10/10/2008

Escolástica Restaurada


O sentido da restauração escolástica refere-se sobretudo a uma mudança de orientação. A escolástica medieval era apologética cristã ("Philosophia Ancilla Theologiae"). Com os Conimbricenses a orientação começa a ser o saber como tal (autonomização da filosofia), partindo da observação (da natureza). Assim, a filosofia serve de suporte a um saber, para servir a sociedade, mas não fechando caminho para o transcendente.

A grande novidade dos Conimbricenses prendia-se nomeadamente com uma nova metodologia, sobretudo com a importância da leitura das fontes no original [1], dando um enorme relevo aos textos de Aristóteles [2]. O objectivo principal era a interpretação do texto aristotélico, e do mesmo modo o esforço de sistematização filosófica [3]. O núcleo do curso Conimbricense era composto pelas obras centrais da Física aristotélica, mas também eram abordadas a Lógica, e a Ética [4]. Mas, o interesse dominante era sem dúvida a Física ou a Filosofia da Natureza [5], significando um voltar-se para a natureza (regresso ao naturalismo) retomando aquilo que os clássicos tinham deixado como orientação (uma certa recuperação da tradição). Este esforço de publicar compêndios para facilitar o trabalho de estudante e professores não significou a elaboração de um comentário "ingénuo" dos textos aristotélicos, mas há um certo empenho de abertura à novidade; assim, por exemplo, o Conimbricense "não hesita em rejeitar determinadas teses do texto aristotélico por não estarem em conformidade com a opinião comum dos médicos" [6]. Temos que reconhecer que os textos dos Conimbricenses marcaram "uma área da cultura portuguesa de fins do séc. XVI e princípios do séc. XVII e tiveram alguma projecção no estrangeiro", participando deste modo "num vasto e complexo processo que esteve na origem de parte significativa do racionalismo moderno" [7]. No entanto, possuíam uma certa rigidez conservadora que os impediu de receberem importantes inovações, principalmente foram acusados de defenderem uma física ultrapassada pela física moderna [8].

Em suma: "Nesse seu esforço de tradução, comentário e transmissão da obra aristotélica, à luz de uma clara opção pelo tomismo e em detrimento do escotismo e do nominalismo, os mestres conimbricenses sobressairam no panorama da história da filosofia sobretudo pelo método claro, breve, e tão simples quanto possível, sempre tendo em vista um ideal pedagógico de transmissão eficaz desses conteúdos doutrinais, embora na base do rigor filológico e da fidelidade aos textos, que não impedia, contudo, o debate e a discussão das opiniões pró e contra e, sobretudo, a discussão e o confronto com os novos avanços científicos dos quais de modo algum permaneceram alheados, como mais tarde se pretendeu fazer crer" [9].

Pessoalmente considero que tem sempre sentido uma "restauração" da filosofia para assim se adequar à realidade e à sociedade em constante mutação. Concebo que a filosofia parte da vida. E se a vida (contexto cultural) mudar, a filosofia tem que partir daí, para depois reflectir e voltar novamente à vida (mais consciente, e com possibilidade de mudar o que parece não ter sentido). Considero que a reflexão filosófica é algo natural à pessoa para ser feliz; assim, a filosofia é necessariamente uma reflexão em função da vida. Como defende S. Agostinho: "Nulla est homini causa philosophandi nisi ut beatus sit" [10] (o homem não tem outro motivo para filosofar, senão o desejo de ser feliz). E esta felicidade alcança-se na vida em permanente mudança, que se reflecte e que se vive. Logo, não tem só sentido no século XXI uma "restauração" da reflexão filosófica, como terá sempre sentido.

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[1] – MARTINS, António Manuel – Logos. Enc. Luso-Brasileira de Fil. Vol. 1. Col. 1114. [2] – Ibidem, col. 1115. [3] – Ibidem, col. 1116. [4] – Ibidem, col. 1117. [5] – Ibidem, col. 1119. [6] – Ibidem, col. 1122. [7] – Ibidem, col. 1123. [8] – Ibidem, col. 1124. [9] – CALAFATE, Pedro – "Pedro da Fonseca e os conimbricenses". In: Filosofia Portuguesa. http://www.instituto-camoes.pt/cvc/filosofia/ren13.html . [10] – AGOSTINHO – Cidade de Deus. Livro 19. Cap. 1.
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Domingos Faria


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