Comummente os crentes podem ter possivelmente uma certa aversão pelo ateísmo, talvez pelo medo de serem questionados ou incomodados por outros desafios e perspectivas. No entanto, o crente e filósofo judaico Emmanuel Lévinas menciona de forma interessante que “referir-se ao absoluto como ateu é acolher o absoluto depurado da violência do sagrado”[1]. Atendendo a esta afirmação, perspectivamos algumas questões que nos podem auxiliar no nosso caminho reflexivo: Como é que a forma de vida de ateu pode contribuir na purificação de alguma concepção do absoluto[2]? De que forma, como alude Roger Garaudy, a situação de ateu pode ser um primeiro passo para a fé? E de que modo partindo da condição ateia pode existir um melhor acolhimento e desvelar do absoluto?
Sondando a realidade parece-nos que ainda existem muitos seres humanos que se acham possuidores de uma visão total, definitiva e última de Deus ou do mistério, sem qualquer margem para a mínima dúvida, acreditando muitas vezes em «dogmas» inflexivelmente formulados sem hipótese de serem discutidos de forma crítica. Chega-se até a conceber Deus como ditador, empresário, polícia, bombeiro, entre outros… que no fundo é apenas uma projecção de certas relações humanas. Na realidade, pensamos que muitas concepções de Deus ou do mistério não passam de um mero sentimento antropomórfico em que o absoluto dá apenas leis opressoras, proibições absurdas (até diabolizando o prazer), vigiando tudo para castigar quem sair da linha; em que as pessoas metem cunhas, como sacrifícios, para subirem na hierarquia; e em que as relações com Ele são uma espécie de supermercado, negociando promessas, algo parecido com trocas mercantis; em suma, castra a vida.
Num ponto de vista pessoal, consideramos que toda esta panóplia de factos que destacamos obriga ao ateísmo. De facto, só nos poderemos considerar ateus perante um deus ridículo que impede uma efectiva realização e felicidade humanas. Deste modo, concebemos que o ateísmo é fundamental para denunciar o que não é senão uma forma de aviltamento do mistério ou, numa linguagem buberiana, uma degradação do totalmente outro do mistério num mero Isso, enclaustrando-se indevidamente este numa forma limitada e contingente. Perante tal objectualização em vez do mistério ser fonte de revelação e encontro dialogal que plasma o humano de sentido, é uma mera coisa entre coisas, uma forma reificada, que é apenas mais um «Baal», ídolo, ou fantasma.
É preciso admitir, sem medo, que um ateísmo sério pode ajudar a purgar todos estes ídolos e caricaturas que muitas vezes acabamos por venerar. Pelo facto do ateísmo proceder a uma crítica rigorosa possibilita, assim, a aniquilação de todas estas antropomorfizações do divino, ou seja, a eliminação das formas e atributos sempre degradantes que o Homem projecta no absoluto e que não atendem à dignidade humana. Verdadeiramente uma crítica sustentada, como por vezes é apresentada pelo ateísmo, é necessariamente benéfica para qualquer crente não cair no fundamentalismo[3]. Aliás, o ateísmo faz um favor aos crentes por lutar pela eliminação todos os ídolos que impedem o Homem de viver e de ser. Pois, desafia perspectivas que são por vezes tomadas como dogmaticamente seguras e totalmente certas, obrigando a um re-ver das nossas crenças – para ver se afinal cremos num Deus Vivo ou num deus morto.
Do mesmo modo, consideramos que notificações desafiantes, como “There's probably no God. Now stop worring and enjoy your life” (da recente campanha publicitária nos autocarros de Londres)[4], incitam também as pessoas a re-pensarem doutrinas e a sua concepção de Deus ou do mistério, de modo a eliminar tudo aquilo que é apenas uma mera caricatura da fé. Portanto, tais desafios devem ser acolhidos para uma notável purificação do absoluto, para uma fé mais madura e consciente, em vez de serem rejeitados em bloco como normalmente fazem os crentes.
De facto, pensamos que não podemos tomar o ateísmo como algo ameaçador ou competitivo, mas devemos atender que o ateísmo «provoca» nas pessoas o pensar e o interrogar sobre a questão de absoluto, denunciando questões de idolatria e desumanidade, contribuindo assim, mesmo sem o saber, na depuração da concepção do absoluto. Certamente, muito pior seria toda uma ausência de pensamento e interrogação que é um grande convite à criação de mais ídolos e caricaturas. Ademais a atitude ateia é um habituar a desabituar-se, lembrando-nos que não há uma última palavra, que não temos a verdade completa, que não há uma leitura unívoca, mas sim que somos seres finitos, contingentes, com uma linguagem espacio-temporal, que apreendemos a verdade num contexto sempre limitado e, portanto, temos sempre uma leitura penúltima da realidade. Desta forma, consideramos que pelo facto da forma de vida de ateu denunciar situações de idolatria e caricatura, bem como por alertar para assumimos uma espécie de atitude de douta ignorância, pode ser um primeiro grande passo para uma fé mais autêntica, sincera e real, que aponte para um efectivo referencial último de sentido e realização, e em que a glória de Deus seja o Homem vivo (plenamente realizado), como salienta Santo Ireneu. Perante isto certamente se dá um melhor acolhimento e desvelar do absoluto, em que não fabricamos um deus, mas O adoramos “em espírito e verdade” (Jo 4, 23).[1] E. Lévinas, Totalité et infini, La Haye, 1965, p. 49.
[2] Neste texto, para tentarmos ser claros conceptualmente, concebemos pessoalmente o termo “absoluto” como alusão ao “mistério”, i.e., uma realidade que realiza as funções da divindade, mas mais ampla que esta figura da divindade presente nas religiões do livro. Parece haver congruência entre diferentes tradições ao acentuar a concomitante absoluta transcendência e radical imanência do “mistério”.
[3] Consideramos que a fé do crente para ser uma experiência humana relevante tem que acatar também o espírito crítico. Quando se recusa as instâncias críticas isso pode ser sinónimo de fundamentalismo, fanatismo e intolerância.
[4] Esta campanha ateísta insurgiu-se contra outra campanha que afirmava que os não-cristãos iriam arder por toda a eternidade no inferno. Logo se vê que se trata de mais uma caricatura que seria preciso eliminar.
Se acreditarmos em Homero, Sísifo era o mais sábio e mais prudente dos mortais. Segundo uma outra tradição, porém, ele tinha queda para o ofício de salteador. Não vejo aí contradição. Diferem as opiniões sobre os motivos que lhe valeram ser o trabalhador inútil dos infernos. Reprovam-lhe, antes de tudo, certa leviandade para com os deuses. Espalhou os segredos deles. Egina, filha de Asopo, foi raptada por Júpiter. O pai, abalado por esse desaparecimento, se queixou a Sísifo. Este, que tomara conhecimento do rapto, ofereceu a Asopo orientá-lo a respeito, com a condição de que fornecesse água à cidadela de Corinto. Às cóleras celestes ele preferiu a bênção da água. Foi punido por isso nós infernos. Homero nos conta ainda que Sísifo acorrentara a Morte. Plutão não pôde tolerar o espetáculo de seu império deserto e silencioso. Despachou o deus da guerra, que libertou a Morte das mãos de seu vencedor.
Diz-se também que Sísifo, estando prestes a morrer, imprudentemente quis pôr à prova o amor de sua mulher. Ele lhe ordenou jogar o seu corpo insepulto em plena praça pública. Sísifo se recobrou nos infernos. Ali, exasperado com uma obediência tão contrária ao amor humano, obteve de Plutão o consentimento para voltar à terra e castigar a mulher. Mas, quando ele de novo pôde rever a face deste mundo, provar a água e o sol, as pedras aquecidas e o mar, não quis mais retornar à escuridão infernal. Os chamamentos, as iras, as advertências de nada adiantaram. Ainda por muitos anos ele viveu diante da curva do golfo, do mar arrebentando e dos sorrisos da terra. Foi necessária uma sentença dos deuses. Mercúrio veio apanhar o atrevido pelo pescoço e, arrancando-o de suas alegrias, reconduziu-o à força aos infernos, onde seu rochedo estava preparado.
Já deu para compreender que Sísifo é o herói absurdo. Ele o é tanto por suas paixões como por seu tormento. O desprezo pelos deuses, o ódio à Morte e a paixão pela vida lhe valeram esse suplício indescritível em que todo o ser se ocupa em não completar nada. É o preço a pagar pelas paixões deste mundo. Nada nos foi dito sobre Sísifo nos infernos. Os mitos são feitos para que a imaginação os anime. Neste caso, vê-se apenas todo o esforço de um corpo estirado para levantar a pedra enorme, rolá-la e fazê-la subir uma encosta, tarefa cem vezes recomeçada. Vê-se o rosto crispado, a face colada à pedra, o socorro de uma espádua que recebe a massa recoberta de barro, e de um pé que a escora, a repetição na base do braço, a segurança toda humana de duas mãos cheias de terra. Ao final desse esforço imenso medido pelo espaço sem céu e pelo tempo sem profundidade, o objetivo é atingido. Sísifo; então, vê a pedra desabar em alguns instantes para esse mundo inferior de onde será preciso reerguê-la até os cimos. E desce de novo para a planície.
É durante esse retorno, essa pausa, que Sísifo me interessa. Um rosto que pena, assim tão perto das pedras, é já ele próprio pedra! Vejo esse homem redescer, com o passo pesado, mas igual, para o tormento cujo fim não conhecerá. Essa hora que é como uma respiração e que ressurge tão certamente quanto sua infelicidade, essa hora é aquela da consciência. A cada um desses momentos, em que ele deixa os cimos e se afunda pouco a pouco no covil dos deuses, ele é superior ao seu destino. É mais forte que seu rochedo.
Se esse mito é trágico, é que seu herói é consciente. Onde estaria, de fato, a sua pena, se a cada passo 0 sustentasse a esperança de ser bem-sucedido? O operário de hoje trabalha todos os dias de sua vida nas mesmas tarefas e esse destino não é menos absurdo. Mas ele só é trágico nos raros momentos em que se torna consciente. Sísifo, proletário dos deuses, impotente e revoltado, conhece toda a extensão de sua condição miserável: é nela que ele pensa enquanto desce. A lucidez que devia produzir o seu tormento consome, com a mesma força, sua vitória. Não existe destino que não se supere pelo desprezo.
Se a descida, assim, em certos dias se faz para a dor, ela também pode se fazer para a alegria. Esta palavra não está demais. Imagino ainda Sísifo indo outra vez para seu rochedo, e a dor estava no começo. Quando as imagens da terra se mantêm muito intensas na lembrança, quando o apelo da felicidade se faz demasiadamente pesado, acontece que a tristeza se impõe ao coração humano: é a vitória do rochedo, é o próprio rochedo. O enorme desgosto é pesado demais para carregar. São nossas noites de Getsêmani. Mas as verdades esmagadoras perecem ao serem reconhecidas. Assim, Édipo de início obedece ao destino sem o saber. A partir do momento em que ele sabe, sua tragédia principia. Mas no mesmo instante, cego e desesperado, reconhece que o único laço que o prende ao mundo é ó frescor da mão de uma garota. Uma fala descomedida ressoa então: "Apesar de tantas experiências, minha idade avançada e a grandeza da minha alma me fazem achar é que tudo está bem". O Édipo de Sófocles, como o Kirílov de Dostoiévski, dá assim a fórmula da vitória absurda. A sabedoria antiga torna a se encontrar com o heroísmo moderno.
Não se descobre o absurdo sem ser tentado a escrever algum manual de felicidade. "Mas como, com umas trilhas tão estreitas?" No entanto, só existe um mundo. A felicidade e o absurdo são dois filhos da mesma terra. São inseparáveis. O erro seria dizer que a felicidade nasce forçosamente da descoberta absurda. Ocorre do mesmo modo o sentimento do absurdo nascer da felicidade. "Acho que tudo está bem", diz Édipo, e essa fala é sagrada. Ela ressoa no universo feroz e limitado do homem. Ensina que tudo não é e não foi esgotado. Expulsa deste mundo um deus que nele havia entrado com a insatisfação e o gosto pelas dores inúteis. Faz do destino um assunto do homem e que deve ser acertado entre os homens.
Toda a alegria silenciosa de Sísifo está aí. Seu destino lhe pertence. Seu rochedo é sua questão. Da mesma forma o homem absurdo, quando contempla o seu tormento, faz calar todos os ídolos. No universo subitamente restituído ao seu silêncio, elevam-se as mil pequenas vozes maravilhadas da terra. Apelos inconscientes e secretos, convites de todos os rostos, são o reverso necessário e o preço da vitória. Não existe sol sem sombra, e é preciso conhecer a noite. O homem absurdo diz sim e seu esforço não acaba mais. Se há um destino pessoal, não há nenhuma destinação superior ou, pelo menos, só existe uma, que ele julga fatal e desprezível. No mais, ele se tem como senhor de seus dias. Nesse instante sutil em que o homem se volta sobre sua vida, Sísifo, vindo de novo para seu rochedo, contempla essa seqüência de atos sem nexo que se torna seu destino, criado por ele, unificado sob o olhar de sua memória e em breve selado por sua morte. Assim, convencido da origem toda humana de tudo o que é humano, cego que quer ver e que sabe que a noite não tem fim, ele está sempre caminhando. O rochedo continua a rolar.
Deixo Sísifo no sopé da montanha! Sempre se reencontra seu fardo. Mas Sísifo ensina a fidelidade superior que nega os deuses e levanta os rochedos. Ele também acha que tudo está bem. Esse universo doravante sem senhor não lhe parece nem estéril nem fútil. Cada um dos grãos dessa pedra, cada clarão mineral dessa montanha cheia de noite, só para ele forma um mundo. A própria luta em direção aos cimos é suficiente para preencher um coração humano. É preciso imaginar Sísifo feliz".
Albert Camus - O Mito de Sísifo

Conferência: “Nihilism, Theology, and the Prodigal Son: or There is no Sex out of Marriage”
Faculdade de Filosofia - UCP - Braga
20.45h Aula Magna; no dia 05/06/09
(Connor Cunningham, filósofo e teólogo, professor da Universidade de Nottingham, Inglaterra)
Se soubesse, dizia. Essa interrogação, no entanto, ainda está colonizada por um ideal de cristandade impossível. Para já, importa que a Igreja institucional consinta na conversão evangélica que faria dela a Casa Grande de todos os que procuram um sentido e uma alma para a vida: "Na casa de meu Pai há muitas moradas"; "vinde a mim todos os que andais cansados e oprimidos, pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve" e "ai dos que impõem fardos insuportáveis!".
Em vez de catecismos, são indispensáveis roteiros culturais e espirituais para caminhar com esperança no seio da família, na escola, na profissão, na política, no lazer e para formar comunidades de vida. No cristianismo, o divino e o humano só podem andar juntos.
A busca de orientação e de sentido é tão antiga como a vida humana. Dela nasceram religiões e filosofias. A razão, porém, não é tudo nem a única instância. Também acreditamos em Deus por motivos afectivos, estéticos, vivenciais".

E ilumina a noite do meu coração?
Tu me guias com a tua mão maternal.
Se me deixas, não poderei avançar mais,
Nem sequer um único passo.
És o espaço que envolve todo o meu ser
E no qual tu te ocultas.
Se me abandonas, caio no abismo do nada,
De onde me chamaste à vida.
Estás mais próximo de mim do que eu próprio,
Mais íntimo que o meu próprio íntimo.
E, contudo, ninguém te pode tocar nem ouvir.
E nenhum nome te poderá aprisionar:
Espírito – Santo – Eterno – Amor.


