Mustafá Mond tentou obrigá-lo a levantar-se; mas Bernard persistiu na sua atitude. O fluxo de palavras
corria inesgotavelmente. Por fim o Administrador viu-se obrigado a tocar para chamar o seu quarto
secretário.
- Traga três homens - ordenou - e leve o senhor Marx para um quarto de dormir. Dê-lhe uma boa
vaporização de soma, meta-o depois na cama e deixe-o só.
O quarto secretário saiu para voltar com três criados gémeos de uniforme verde. Arrastaram Bernard,
que continuava a gritar e a soluçar.
- Dir-se-ia que o vão estrangular - comentou o Administrador, depois de a porta se ter fechado. - Se ele
tivesse a mais leve parcela de bom senso, compreenderia que o castigo é, na realidade, uma
recompensa. Mandamo-lo para uma ilha. Quer dizer, mandamo-lo para um lugar onde estará em
contacto com a mais interessante sociedade de homens e mulheres existente em qualquer parte do mundo, todas as
pessoas que, por esta ou aquela razão, tomaram individualmente excessiva consciencia do seu eu para
poderem adaptar-se à vída em comum, todas as pessoas insatisfeitas com a ortodoxia, que têm ideias
independentes, bem pessoais, todos aqueles que, numa palavra, são alguém. Nem sei mesmo a razão
por que o não mando para lá, senhor Watson.
Helmholtz riu-se.
- Então qual a razão por que não está o senhor numa ilha?
- Porque, no fim de contas, preferi isto - respondeu o Administrador. - Deram-me a escolher: ser
enviado para uma ilha, onde me seria possível continuar os meus estudos de ciência pura, ou então ser
admitido no Conselho Supremo, com a perspectiva de ser promovido em tempo oportuno a um cargo
de Administrador. Escolhi isto e abandonei a ciência. - Depois de um breve silêncio, acrescentou: - Às
vezes tenho pena de ter deixado a ciência. A felicidade é uma soberana exigente, sobretudo a felicidade
dos outros. Uma soberana bastante mais exigente, se não estamos condicionados para a aceitar sem
discussões, que a verdade. - Suspirou, recaindo no silêncio. Depois continuou em tom vivaz: - Enfim, o
dever é o dever. Não se pode consultar as preferências pessoais. Interesso-me pela verdade, amo a
ciência. Mas a verdade é uma ameaça, a ciêncía é um perigo público. Ela é actualmente tão perigosa
como já foi benfazeja. Deu-nos o equilíbrio mais estável que a história registou. O da China era, em
comparação, desesperadamente pouco firme; até os matriarcados primitivos não estavam tão firmes
como nós o estamos. Graças, repito-o, à ciência. Mas não podemos permitir à ciência que desfaça o
bom trabalho que realizou. Aqui está porque estabelecemos com tanto cuidado os limites das suas
investigações, eis porque estive prestes a ser enviado para uma ilha. Apenas lhe permitimos que se
ocupe dos problemas mais urgentes do momento. Todas as outras pesquisas são cuidadosamente
desencorajadas. É curioso -continuou depois de uma curta pausa - ler o que se escrevia na época de
Nosso Ford acerca do progresso científico. Parece que pensavam que se lhe podia permitir que se
processasse indefinidamente, sem consideração por qualquer outra coisa. O saber era o deus mais
alto, a verdade o valor supremo. Tudo o mais era secundário e subordinado. É verdade, também, que as
ideias começaram a modificar-se a partir dessa época. Nosso Ford fez muito para tirar à verdade e à
beleza a importância que lhe concediam, transferindo essa importância para o conforto e para a
felicidade. A produção em massa exigia esta transferência. A felicidade universal mantinha as
engrenagens em funcionamento muito regular, a verdade e a beleza não eram capazes de tal. E,
esclareça-se, cada vez que as massas se apoderavam do poder político ' era a felicidade, mais que a
verdade e a beleza, o que importava. Todavia, e apesar de tudo, as investigações científicas sem
restrições eram ainda autorizadas. Continuava-se sempre a falar da verdade e da beleza como se fossem
os bens supremos. Até à época da Guerra dos Nove Anos, que os forçou a falar noutro tom, posso
garantir-lhes! QUe sabor podem ter a verdade ou a beleza quando as bombas de antracite rebentam à
nossa volta? Foi então que a ciência começou a ter as rédeas apertadas, depois da Guerra dos Nove
Anos. Nesse momento as pessoas estavam até dispostas a deixar encurtar as rédeas ao apetite. Fosse o
que fosse, desde que pudessem viver sossegadas. Desde então continuamos a apertar as rédeas. Isso
não foi lá grande coisa para a verdade, claro. Mas foi excelente para a felicidade. É impossível
conseguir-se alguma coisa por nada. A felicidade tem de ser paga. O senhor paga, senhor Watson, o
senhor paga porque me parece que se interessa excessivamente pela beleza. Eu interessava-me muito
pela verdade. Por isso também paguei.
- Mas o senhor não foi para uma ilha - disse o Selvagem, quebrando um longo silêncio.
O Administrador sorriu.
- Foi desta forma que eu paguei. Escolhendo servir a felicidade. A dos outros, não a minha. Ainda bem
- acrescentou depois de um silêncio - que há tantas ilhas no mundo. Não sei que faríamos sem elas.
Seríamos obrigados a metê-los todos na câmara de gás, suponho. A propósito, senhor Watson, agradarlhe-
ia uma ilha de clima tropical? As Marquesas, por exemplo? Ou Samoa? Ou ainda qualquer coisa
mais excitante?
Helmholtz levantou-se da poltrona pneumática.
- Gostaria mais de um clima fundamentalmente mau respondeu. - Parece-me que se poderia escrever
melhor num clima mau. Se lá houvesse vento e tempestades em abundância, por exemplo...
O Administrador manifestou a sua aprovação com um sinal de cabeça.
- A sua coragem agrada-me, senhor Watson. Agrada-me extraordinariamente. Tanto quanto a
desaprovo oficialmente. Sorriu. - Que pensaria das ilhas Falkland?
- Sim, parece-me que me servirão - concordou Helmholtz.
- E agora, se me dá licença, vou ver o que é feito desse pobre Bernard".

Aldous Huxley - Admirável Mundo Novo - Cap. 16.


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