10/10/2008

Os descobrimentos e o o significado filosófico da experiência...


Penso que não podemos passar ao lado da época áurea dos portugueses ("dar novos mundos ao mundo"), com os descobrimentos, e aí implicado com o desenvolvimento da experiência [1]. Nos descobrimentos portugueses (séc. XVI) começou-se a usar a experiência como aproximação da verdade. "A experiência é, no Renascimento português, um conceito com intervenção global, um quase universal que não é exclusivo de qualquer campo ou programas" [2]. Os portugueses estavam a demarcar a época em relação aos conhecimentos que adquiriram. Aplicavam directamente os conhecimentos adquiridos, corrigindo os antigos. O conceito de experiencia adquire uma aspecto fenomenológico (vai mais na linha do empirismo), mas mais gnoseológico e metafísico. Para os portugueses a experiência "é madre das coisas que nos desengana e de toda a dúvida nos tira" [3], é uma experiência caracterizada por "empirismo sensorial". Contudo, não gera novos conhecimentos, apenas vem alterar conhecimentos anteriores.
Há, pois, que distinguir na experiência o empirismo sensorial e o racionalismo experiencial. Para o "empirismo sensorial, a experiência é vivência/acção individual de cada ser humano; acumulação informativa de dados da realidade; evidência da observação imediato-qualitativa em especial visual. (…) Pelo contrário, para o racionalismo experiencial, a experiencia é: observação quantitativa (maioritária) ou qualitativa (minoritária), repetida, comparada pluripessoal e transmissível com fundamentação; acumulação informativa de dados da realidade que devem ser interrogados criticamente porque não constituem em si mesmo evidência/certeza mas, tão-só, quadro fenomenal recolhido; acção racional especializada do ser humano no seu domínio de mundo e vida" [4]. Por um lado, a acentuação dominante da existência como evidencia empírico leva à ausência do lugar e função da teoria, enquanto que no racionalismo experiencial não acontece isso, pois, a acentuação dominante da observação instrumental e quantitativa, repetida e comparada, produz um lugar para o encontro da teoria e da prática.
Penso que os portugueses nos descobrimentos não foram muito felizes ao ficarem apenas pela experiência entendida apenas como "empirismo sensorial". Certamente ganhariam muito mais se adoptassem um "racionalismo experiencial", algo mais bem próximo da ciência moderna. Mas temos que reconhecer que inicialmente deram um passo importante.
Em suma, os descobrimentos marcaram o início de uma nova actividade de reflexão teórica (saber experiencial), mas sem o devido aprofundamento especulativo e sistemático.
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[1] – Experiência – coisa ou conjunto de coisas que foram provadas, enquanto dadas imediatamente a um sujeito cognoscente sensitivo ou intelectivo, quer o próprio conhecimento ou conjunto de conhecimentos que derivam de coisas dadas imediatamente a um cognoscente. (Logos 2 – col. 405).
[2] – História do pensamento português. p. 24
[3] – Duarte Pacheco Pereira – Esmeraldo de Situ Orbis. Livro 1, cap. 2.
[4] – História do pensamento português. pp. 26-27


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Domingos Faria

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